26 Junho 2026
"Não! Jesus, não ficaria neutro. Jesus sendo homem e Cristo sendo Deus, novamente não se limitaria a dividir a sociedade entre 'puros e impuros', mas entre 'justos e injustos'", escreve Rafael dos Santos da Silva, doutor em Sociologia, professor na Universidade Federal do Ceará e membro do Movimento Igreja em Saída.
Eis o artigo.
Desprovido de qualquer proselitismo religioso, inicialmente vou propor um esforço imaginário em que admitamos a seguinte questão: Jesus, 100% homem, está buscando o Cristo, 100% divino. Ele sai por aí para se defrontar à realidade. Percorrendo as praças de uma grande cidade encontraria milhares de pessoas em situação de rua; assim como em Belém, hoje Palestina, não haveria abrigo suficiente.
Igual como fazia na Judeia, Samaria e Galileia, ao visitaria as periferias encontraria famílias inteiras sem acesso a habitação digna, muitas vezes morando em construções precárias, quando muito erguidas sob os leitos dos rios ou sem qualquer infraestrutura de saneamento básico, água potável ou coleta de lixo. Por toda cidade encontraria pessoas expostas a condições sub-humanas, imersas na pobreza profunda. Sem andar muito, toparia com crianças coletando alimentos em lixões e sendo operário trabalharia seis ou sete dias por semana, sem tempo de ir ao casamento na Galileia, ressuscitar o Lázaro ou curar o cego; acaso visitasse um parente nas prisões do Ceará, talvez o encontrasse com os dedos quebrados, seus corpos mutilados e mentes adoecidas diante da força bruta.
O que faria Jesus se sua casa fosse inundada em função do desmatamento realizado por uma grande companhia estrangeira? O que diria sobre os grandes empreendimentos tecnológicos que negam direitos aos povos tradicionais? Qual seria seu posicionamento diante da produção de alimentos com a utilização indiscriminada de agrotóxico a condenar centenas de agricultores a uma vida sem saúde? O que faria ao saber que a fortuna de um, apenas um, cearense superaria o PIB de 184 municípios, onde habitam mais de 6 milhões de pessoas?
E se tudo isso coincidisse com a possibilidade do processo eleitoral? E se alguém lhe acossasse dizendo: senhor, essa gente vive na pobreza e na opressão. Como vê, não tem casa, perambulam pelas ruas. Estão afetadas aqui pela exclusão, ali pela desigualdade, acola pela fome. Expostas à violência urbana, convivem com toda sorte de corrupção. Mais do que pagar pesados impostos, elas deveriam votar?
Estou convencido de que Jesus Cristo, não lavaria as mãos e novamente reproduziria o que Marcos registrou no cap. 12: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é Deus...”.
Atualizando as perguntas teríamos: hoje, Jesus Cristo se envolveria com a política? Ele, participaria de movimentos coletivos? Tomaria parte das decisões sociais?
De verdade, Marcos cap. 12 é uma passagem bastante polêmica e muito utilizada para justificar a divisão entre a esfera pública e a divina, como se esta última pudesse ser separada sem qualquer critério. Sabe-se que teologicamente Jesus e Cristo são ao mesmo tempo a manifestação do divino e do humano. Sendo Jesus a própria expressão humana e Cristo o ungido de Deus. Essas dimensões são importantes se o objetivo é alcançar a inteligência da mensagem política de Jesus.
Então, quem respondeu aos fariseus: Jesus ou Cristo? Para ser fiel a teologia, é preciso dizer: ambos. Mas do ponto de vista sociológico, foi Jesus com a concordância do Cristo, quem bem colocou a questão. Os principais exegetas ao contextualizar a frase na história assumem que Jesus se inseria radicalmente na vida pública do seu povo, e ao fazê-lo lançava mão de leitura política completa, consequente e especialmente critica. Assim, não é muito pensar que, ao aceitar participar da realidade política do seu tempo, Jesus se encontrava com o seu maior projeto: o Cristo.
No seu movimento político, Jesus abriu mão da neutralidade especialmente ao optar claramente pelos empobrecidos. Com efeito, sua divindade, como disse Frei Betto [1] “não se opôs à humanidade”, mas se cristalizou e tornou-se plena. Isso reforça as palavras de L. Boff no já clássico Jesus Cristo Libertador: [2] “humano assim como Ele só poderia ser Deus, mesmo”. Nessa dimensão, o “cristianismo, é uma vivência concreta e consequente na estrutura crítica da sociedade...”. Segundo Betto, isso consiste especialmente em “...escolher de forma fiel, indiscriminada e inabalável, o outro...”. Afirma o dominicano: “para se tornar discípulo, primeiro é preciso fazer a opção pelos pobres”, Na sequência, é riquíssima a percepção de L. Boff ao atestar que o cristão “não é um membro confessional de um partido...”. Isso qualquer um pode ser.
