25 Junho 2026
"O que ocorreu com a nova física, deu-se com a biologia, com a comunicação, com psicologia com a cosmologia e recentemente com a IA. Não está ocorrendo o mesmo com a espiritualidade? As reflexões da conferência de Heisenberg, bem me lembro, mostram a urgência de uma revolução espiritual, adequada à revolução científica. Não se trata de falar da espiritualidade como dedução de certas doutrinas religiosas, que podemos derivar ou não", escreve Leonardo Boff.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Atualmente escreve para a revista virtual Liberta do ICL.
Eis o artigo.
As ponderações em 1969 do físico quântico Werner Heisenberg (formulador do princípio de indeterminabilidade das partículas elementares), ainda no fragor da "revolução" da juventude mundial de 1968, mostram-se ainda hoje fecundas. A conferência feita na Associação dos Cientistas Alemães tinha como título "As mudanças na estrutura do pensamento causadas pelo progresso da ciência". Inicialmente, na verdade, o título originário intencionado pelo autor era: "Como fazer uma revolução", slogan bem à moda na época (veja o texto em Más allá de la física, BAC 370, Madrid 1984, 221-232).
A sensatez científica de Heisenberg alterou o título para obviar falsas expectativas. Entretanto, sua visão é pertinente ao tema aqui abordado. Como doutorando da Universidade de Munique, tive a oportunidade de ouvir essa conferência.
Heisenberg mostra como acontecem revoluções nas ciências físicas. Não porque alguns cientistas querem, nem porque um líder carismático galvaniza colegas. As revoluções eclodem impreterivelmente como resposta a fenômenos novos que não conseguem mais ser apreendidos nos quadros da compreensão até então vigente da ciência. Max Planck, um dos formuladores da física quântica, espírito declaradamente conservador, formulou sua hipótese dos quanta de energia, a contragosto, quando não conseguia, através dos princípios da física clássica, interpretar os novos fenômenos eletromagnéticos relacionados aos chamados "corpos negros".
Albert Einstein, da mesma forma, não chegou à sua teoria da relatividade porque quis. Ao estudar o movimento de corpos em relação ao éter (presunção da física de Newton, o elemento estável entre os espaços interestelares), as categorias de espaço e tempo não poderiam mais ser absolutas, mas relativas à velocidade das massas. Tudo seria relativo a um ponto a partir do qual se calculariam as velocidades. Tudo, então, é de fato relativo, no sentido de estar relacionado ao ponto que definirmos como referência. O cientista, por mais conservador que seja (e esta era a tendência de Einstein), vê-se obrigado a abandonar certas estruturas de compreensão e a projetar novas. Estas devem dar conta dos novos fenômenos. Caso contrário, os fenômenos permanecem como problemas não resolvidos.
Devemos o mais possível, insistia Heisenberg, evitar inovações desnecessárias (op. cit. 231). Mas quando surge um fenômeno que não recebe explicação nem solução pela compreensão tradicional, então se impõe a revolução." A mudança na estrutura mental vem imposta pelos fenômenos, pela própria natureza e em nenhum momento pela autoridade humana" (op. cit. 230-231). Foi assim que se passou da física de Newton para a física quântica, do cosmos para a cosmogênese, da antropologia para antropogênese, da religiosidade para a espiritualidade.
Heisenberg extrapola do campo das ciências para outros da história humana. Também aqui se verifica a mesma lógica da necessidade de mudança de paradigma. Lutero, referia Heisenberg, não queria fundar uma nova Igreja nem dividir o corpo eclesial. Viu a necessidade de reforma da instituição eclesiástica. Percebeu que a concessão de indulgências em troca de dinheiro abusava da boa-fé dos fiéis. Sentiu a urgência de fazer alguma coisa para remediar tal sacrilégio. Seguiu-se, como fato inevitável, a reforma, cujas demandas à Igreja romano-católica permanecem e foram atendidas somente em parte pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Por isso, se fala da permanente atualidade do princípio protestante, evangélico, libertador e resgatador do leigo como sujeito e não apenas como ouvinte passivo: palavras de Heisenberg.
Comentário meu: somente se faz aquela revolução que se faz, quando chegou à sua maturidade e é resposta à necessidade imperiosa de mudanças sem as quais os problemas persistem, as crises se aprofundam e as pessoas perdem a esperança e o sentido de vida. É o sentimento predominante nos dias atuais, com 63 lugares de guerra e uma disputa feroz pela hegemonia na direção do mundo.
A revolução representa o que deve ser. E o que deve ser tem força por si mesmo. Dispensa autoridades que a confirmem ou a recusem, faz pouco caso dos conservadores e dos progressistas. As mudanças chamadas moleculares, por menores que sejam, fazem seu curso deslocando velhos fundamentos e solidificando novos, sempre à condição de responderem a problemas reais ainda não respondidos. Elas não invalidam o construído anteriormente. Elas o assumem, incorporam-no criativamente, abrindo-se para a apreensão do novo. Este exige, para tanto, uma nova teoria, uma nova linguagem e, por vezes, um novo paradigma.
O que ocorreu com a nova física, deu-se com a biologia, com a comunicação, com psicologia com a cosmologia e recentemente com a IA. Não está ocorrendo o mesmo com a espiritualidade? As reflexões da conferência de Heisenberg, bem me lembro, mostram a urgência de uma revolução espiritual, adequada à revolução científica. Não se trata de falar da espiritualidade como dedução de certas doutrinas religiosas, que podemos derivar ou não.
Trata-se de captar a espiritualidade como dimensão da própria natureza humana, como uma experiência global de religação de todas as coisas entre si, das buscas, dos encontros, das experiências de sentido. Seria qual fio que reúne todas as pérolas para formar um colar. Trata-se, portanto, de algo necessário para atender a uma demanda humana necessária que não está sendo atendida adequadamente. Por isso, ela possui o caráter de uma revolução impostergável.
Estimo que M. Gorbachev tinha razão quando ouvi ele dizer, ao encerrarmos no ano 2000, sob a torre Eiffel em Paris, a elaboração da Carta da Terra, um dos primeiros documentos de uma ecologia integral: “Ou desenvolveremos novos valores e uma espiritualidade da Terra ou então não nos salvaremos”. Ele tinha plenamente razão.
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