11 Junho 2026
Enquanto o Haiti se prepara para disputar a Copa do Mundo da FIFA pela primeira vez desde 1974, missionários brasileiros no país caribenho planejam ajudar os moradores locais a assistir aos jogos – algo que pode ser difícil para a maioria dos haitianos, visto que muitos não têm acesso à eletricidade.
A reportagem é de Eduardo Campos Lima, publicada por Crux Now, 10-06-2026.
Para brasileiros e haitianos, o futebol não é apenas um esporte, mas também uma importante força cultural que fomenta o senso de comunidade e identidade nacional. No Haiti, o futebol é um passatempo onipresente entre as crianças, e muitos meninos e meninas sonham em um dia representar a seleção nacional – assim como acontece no Brasil.
Embora muitos haitianos estejam entusiasmados com o torneio que se aproxima, com início em 11 de junho, a onda catastrófica de violência e a falta de infraestrutura básica em todo o país certamente prejudicarão o clima festivo que uma Copa do Mundo normalmente traz para as nações do Caribe e da América Latina.
Em maio, uma nova onda de criminalidade forçou 300 mil pessoas a fugirem de suas casas em Porto Príncipe. Confrontos entre grupos armados rivais intensificaram a violência em diversos bairros, causando inúmeras mortes.
Desde o início de 2026, pelo menos 2.310 pessoas foram mortas, 1.106 ficaram feridas, 99 foram sequestradas e 699 foram vítimas de violência sexual.
A situação humanitária é devastadora. Mais da metade da população do Haiti precisa de assistência humanitária e cerca de 5,8 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda.
A falta de acesso a saneamento básico é uma dura realidade para milhões de haitianos, e o fornecimento confiável de eletricidade é igualmente escasso para a maioria das pessoas.
“Nosso bairro não tem acesso à eletricidade. Essa é a situação em todos os bairros pobres de Porto Príncipe. Apenas os bairros de classe alta nas colinas têm algumas horas de eletricidade por dia”, disse o irmão Hélio Ferreira, missionário do grupo brasileiro Missão Belém, ao Crux Now.
A organização de Ferreira administra escolas e um centro de nutrição para crianças carentes. Ela opera um jardim de infância e uma escola que oferecem educação e refeições para 3 mil crianças e adolescentes.
“Temos uma TV de 40 polegadas e planejamos exibir as partidas para os moradores locais. Nossa única preocupação é que alguns jogos sejam transmitidos no Haiti à noite, o que cria riscos adicionais”, disse ele.
Sem eletricidade, a maioria das pessoas fica em casa depois das 18h e evita sair.
A Irmã Helia Sange Moreira, nascida no Brasil e membro da Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, afirmou que os haitianos estão particularmente entusiasmados com a participação de sua seleção na Copa do Mundo após uma ausência de 52 anos.
“Apesar de todas as dificuldades que têm enfrentado, estão ansiosos para acompanhar a Copa do Mundo”, disse ela ao Crux Now.
Sua congregação administra uma escola em um bairro pobre com 270 alunos. Moreira disse que, durante as Copas do Mundo, a escola costuma montar um telão na quadra esportiva e reunir todas as crianças lá.
“É como um festival. Eles se esquecem de tudo e simplesmente aproveitam o momento”, disse ela.
Se a programação dos jogos não permitir que as freiras os transmitam na escola, as pessoas provavelmente tentarão assisti-los em um bar local – possivelmente um com gerador – ou em seus celulares. Nenhuma das opções garante uma transmissão ininterrupta.
É claro que a própria escola não está isenta de dificuldades. No momento, por exemplo, precisa de novas carteiras escolares. Mas a eletricidade lá é mais confiável do que em muitas outras áreas.
A eletricidade também é um problema em Marin, nos arredores de Porto Príncipe. A Irmã Maria de Fátima Alves disse que todo o bairro está sem energia.
“Trabalhamos em um orfanato ligado a um hospital camiliano. Durante as Copas do Mundo, costumamos convidar a equipe do hospital para assistir aos jogos junto com as crianças”, disse ela ao Crux Now.
Alves e seus colegas cuidam de 104 órfãos com deficiências físicas ou mentais. A instituição está lotada, então eles tiveram que dividi-la recentemente em duas seções para melhor acomodar as crianças.
De fato, todo o trabalho realizado por missionários brasileiros no Haiti enfrentou sérios obstáculos nos últimos anos. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) lançaram uma missão intercongregacional chamada Nazaré em 2010, após o devastador terremoto que atingiu o Haiti.
Com a intensificação da violência no país caribenho – particularmente após o assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021 – os riscos tornaram-se insustentáveis. Em 2023, a sede da missão foi invadida e saqueada, e as irmãs nascidas no Brasil foram atacadas e ameaçadas.
A missão acabou sendo encerrada e substituída por um novo projeto, desta vez sem o apoio da CRB e da CNBB. Ele tem sido liderado diretamente por um grupo de congregações religiosas, e o trabalho não tem sido fácil.
As Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus passaram os últimos dois anos trabalhando em uma paróquia em Trou du Nord, no nordeste do Haiti. As irmãs realizam atividades educativas para adolescentes e prestam assistência aos enfermos.
“Somos uma missão relativamente nova e temos apenas alguns missionários trabalhando aqui. Temos eletricidade e uma TV, mas não temos antena, então não podemos sintonizar e assistir às partidas”, disse a irmã Katiane Oliveira ao Crux Now.
Brasil e Haiti estão no mesmo grupo da Copa do Mundo e se enfrentarão no dia 19 de junho, na Filadélfia. Segundo Hélio Ferreira, a maioria dos haitianos tradicionalmente torce para o Brasil. Desta vez, porém, ele não tem certeza do que acontecerá.
“Provavelmente torcerei por eles e por nós ao mesmo tempo. Nossos corações estarão divididos”, disse ele.
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