De verdade, na visão de Leonardo “cristão mesmo, é aquele que assume a radicalidade humana pela vivência de Cristo, negando a servidão sistêmica e a legalidade estreita que serve apenas de manutenção das estruturas”. O teólogo - agora baseando-se em Ratzinger [3] que formulou a “completa hominização do homem” e supôs ser esta a própria “hominização de Deus...” - sentenciou: “não é o cristão e o católico quem é bom, verdadeiro e justo... mas é o bom, o verdadeiro e o justo, quem é cristão e católico”.
Novamente, boa leitura fez Frei Betto ao atestar ser um erro afirmar que “o Reino de Deus fica apenas no “pós-morte, na eternidade”. Para o frei “o Reino de Deus não é um lugar, mas um novo modo de pensar e atuar”. Razão pela qual, é absolutamente natural imaginar que Jesus, ao assumir sua vida pública, não quis fazer outra coisa senão trazer um novo projeto de sociedade, que bem dito em Betto é “livre das opressões e pautada nas relações pessoais de partilha”. Projeto este completamente oposto à sociedade de César. Daí porque “dai a César o que é de Cesar...”.
Aqui, Frei Betto é novamente importante ao concluir que “Jesus foi o grande [precursor] de um movimento social” ação radicada com os pobres e contra toda pobreza. Dessacralizada e anteposta da institucionalidade romana, assentada nas injustiças.
Voltando ao texto, ao mandar devolver a “César o que é de Cesar” Jesus colocava em questão a dimensão política do seu território que sofria o peso da tributação/opressão romana. Na verdade, a lógica é: devolva ao imperador o que é inútil, mas devolva aos povos a justiça e a liberdade. Veja, que a leitura é exatamente outra: “não dê a Cesar o que é de Deus”. Ou seja, a dignidade, a justiça e a liberdade. Isso não pertence a Cesar, mas a Deus. Quando contextualizada, o relato encontrado em Marcos 12, é na prática um tratado divino/terreno. Sob o ponto de vista teológico, é Deus “homem” fazendo suas escolhas. Do ponto de vista sociológico é o homem/Deus assumindo seu destino no mundo a realizar o movimento necessário entre fé e política.
Nos dias atuais, especialmente no processo político/eleitoral, devemos agir à luz de Jesus e também de Cristo. Nossa visão política precisa ser encarnada pela nossa fé, sob pena de perder sua essência. Se é verdade que a “fé sem obras é morta”, é preciso compreender que a obra só se torna possível mediada pela ação política, lugar coletivo e de movimento. Ao nos defrontarmos com a realidade, especialmente dos empobrecidos, podemos fazer o percurso de Jesus que sendo 100% homem, fez a caminho à Cristo, 100% divino. Dito de outra forma, moldar coletiva e politicamente o curso da história é etapa fundamental da salvação como processo histórico.
Assim, devemos nos colocar diante dos desafios do próximo pleito eleitoral. Ou seja, ao lado do outro. Agindo e se movimentando coletivamente. No cristianismo, o individualismo é negado. Há farta leitura que comprova esse ideal, a mais conhecida é “onde estiver dois ou mais reunidos em meu nome, ali estarei [4]”. Veja, a condição do cristianismo passa pela vida coletiva. Contudo, caso você tenha alguma dificuldade para tomar partido, reflita as boas palavras do bispo católico Pedro Casaldáliga que dizia: “na dúvida, fique do lado dos pobres...”.
De verdade, é preciso ter muito cuidado com os fariseus dos nossos tempos. Especialmente quando os falsos profetas, prevendo a potência do evangelho, querem separar a fé da política, utilizando-se para isso do próprio evangelho. Nesse sentido, é oportuno entender que não raras às vezes, as próprias palavras de Marcos que aqui trazemos como referência, são utilizadas para negar a junção entre fé e política.
Em qual cenário, não faltam oportunistas para lembrar que, o que é de Deus não são as coisas terrenas. Ora, se essa leitura estivesse correta, todo o esforço de Jesus teria caído pôr terra, justamente porque joga para a outra dimensão a possibilidade da justiça que deve ocorrer no imediato. Ou pior, espera que tal justiça, se houver, esteja no colo do opressor.
Ao contrário, Jesus fez a leitura política necessária. A opressão, a cobiça e o poder terreno representado no dinheiro, deve ser dada a Cesar. Mas, a dignidade, a justiça e a liberdade, sejam dadas a Deus. Logo, sendo de Deus, essas coisas “terrenas” devem moldar a forma e o comportamento político do cristão. Isso porque o movimento político de Jesus já alertava para a existência dos falsos profetas que ontem questionavam suas práticas, e que hoje pregam com bravatas de “deus, pátria e Família”. Eles arrotam morais opressoras e rogam à verdade, ainda que tenham que rasgar o evangelho e condenar novamente Jesus.
