Da paz total fracassada de Petro ao militarismo de De la Espriella: o que acontecerá com os grupos armados na Colômbia?

Foto: Flavia Carpio/Unplash

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25 Junho 2026

A política de segurança do presidente eleito de extrema-direita dá uma guinada radical em direção a uma abordagem linha-dura, com um exército enfraquecido e recursos escassos para financiá-lo.

A reportagem é de Camilo Sánchez, publicada por El Diario, 24-06-2026.

Em Putumayo, região de selva próxima à fronteira com o Equador, o governo de Gustavo Petro estabeleceu recentemente um centro para o Comitê Nacional de Coordenação de Combatentes. O centro abriga aproximadamente cem guerrilheiros que aguardam ali desde 14 de junho em um estado de profunda incerteza. O processo de paz com o governo progressista os levou a esse confinamento temporário, onde já entregaram suas armas sem um arcabouço legal sólido ou um caminho claro para sua transição à vida civil. Além disso, os dias dos negociadores oficiais estão contados: o presidente eleito, o direitista Abelardo De la Espriella, que prometeu uma guerra total, deve assumir o cargo em 7 de agosto.

O compromisso de Petro com a política de "paz total", que o levou ao poder em 2022, terminou sem acordos definitivos e com grupos armados mais fortes do que no início do processo. O ELN, grupo guerrilheiro com raízes castristas, mantém o controle de áreas na fronteira com a Venezuela; grupos dissidentes das antigas FARC se expandiram; e os sequestros, quase erradicados anos atrás, registram novamente cerca de 350 casos por ano. De la Espriella, advogado criminalista de 47 anos, venceu as eleições no último fim de semana com uma promessa simples: retornar a uma abordagem militar em vez das concessões dos últimos quatro anos. Ele não especificou, no entanto, como ou com quais recursos fará isso.

De qualquer forma, Washington já vinha se movimentando antes mesmo de o presidente eleito detalhar seus planos. A estratégia que o secretário de Estado americano Marco Rubio denominou Escudo das Américas remodela a região sob uma estrutura de segurança continental e coloca a Colômbia no centro. O Equador, governado por seu aliado de direita Daniel Noboa, foi o primeiro a assinar um acordo de cooperação militar com os Estados Unidos para combater o narcotráfico e o crime organizado. E De la Espriella assume a presidência como um novo parceiro natural nessa rede, o que põe fim a quatro anos de relações tensas entre Bogotá e Washington.

Uma leitura para altas horas da noite

Nesta história, o contexto importa. Os fenômenos de violência que De la Espriella herdou não são exatamente os mesmos de 2002, quando o país estava preso em uma espiral de sequestros em massa, massacres paramilitares e um movimento guerrilheiro que ameaçava os centros urbanos. “Havia uma forte sensação de perda de controle”, lembra María Victoria Llorente, diretora da Fundação Ideias para a Paz.

Hoje, o conflito apresenta uma anatomia diferente: grupos armados controlam territórios fronteiriços, disputam rotas de tráfico de cocaína e lutam até a morte pela riqueza do subsolo. Especificamente, a mineração ilegal de ouro, cobre e elementos de terras raras tornou-se uma de suas principais fontes de financiamento e, ao mesmo tempo, um recurso que a Casa Branca encara com suspeita devido ao seu valor estratégico na corrida global por materiais essenciais para semicondutores e para o desenvolvimento da inteligência artificial.

A Colômbia também é o maior produtor mundial de cocaína. A droga alimenta o derramamento de sangue, mas também sustenta economias rurais inteiras e moldou a relação entre Bogotá e Washington por décadas. Na reta final de seu governo, Petro retomou uma campanha de bombardeios contra grupos violentos. No entanto, segundo diversos especialistas consultados, foi uma medida insuficiente e tardia.

Assim, a Colômbia encerra o ano com 262 mil hectares de plantação de coca, o maior número desde o início dos registros, e uma erradicação manual de apenas 9.400 hectares em 2024, o menor nível em uma década. Diante dessa situação, De la Espriella promete fumigar 300 mil hectares em seus primeiros meses. Llorente não questiona sua enorme vontade política: “Isso exige um aparato militar que não temos”.

Este alerta é reforçado pelo consultor de segurança Hugo Acero: a compreensão da realidade por parte do presidente eleito está defasada em duas décadas. “Desde 2016, ficou claro que não existe mais um conflito armado político. Não há guerrilhas, apenas crime organizado transnacional.” Ele explica que os dissidentes das FARC e do ELN não buscam mais a revolução, mas sim o controle do ouro e de plantações ilícitas. Portanto, lamenta que De la Espriella assuma o cargo com uma doutrina concebida para um inimigo que já não existe.

Quem vai pagar pela guerra?

