17 Junho 2026
"Penso que as próximas eleições, no máximo, poderão tirar do jogo o governo de Netanyahu e eliminar alguma franja demasiado extremista. Talvez possa ser suspensa a lei sobre a pena de morte, mas não sei", escreve Andrea Piazza, em artigo publicado por Settimana News, 18-06-2025.
Eis o artigo.
A historiadora e escritora Anna Foa, comentando o famigerado vídeo do ministro Ben Gvir com os ativistas da Flotilha, em um recente artigo no jornal La Stampa, escrevia assim: "Diante de fatos dessa natureza, os judeus da diáspora não podem deixar de se revoltar, de gritar que essas práticas, desejadas sim por um ministro extremista, mas executadas sem protestos pelos soldados daquilo que gosta de se definir como 'o exército mais moral do mundo', são aberrantes. Se não o fizerem, não poderão deixar de ser cúmplices. Mas se não o fizerem, deixarão também que em todo lugar o mundo judaico seja assimilado a esse horror. Deixarão que toda a diáspora seja arrastada para o abismo".
Essas palavras — em particular aquela última frase com a referência ao abismo — fizeram-me pensar em um livro recentemente publicado na Itália pela Laterza, intitulado Nell'abisso. Dal sionismo al genocidio: la sconfitta morale di Israele [No abismo. Do sionismo ao genocídio: a derrota moral de Israel]. O autor é Omer Bartov, um judeu-americano nascido em um Kibutz israelense em uma família que, como ele conta, sempre foi sionista.
Refletindo sobre o sionismo
Também Bartov, como Anna Foa, é historiador. Ele leciona "História do Holocausto" na Universidade Brown e é considerado, como recorda a orelha do livro, "uma das principais autoridades em matéria de genocídio".
Em uma recente entrevista ao jornal israelense Haaretz, Bartov declarou: "O sionismo tornou-se algo que não reconheço. Tornou-se a ideologia do Estado. E tornou-se não apenas militarista e expansionista, mas também racista, extremamente violento e, em definitivo, uma ideologia que prejudica profundamente tanto o indivíduo quanto a coletividade». Essa é também, em boa medida, a tese do seu livro cujo título original, não por acaso, é Israel: What Went Wrong (Israel, o que deu errado).
Bartov não aponta o dedo contra o sionismo tout court, mas sim contra a involução que teria descaracterizado esse movimento. Um movimento que, nas palavras do autor, "nasceu para libertar os judeus da Europa da opressão e das perseguições, transformou-se em uma ideologia de Estado de matriz etnonacionalista, cada vez mais orientada para a expulsão dos palestinos e para sua brutal submissão ao domínio israelense".
Um nó central na análise do historiador é a ausência de uma carta constitucional. A esse tema Bartov dedica o capítulo intitulado A Constituição que faltou. "Se, antes de 1948 — escreve nas páginas da introdução — o movimento [sionista] havia possuído duas faces, uma de libertação da opressão e outra de colonialismo de assentamento e nacionalismo étnico, uma vez fundado o Estado, foi esta última a prevalecer na política israelense. De maneira não muito diferente de outras concepções e filosofias políticas, como, por exemplo, o socialismo e o fascismo que, após assumirem o poder do Estado, se transformaram radicalmente, também o sionismo começou a se transformar assim que se tornou a ideologia oficial de Israel".
A tese central do livro é que uma Constituição fundada nos princípios progressistas da Declaração de Independência israelense teria contribuído para conter os piores impulsos do sionismo e teria aberto o caminho para uma sociedade liberal para todos os seus cidadãos.
Um capítulo muito interessante é o intitulado A síndrome do nunca mais. Nessas páginas, Bartov parte da suposta unicidade histórica da Shoah: essa ideia, sustenta ele, é uma obviedade, pois nenhum fato histórico é perfeitamente idêntico a outro; ao mesmo tempo, é uma contradição, porque «qualquer evento histórico ocorre em um determinado contexto e pode ser compreendido unicamente reconstituindo suas causas, comparando-o com os eventos a ele relacionados e examinando sua relação com outros desenvolvimentos paralelos».
Esse ponto da unicidade histórica ou não da Shoah é um nó crucial. De fato, a política israelense, indicativamente após o processo a Adolf Eichmann e após os anos 1970, começou a cultivar a obsessão de uma nova Shoah e, consequentemente, desenvolveu a ideia da unicidade histórica da Shoah. Essa constatação leva Bartov a falar do «nunca mais», ou seja, daquela "promessa onipresente que se difundiu por toda a Europa após o fim da guerra".
