Um governo não deve se limitar a corrigir as falhas do mercado, defende Mariana Mazzucato

Foto: Unsplash/Adam Śmigielski

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21 Julho 2026

Crescimento, desenvolvimento, sustentabilidade, prosperidade compartilhada e uma série de outros conceitos que envolvem a ação governamental podem permanecer meros slogans se não forem traduzidos em políticas públicas concretas guiadas pelo bem comum, enfatiza Mariana Mazzucato, uma das vozes mais proeminentes em termos globais na crítica e na reformulação do papel do Estado em relação aos mercados.

A reportagem é de Dora Villanueva, publicada por La Jornada, 16-07-2026. A tradução é do Cepat.

Desde o ano passado, a professora da University College London lidera uma aliança entre o Instituto para Inovação e Propósito Público (IIPP) da mesma universidade e o governo mexicano. O foco central dessa colaboração é apoiar a concepção e a implementação de uma agenda econômica que inclui o Plano México para uma estratégia industrial verde, o Plano Nacional da Água e o desenvolvimento regional por meio de polos de bem-estar.

Em entrevista ao jornal La Jornada, a especialista em economia da inovação e autora de diversos livros enfatiza que o objetivo desta colaboração é “contribuir para que o Plano México seja o mais transformador possível”, promovendo políticas públicas concebidas como missões cujo objetivo final é solucionar problemas concretos da população relacionados à habitação, saúde e energia; em suma: o bem público.

Em uma conversa que revisita o trabalho da pesquisadora e sua equipe no México e no Brasil, abordando os argumentos apresentados em obras como O Estado empreendedor. Desmascarando o mito do setor público vs. o setor privado (Portfolio-Penguin, 2014) e aquelas presentes em La economía del bien común: Una nueva brújula – com lançamento previsto para setembro em espanhol – e discutindo o “problema da austeridade” e o fato de que ela simplesmente “não funciona”, Mazzucato oferece algumas reflexões sobre os desafios enfrentados pela economia mexicana para impulsionar a inovação.

Entre esses desafios, destaca-se um setor financeiro “altamente concentrado”, com uma estrutura quase monopolista, onde o setor bancário de investimentos também carece da força necessária para abrir o mercado e promover investimentos em inovação e desenvolvimento. “O fato de não haver um sistema bancário público adequado, como no Brasil, também significa que os bancos privados podem cobrar taxas excessivas do setor privado porque há menos concorrência”, explica a pesquisadora.

“Se esses pontos-chave não forem levados em consideração no México, se o sistema bancário não contar com um setor privado que invista suficientemente na parte produtiva da economia, se os bancos públicos estiverem muito fragmentados e não trabalharem de forma coordenada com o Plano México, e se não forem impostas condições ao setor privado para incentivar o investimento e a inovação em áreas como o plano hídrico, então será muito difícil alcançar esses objetivos (do bem público).

“E repito, não se trata de dizer a todos o que fazer; isso mataria o empreendedorismo e a inovação, como costuma acontecer. Trata-se de um objetivo público sólido. Portanto, acredito que a oportunidade oferecida pelo Plano México reside em transformar esses desafios gerais, atualmente muito verticais (saúde, energia, infraestrutura), em missões intersetoriais”.

O trabalho colaborativo impulsiona a inovação

E a partir daí, sem falar especificamente sobre o México, a ênfase da acadêmica recai sobre como os Estados se conectam com os mercados e o setor privado para inovar e gerar riqueza: “É impossível alcançar prosperidade compartilhada se continuarmos a ter governos que acreditam que sua função se limita a corrigir as falhas do mercado e um setor privado que recebe subsídios”.

Nesse ponto, Mazzucato destaca que a elaboração das políticas públicas voltadas para o bem público, onde diferentes ministérios se coordenam em prol de um objetivo comum, fomenta uma burocracia mais criativa.

Ao mesmo tempo, envolver o setor privado por meio de certas condições em contratos e acesso a financiamento é outra forma de refinar a orientação das políticas para o bem comum.

“Colocar o telos, o objetivo, nos contratos desde o início (...) garante que o setor privado cumpra sua função com o apoio público, mas condicionado a que o investimento e a inovação sejam orientados para objetivos. Essa é uma maneira de aumentar não apenas o investimento produtivo, mas também seu foco”.

“Quando um Estado simplesmente busca agradar o setor privado e concede contratos absurdos, prejudica a população, o planeta e até mesmo o crescimento, já que o setor privado não é forçado a inovar para atingir um objetivo público. Quando socializamos os riscos e privatizamos as recompensas, permitimos lucros excessivos”, explica.

Nesse sentido, o próprio gasto público pode garantir que as compras públicas não se concentrem apenas na análise de matrizes de custos e preços, mas também priorizem os resultados dessas compras em toda a cadeia produtiva, desde a utilização de fornecedores locais até a garantia de condições de trabalho e salários justos para a força de trabalho.

“A chave é que esses investimentos públicos em uma estratégia industrial não podem se limitar a simplesmente dizer: ‘vamos ter um plano de infraestrutura, um plano de energia ou um plano de saúde’. Eles devem ser concebidos de forma que, em última análise, resolvam os problemas que afetam a população do país”.

“A condicionalidade dentro das parcerias público-privadas produz reciprocidade, mutualismo e simbiose. No México, acredito que a oportunidade reside no Plano México, que inclui planos para energia, saúde, habitação e infraestrutura”, destaca a também escritora.

Nesse ponto, ela reitera que garantir o bem público requer orientação dos governos e envolve pelo menos cinco aspectos: propósito e direção, definição do que realmente se pretende alcançar, participação da comunidade na elaboração de políticas, compartilhamento de conhecimento para evitar a privatização, pré-distribuição dos benefícios, riscos e recompensas de uma política e garantia de transparência e responsabilidade.

A falta de ação custa mais caro

Embora a formulação de políticas seja um aspecto importante para melhorar a eficiência dos gastos, Mazzucato é questionada sobre como o investimento público pode ser impulsionado em uma economia como a do México, que, dada a sua margem fiscal, enfrenta a austeridade.

A pesquisadora conclui: “O problema da austeridade é que ela não funciona”, enfatizando que as regras fiscais devem considerar o custo da falta de ação a longo prazo.

“É o que os cientistas climáticos sempre disseram: o custo da falta de ação é maior do que o custo da ação. Portanto, parte das regras fiscais não deveria ser ‘gastar, gastar, gastar e não se preocupar’. Isso seria absurdo. É claro que as regras fiscais são necessárias. Trata-se de entender que apertar os cintos de forma reativa pode acabar custando mais caro depois”.

De modo geral, ela enfatiza que o trabalho realizado pelo IIPP “foca-se em aumentar a capacidade do Estado, as capacidades dinâmicas dentro da estrutura estatal para servir o povo, porque, caso contrário, é apenas um slogan. É fácil ter uma boa política, mas se você não tem a capacidade para implementá-la, então está perdido”.

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