Outro futebol e outro mundo são possíveis… e imprescindíveis

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09 Junho 2026

“Outro futebol é possível e imprescindível: aquele que serve ao encontro e à paz, não à divisão, à manipulação ou ao confronto. Esse futebol que hoje cresce a partir da convicção de todas e todos aqueles que desejam um mundo justo, com igualdade de direitos e oportunidades de desenvolvimento para todo ser humano sobre a Terra, apenas pelo fato de ter nascido”, escreve Javier Tolcachier, pesquisador no Centro Mundial de Estudos Humanistas e comunicador da agência internacional de notícias Pressenza, em artigo publicado por Rebelión, 08-06-2026.

Eis o artigo.

Em poucos dias, as e os apaixonados pelo futebol (e não apenas eles e elas) estarão com os olhos voltados para os acontecimentos da Copa do Mundo de 2026. Um torneio que será disputado em meio a uma crise sistêmica, também de proporções mundiais, e que, assim como muitas de suas edições anteriores, buscará distrair de problemas graves e incontornáveis.

Fazendo um breve retrospecto, a primeira Copa ocorreu no Uruguai, em 1930, em meio à Grande Depressão provocada pela bolha financeira nos Estados Unidos. Quatro anos depois, a Copa foi disputada na Itália de Benito Mussolini. O fascismo descobriu que onze jogadores poderiam lhe ser de grande utilidade, sobretudo com a vitória da seleção nacional.

Em 1938, a França sediou o torneio sob a sombra da guerra que eclodiria pouco tempo depois. Doze anos mais tarde, a Copa sairia de seu esconderijo em uma caixa de sapatos, debaixo da cama do vice-presidente da FIFA, para viajar ao Brasil, que perderia a final para a equipe uruguaia em uma memorável partida decisiva no Maracanã.

A Suíça, que havia permanecido neutra durante a Guerra, deveria simbolizar o retorno da paz na Copa do Mundo de 1954. No entanto, o mundo havia entrado em uma nova guerra entre o bloco socialista e o bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos. A Alemanha, que retornava ao torneio após ter sido proibida de participar, derrotou os favoritos húngaros na final.

A União Soviética conseguiu participar pela primeira vez na sexta edição, realizada na Suécia, em 1958. A luta pela libertação do colonialismo entrava em campo. Pela primeira vez, seleções da Ásia e da África tiveram vagas para participar.

Em 1962, dois anos após o devastador terremoto de Valdivia, a Copa foi disputada no Chile. Um dos quatro estádios utilizados pertencia à mineradora estadunidense Braden Copper Company, nacionalizada nove anos depois pelo governo de Salvador Allende. O Brasil conquistou o troféu pelas mãos de Garrincha e Pelé, mas a alegria não durou muito. O país, presidido pelo progressista João Goulart, seria obscurecido pelo Golpe Militar de 1964, ditadura que só terminaria vinte e um anos depois.

Em 1966, a taça voltaria à Europa e seria conquistada pela Inglaterra, enquanto no México, em 1970, em plena ebulição da onda de rebeldia juvenil e a dois anos do massacre de estudantes em Tlatelolco, o Brasil consagraria seu terceiro título. Os alemães ganhariam seu segundo troféu também como anfitriões, em 1974. Poucos meses antes, havia ocorrido o embargo petrolífero dos países árabes como represália ao apoio de vários países ocidentais a Israel, na Guerra do Yom Kippur.

Enquanto isso, sangrentas ditaduras reprimiam os impulsos revolucionários na América Latina. A Copa de 1978 procuraria acobertar, na Argentina, a terrível violação de Direitos Humanos cometidas pelos sucessivos governos militares, que deixaria 30.000 vítimas.

Os mundiais jamais estiveram separados da política, do dinheiro e do poder.

A Espanha, pouco depois do fim da ditadura franquista, organizou a Copa de 1982, na qual, pela primeira vez, participaram equipes de todos os continentes, um prenúncio da globalização nascente.

No México, em 1986, a “mão de Deus” e os pés de Maradona levaram a Argentina a conquistar seu segundo título, derrotando nas quartas de final a seleção inglesa, com as feridas ainda abertas da guerra nas colonizadas Ilhas Malvinas. Os sul-americanos não conseguiram defender o título na Copa seguinte, na Itália (1990), sendo derrotados pela equipe alemã, cujo povo celebrava a recente reunificação nacional.