O "nunca mais" afirmado após a Shoah deve ser entendido como voltado à defesa de todos os seres humanos, ou diz respeito apenas aos judeus?
É justamente a partir dessa pergunta que toma impulso o último livro escrito por Anna Foa, intitulado precisamente Mai più [Nunca mais]. A autora reconstrói a história do antissemitismo e o analisa em relação ao antissionismo: duas coisas distintas que, porém — sublinha a autora — possuem também nexos que "não podem ser negados; por exemplo, como julgar a escolha do terrorismo palestino nos anos 1970-1980 de atacar a diáspora judaica, como no Marais parisiense, ou como em Roma em 1982? E o que dizer do ataque terrorista cometido em Sydney no dia 14 de dezembro de 2025 contra um grupo de judeus que celebravam o primeiro dia de Hanukkah?"
É inegável o fato de que o antissemitismo foi assumido pela política israelense como escudo contra qualquer crítica. É precisamente por esse motivo que «a acusação de antissemitismo, até um século atrás pertinente e aderente à realidade, encontra-se hoje desacreditada porque é dirigida, de maneira sistemática e generalizada, a qualquer pessoa que acuse o governo israelense de ter perpetrado um genocídio em Gaza e de estar realizando na Cisjordânia a limpeza étnica dos palestinos».
O nó em torno do qual se desenvolve o livro de Foa é resumido por estas frases nas últimas páginas do livro: "Se não nos remetermos ao valor de advertência universalista que essa memória [da Shoah] deve ter, se lhe for atribuído um valor apenas e exclusivamente para os judeus, se for vista como uma comemoração, uma reparação, e não como um poderoso instrumento voltado a combater os genocídios onde quer que ocorram, essa memória perde valor, importância, sentido".
Conversando com Anna Foa
Após ter lido esses dois importantes livros, tive a oportunidade de dirigir algumas perguntas a Anna Foa para aprofundar alguns aspectos e ampliar a reflexão.
— Gideon Levy, em um artigo no cotidiano israelense Haaretz, falou sobre o livro de Omer Bartov. O jornalista critica a posição do historiador dizendo que, embora muitas afirmações sejam compartilháveis, o sionismo não mudou ao longo do tempo, como sustenta Bartov, porque, na realidade, sempre teria sido marcado pelo racismo e pelo nacionalismo. O que a senhora pensa a respeito?
Em muitas coisas concordo com Levy e o considero uma figura extraordinária. Permanece o fato de que ainda tenho algumas dúvidas — cada vez menores, mas algumas dúvidas — sobre a possibilidade de definir o sionismo, desde o início, de maneira totalmente negativa.
Houve possibilidades que agora não existem mais. Espero, de qualquer forma, que possam retornar, que possa haver um renascimento, não tanto do sionismo em si, mas do Estado de Israel e de seus habitantes, porém de outra maneira. Espero que possa haver uma mudança real, não uma pequena repintura como a que se vislumbra com as próximas eleições.
— A primeira acusação dirigida àqueles que criticam Israel é a de antissemitismo. Do outro lado, sustenta-se ser antissionista e não antissemita. Parece-me que hoje chegamos a um nível superior: o problema do sionismo, quando falamos da política em Israel, foi superado pelo fundamentalismo.
Concordo totalmente; no entanto, há também uma crítica ao sionismo que emergiu nesses dois anos: hoje muitos historiadores, partindo do que aconteceu, estão reabordando a história de Israel de maneira muito mais crítica. Há precisamente uma revisitação da história de Israel na qual, para além dos aspectos propagandísticos que tentam salvar a alma de Israel desde o início, analisam-se os momentos coloniais, os massacres e também a relação com os países árabes. Em Israel existe uma historiografia acadêmica muito aprofundada e muito comprometida com essa revisitação da história do País.
Certamente, falar de sionismo hoje de alguma forma não faz sentido. O sionismo alcançou seu objetivo, que era a construção do Estado; agora existem apenas as políticas — digo no plural — dos vários governos de Israel ao longo do tempo, que podem ser criticadas ou aceitas. Creio que se deva superar o sionismo, se se quiser salvar Israel e os palestinos juntos.
É necessário, portanto, superar o sionismo e pensar que Israel é um Estado no qual todos têm os mesmos direitos de cidadãos e no qual não existe o Estado dos judeus, mas o Estado de Israel ou o "Estado de Palisrael" ou "Israelo-palestina", chamemo-lo como quisermos; mas não deve mais ser um Estado confessional.