Ao agir à luz de Jesus Cristo, precisamos identificar os fariseus de hoje. Boa chave de leitura vem de Dostoiéski, ao afirmar que “ainda que me provem que Cristo não está com a verdade, eu preferiria Cristo à verdade...”. Por isso, atenção: assim como ontem, hoje é fácil encontrar pessoas matando e oprimindo em nome de Deus, e elas estarão candidatas nas próximas eleições.
Por isso, é necessário refletir/agir... Certo dia, ouvi Luíz Felipe Pondé – filosofo e ateu convicto - responder algo sobre a vida pública de Jesus Cristo. Indagado se Ele seria de direita ou de esquerda, a resposta foi no mínimo curiosa. Segundo o filosofo, reconsiderado o que seria esquerda ou direita hoje, e mesmo aceitando que tais conceitos não se aplicariam à época de Jesus; “certamente Ele seria um militante de esquerda”.
Por que? Quis saber mais a entrevistadora.
Antes, convém observar que aquilo que era chamado de opressão, hoje a conhecemos por desigualdade. Por isso, ao se opor a opressão/desigualdade a justiça deve ser tomada como método.
Atualmente para ter o alcance necessário, é preciso adjetivar o método “justiça” pelo termo “social”. Logo, a lógica da justiça eleva-se a categoria política da justiça social. Ora, se o método de Jesus foi pautado na justa medida, porque “... sua prática se dava a partir do movimento [político] [5] coletivo”, conclui o ateu: “a preço de hoje, Jesus seria um militante de esquerda”.
Agora podemos resumir as questões iniciais em duas: Hoje, Jesus Cristo se envolveria com a política? Como ele exerceria sua cidadania?
Considerando o método de Jesus que tomado por um alto grau de indignação, o tornou militante; tendo em conta as tradições, a história e o principalmente o evangelho, e depois de refletir a partir da fé que aprendemos e/ou confessamos, já não restam dúvidas: Ele, certamente se envolveria com a política. Com boa razão, participaria da vida coletiva, comunitária e cidadã, e faria das eleições uma excelente oportunidade educativa.
Suas palavras, insistiriam em dar César o que fosse dele, hoje talvez, o voto. Mesmo sabendo ser este um instrumento importante nos dias atuais, Jesus Cristo não se limitaria a isso. Certamente buscaria viver sua hominização/divinização por meio dos novos instrumentos políticos, como a democracia participativa, que vai além do voto. Ou seja, nestas eleições Jesus Cristo, articularia seu pensamento/ação a partir dos elementos: divino/humano; fé/política; justo/injusto.
Ele radicalizaria a democracia participativa como método; instrumentalizaria as novas tecnologias para propagar o Reino como movimento social; denunciaria os falsos profetas que se aproveitam da fraqueza/bondade da sua gente. Chamaria aqueles que defendem “deus, pátria, família” de sepulcros caiados. Hipócritas, os escondidos atrás das leis civis e/ou clericais. Justamente aqueles que mandariam novamente saltar o Barrabás, e que repletos de ódio e vazios de sentidos zombariam da desgraça alheia.
Não! Jesus, não ficaria neutro. Jesus sendo homem e Cristo sendo Deus, novamente não se limitaria a dividir a sociedade entre “puros e impuros", mas entre “justos e injustos” [6]. Se misturaria aos pecadores. Caminharia com a comunidade LGBTQIAPN+; com as vítimas de feminicídios, com os presos; com os imigrantes, com afetados pelas mudanças climáticas e pela utilização de agrotóxicos. Assumindo sua vida sacralidade, rogaria ao divino dizendo “Pai nosso”, para depois articular sua dimensão política dizendo “pão nosso”, aceitando a sua humanidade como destino irrefreável da salvação/justiça. Realizando, em última instância, o Reino de Deus já aqui entre nós.
Por fim, se algum incauto ousasse perguntar a Jesus Cristo se deveríamos votar, certamente ele repetiria: “dai a César o que é de César...” ou seja, vote! Mas, não somente isso. Completaria: “dai a Deus o que é Deus”. Não abram mão da justiça social até que cesse toda forma de opressão: econômica, política e ambiental.
Notas
[1] Cf. em BETTO, Frei. Jesus militante: evangelho e projeto político do reino de Deus. Ed Vozes, 2022. 4ª reimpressão, 2024, p. 35.
[2] Cf. BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador: ensaio de cristologia critica de nosso tempo. São Paulo: Vozes, versão de bolso. 2012. p 2014-2017.
[3] Cf. Ratzinger, Joseph: Introdução ao cristianismo. Ed Loyola, 2005.
[4] Cf. Mateus, 18.
[5] O grifo é nosso.
[6] Frei Betto. Jesus Cristo Militante.
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