Regida pela preeminência do neoliberalismo, em 1994, a Copa do Mundo foi disputada nos Estados Unidos, um país sem tradição no futebol. Em 1998, o evento ocorreu na França, com a vitória da seleção local no Estádio de Saint-Denis, um subúrbio de Paris com grande população imigrante. Um tempo depois, a ultradireitista Marine Le Pen classificaria esse bairro da periferia como uma área “fora de controle”, uma “zona sem lei” nas mãos da “escória”.

Na abertura do século XXI, a Copa foi disputada na Coreia do Sul e no Japão, edição marcada pela corrupção crescente de altos dirigentes da FIFA. O lema do torneio seguinte, disputado na Alemanha, em 2006 (“O mundo entre amigos”), não se refletiu em campo, com recorde de cartões amarelos e vermelhos. Fora dos gramados, milhões de pessoas sensíveis tinham lotado as ruas contra a invasão estadunidense ao Iraque. Essa ofensiva furiosa por recursos petrolíferos e controle geopolítico tentou se legitimar como “guerra contra o terrorismo islâmico”, estigmatizando populações muçulmanas, sem distinção, como fanáticos perigosos.

O grande Nelson Mandela celebraria a escolha da África do Sul como sede da primeira Copa em solo africano, em 2010, apesar dos altos custos da construção de novos estádios, enquanto o país ainda carregava profundas desigualdades herdadas do apartheid. No Brasil, quatro anos depois, os custos milionários das obras também motivaram amplos protestos da população brasileira, antes e durante o torneio. O clamor popular, para além da habitual euforia futebolística que caracteriza o país, insistiu - com razão - que teria sido muito mais importante que o dinheiro dos estádios tivesse sido investido em hospitais e escolas.

A vigésima edição aconteceu na Rússia, em 2018, cuja escolha como sede foi questionada por supostas denúncias de corrupção. O então primeiro-ministro Vladimir Putin disse que considerava as investigações uma tentativa dos Estados Unidos de expulsar Joseph Blatter da presidência da FIFA, como punição por seu apoio à Rússia como anfitriã. A escolha do Catar para a Copa de 2022 foi cercada pelas mesmas suspeitas, somadas a questionamentos sobre violações de direitos humanos. Nessa edição, em uma final não recomendada para cardíacos, a Argentina conquistou seu terceiro título.

A iminente Copa do Mundo de 2026, organizada por México, Estados Unidos e Canadá, não conseguirá ocultar a tentativa de limpeza étnica da população palestina, os bombardeios israelenses e estadunidenses contra o Irã, o sequestro do presidente venezuelano, as operações contra imigrantes, com medidas agressivas, e a descarada ingerência do governo reacionário de Donald Trump. Será uma Copa em meio a uma guerra aberta entre Rússia e Ucrânia, conflitos armados no Sudão e na República Democrática do Congo, catástrofes climáticas e a continuidade da pilhagem dos recursos naturais para beneficiar uns poucos conglomerados financeiros. Nenhum gol poderá aliviar as violações de direitos humanos, a violência contra as mulheres, as tentativas de recolonização, a discriminação racista e o aumento dos problemas de saúde mental.

Assistiremos a uma sofisticada engenharia tecnológica que, fora da disputa esportiva, já está sendo utilizada para vigiar populações e assassinar seletivamente. Os jogos ocorrerão em um cenário geopolítico que, para além de seus resultados esportivos, será marcado por um novo (des)equilíbrio internacional que não se assentará mais na hegemonia do eixo ocidental.

Ocorre que o futebol, assim como o esporte em geral, absorvido por interesses mesquinhos, transforma a alegria em mercadoria e o jogo em negócio. As Copas do Mundo e os megaprojetos esportivos não beneficiam as comunidades, colocam o lucro acima da vida e vendem a ilusão efêmera de que a felicidade pode ser vestida com a camisa de uma seleção nacional.

Frente ao futebol espetáculo, frente ao futebol que oculta a desigualdade e a discriminação, é necessário reivindicar o futebol dos bairros, das comunidades e dos povos. O futebol que sempre nasce e se alimenta do coração dos deserdados, dos excluídos e dos despojados.

Outro futebol é possível e imprescindível: aquele que serve ao encontro e à paz, não à divisão, à manipulação ou ao confronto. Esse futebol que hoje cresce a partir da convicção de todas e todos aqueles que desejam um mundo justo, com igualdade de direitos e oportunidades de desenvolvimento para todo ser humano sobre a Terra, apenas pelo fato de ter nascido. Um mundo humanista.

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