Camilo Cruz, analista político e doutor pela Universidade Nacional Autônoma do México, prevê que o combate às drogas voltará a ser o foco central da segurança. Em sua visão, a estratégia combinará o combate a grupos criminosos com “a lógica de proteção contra o narcotráfico que os Estados Unidos estão promovendo para a região”. Ele observa que as recentes operações militares dos governos do Equador e da Venezuela contra a mineração ilegal fazem parte dessa nova ordem. “Isso vai se tornar uma agenda”, acrescenta Cruz, “e já esteve parcialmente presente nesta eleição”.

O cientista político Jorge Mantilla, pesquisador em segurança e conflitos armados, concentra o problema em termos de capacidades: “Atualmente, estamos vivenciando uma redução significativa no tamanho das forças armadas: poder aéreo, efetivos uniformizados, inteligência, capacidades operacionais e logísticas. E essa ofensiva anunciada atinge justamente onde dói.” Financiá-la obrigará o Estado a escolher: de qual orçamento será desviado para financiar uma guerra de alta intensidade?

Acero apresenta alguns números: o governo anterior destinou 17 trilhões de pesos (aproximadamente 3,5 bilhões de euros à taxa de câmbio atual) para a compra de caças Gripen suecos. "Não vamos ter um conflito internacional, e isso não é bom para combater máfias bombardeando aeronaves." A esse fardo somam-se outros 13 trilhões de pesos (2,7 bilhões de euros) em despesas herdadas de Petro. Com as finanças sufocadas e a promessa de campanha de não aumentar impostos, o especialista vê apenas uma saída: seguir os passos de Uribe em 2002 e impor um imposto sobre grandes fortunas, pago uma única vez.

Em todo caso, Llorente não descarta a possibilidade de que o novo Ministério da Defesa, sob a liderança de De la Espriella, possa obter vitórias iniciais: operações midiáticas que mobilizem a opinião pública. "Imagine se, no primeiro mês, o Exército eliminar 'Mordisco'", diz ele, referindo-se ao comandante dissidente das FARC. "Com a ajuda da inteligência estrangeira, uma operação dessas seria muito popular." Mas confundir esse tipo de jogada publicitária com uma política sustentável e bem estruturada é, em sua opinião, um risco: "Isso resolverá algum dos problemas fundamentais de ordem pública que temos? Não."

O desafio, num país que tem sido terreno fértil para diversos confrontos políticos há mais de meio século, é significativo. Por essa razão, Jorge Mantilla fundamenta o debate nas realidades do terreno, alertando para o impacto do envio do Exército, como se espera que o novo presidente faça, para áreas onde o crime organizado já exerce um controle sofisticado sobre o tecido social. Tal ofensiva, explica ele, não só desencadeará violência, como também agravará a crise humanitária nesses mesmos municípios rurais e periféricos que, paradoxalmente, rejeitaram o projeto de De la Espriella nas urnas.

Trump estabelece o contexto

A ofensiva militar também apresenta riscos que vão além das preocupações fiscais. Jenny Pearce, professora visitante da London School of Economics com décadas de experiência no estudo da violência política na América Latina, destaca que o contexto internacional favorece uma abordagem linha-dura. “Estamos em um momento global que incentiva a violência contra a oposição”, explica. “Trump estabeleceu o padrão: o narcoterrorista é o novo comunista. Um inimigo que justifica quase tudo.”

Sob essa premissa, os direitos dos cidadãos frequentemente vacilam. O reflexo mais claro dessa deriva é El Salvador sob Nayib Bukele, um modelo admirado pelo novo presidente da Colômbia, que em certo momento o considerou "fraco". Lá, a construção de megaprisões e a drástica redução dos homicídios serviram de plataforma para o controle absoluto das instituições. No fim, como nos lembra Pearce, o cálculo por trás dessas estratégias transcende o discurso da ordem pública: "As dificuldades reais enfrentadas pela população, como o medo da criminalidade, são muito lucrativas para os políticos".

Acero resolve o debate fundamental: nenhuma facção política encontrou uma solução que garanta a coexistência pacífica e o monopólio estatal do uso da força na Colômbia. A primazia de uma abordagem militar não prevaleceu, e uma abordagem puramente social se mostrou insuficiente sem instituições fortes que garantam os direitos. Mesmo assim, De la Espriella insistiu em apresentar o problema como uma alternativa preto no branco: rendição voluntária ou a expulsão militar dos "bandidos".

Essa retórica, além disso, entra em conflito com um país muito mais fragmentado. “A sociedade civil não é a mesma de vinte anos atrás”, observa Mantilla. “Abelardo pode ser mais radical que Uribe, mas não o deixam fazer o que bem entender.” A mobilização cidadã e um eleitorado de centro-esquerda consolidado surgem, portanto, como o único contrapeso real a um novo presidente com grandes promessas, um exército debilitado e cofres vazios. Apesar do enorme custo humano que se avizinha, aqueles que conhecem a dureza e a complexidade do conflito concordam: esta não será a guerra que De la Espriella prometeu.

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