Poderá assumir diversas formas — foram propostas formas extraordinárias das quais fala justamente Bartov — que preveem a cooperação de dois Estados distintos que, porém, se articulam e apresentam unidade em alguns aspectos. São várias, de fato, as possibilidades políticas de um Estado que não quer ser um "Estado completo" em todos os sentidos. Pode haver uma confederação dos dois Estados em vários aspectos, mas não em todos, como dizem alguns observadores.
Dito isso, neste momento estamos completamente deslocados para o outro lado: estamos diante de um Estado que se projeta como um Estado dos judeus e somente dos judeus, preferencialmente expulsando o maior número possível de palestinos.
— Notei no livro de Bartov aquelas páginas onde se fala da solução confederal, avançando várias hipóteses. Detive-me nelas porque, para a SettimanaNews, no ano passado entrevistei o prof. Riccardo Bocco a respeito de um livro seu dedicado à solução confederal. Obviamente, falar nisso neste momento parece absurdo; no entanto, o prof. Bocco falava da importância de falar sobre isso de qualquer forma, para que o tema entre no debate público.
Penso que mesmo apenas o reconhecimento dos palestinos — por parte de mais Estados do que os atuais, e falo em particular dos Estados europeus — conferiria a eles uma legitimação da qual têm absoluta necessidade. Depois disso, é preciso avançar, evidentemente por outros caminhos.
— Gad Lerner, em uma recente publicação na qual criticava as ações contra a Flotilha, pedia que se parasse de considerar judaico o Estado de Israel. Isso me faz pensar que, em seu livro, a senhora evidencia as profundas divergências existentes entre a diáspora na América e na Europa. Entre os judeus na América há um debate cultural e político vivo. Ao contrário, no judaísmo europeu o debate se esvaziou e se acomodou em torno de Israel.
Penso que a diáspora europeia tenha perdido toda forma de vitalidade, de inovação e de cultura. Após 1945 é difícil encontrar uma autonomia cultural da diáspora europeia. No meu último artigo no La Stampa praticamente disse à diáspora italiana e às organizações judaicas italianas: "se não se moverem agora, serão responsáveis por isso".
— Qual é sua opinião sobre as responsabilidades da diáspora em relação aos riscos que existem não apenas para Israel, mas também para o judaísmo em si?
O que aconteceu com os membros da Flotilha — espancados e torturados — é infelizmente "apenas" emblemático da situação que os palestinos vivem cotidianamente. Quando isso acontece com brancos europeus, o mundo se move, e espero que continue. Os próprios ativistas da Flotilha, ao que me parece, declararam aceitar as torturas sofridas porque estas podem servir para levantar o véu que encobre as torturas aos palestinos.
Diante da situação sobre a qual o véu foi levantado, as comunidades judaicas devem dizer muito mais do que a simples afirmação de que Ben Gvir é um louco. Ben Gvir pode ser louco, mas o que dizer dos militares que cumpriram suas ordens? Não podem ser todos loucos como Ben Gvir. E o que dizer de todo o governo?
— Ouvi-a no programa "Otto e Mezzo", no qual falou também de coisas positivas que existem na sociedade civil israelense. Mas tenho a sensação, porém, de que os partidos políticos — inclusive aqueles que se opõem a Netanyahu — não estão à altura da sociedade civil. A oposição está se acomodando ao governo e perseguindo as posições de Netanyahu: por exemplo, pelo simples fato de que Lapid e Bennett, os líderes da oposição, já anunciaram querer excluir os partidos árabes de qualquer futura coalizão de governo.
Certamente, isso é um fato gravíssimo, porque a única possibilidade de mudar a sociedade israelense é renunciar ao sionismo, mas para isso há medo. Também Yair Golan, que é o mais à esquerda, disse recentemente que ainda não é o momento de reconhecer um Estado da Palestina. Mas, "se não agora, quando?"
Penso que as próximas eleições, no máximo, poderão tirar do jogo o governo de Netanyahu e eliminar alguma franja demasiado extremista. Talvez possa ser suspensa a lei sobre a pena de morte, mas não sei.
Não creio, porém, que as eleições possam renovar radicalmente a sociedade de Israel. Acredito que o único impulso, por ora insuficiente, possa vir de baixo, das organizações que trabalham com os palestinos, daqueles que vão aos territórios ocupados, das organizações como Standing Together ou B'Tselem (*); é somente de baixo que pode vir a renovação, não dos políticos tradicionais.
Nota
B'Tselem em hebraico significa "à imagem de", no sentido de Gênesis 1,27; é uma ONG que se ocupa de direitos humanos nos territórios ocupados.
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