10 Junho 2026
“O mesmo paradigma tecnocrático que trata os trabalhadores como recursos a serem otimizados também trata os animais sencientes como meras unidades de produção. Se o marco moral da encíclica não leva em conta essa realidade, não é porque o problema seja pequeno, mas porque tal marco é estreito demais”, escreve Peter Singer, filósofo australiano, em artigo publicado por Listín Diario, 08-06-2026.
Eis o artigo.
É preciso parabenizar o Papa Leão XIV por ter feito da inteligência artificial o tema de sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas. O mundo está mal preparado para os perigos que acompanham a transformação social e econômica provocada pela IA. O chamado de Leão por maior reflexão e ação sobre essa tecnologia merece a atenção dos formuladores de políticas e das pessoas (crentes ou não), em qualquer lugar que seja.
Leão destaca com razão que a IA constitui uma transformação de dimensão comparável à da revolução industrial e que, assim como na industrialização, o caráter benéfico ou prejudicial da tecnologia dependerá de como ela for utilizada. Também acerta ao afirmar que não se pode confiar na “mão invisível” do mercado para orientar a IA em direção ao bem comum e que sua regulação é urgente.
A encíclica é clara em relação aos limites do tecnoutopismo. A promessa de que a IA libertará a humanidade do trabalho pesado e dará início a uma era de ócio já foi feita em relação à mecanização, à automação e à internet. Mas, em cada ocasião, a grande maioria dos benefícios foi para aqueles que já detinham riqueza e poder, enquanto muitos saíram prejudicados. É o que voltará a acontecer, caso os governos não sejam convencidos a atuarem com determinação, antes que seja tarde demais.
A urgência é evidente, sobretudo, na questão do emprego. Magnifica Humanitas dedica considerável atenção às disrupções que a IA já provoca no âmbito do trabalho e que provavelmente vão se intensificar nos próximos anos.
Leão insiste que o trabalho não é apenas fonte de renda, mas também expressão fundamental da dignidade humana: “um ordinário caminho para a maturidade, o desenvolvimento e a realização pessoal”. Uma sociedade em que a IA concentre os ganhos de produtividade em uma pequena elite, condenando ao mesmo tempo uma grande quantidade de pessoas à “inatividade forçada”, pode ser mais eficiente em um sentido restrito, mas não será uma sociedade melhor, nem com maior bem-estar geral.
Não esperemos uma transição gradual e administrável. É provável que a IA provoque um deslocamento de trabalhadores humanos a uma velocidade e alcance sem precedentes históricos e com efeitos sobre todas as ocupações: radiologistas e advogados, professores e escritores, operários de fábrica e caminhoneiros.
Os tecno-otimistas nos garantem que as novas tecnologias sempre criam novos empregos. No entanto, essa pauta histórica talvez não se aplique a uma tecnologia capaz de realizar não apenas tarefas físicas, mas também cognitivas, em quase todos os âmbitos. O apelo de Leão para que os governos apoiem programas de requalificação, protejam os trabalhadores em tempos de crise e garantam uma distribuição equitativa dos benefícios da IA é bem-intencionado, mas será que também é suficiente?
Os programas de requalificação, por mais bem concebidos que sejam, não podem absorver milhões de trabalhadores deslocados, quando os postos de trabalho para os quais são preparados estão sendo automatizados. É necessário repensar o vínculo entre trabalho e renda, seja por meio de uma renda básica universal, uma redução substancial da jornada de trabalho ou algum outro mecanismo. A questão de como distribuir os ganhos de produtividade da IA, com justiça e humanidade, precisa ser resolvida desde já, não em algum futuro indefinido.
Mas, mesmo que deixemos isso de lado, subsiste a pergunta sobre o que poderá ocupar o lugar que o trabalho possui como fonte de propósito e de vínculos sociais que transcendem as famílias e as comunidades locais. Seria maravilhoso que as pessoas encontrassem satisfação no trabalho voluntário em favor dos desfavorecidos ou na proteção do nosso frágil ambiente natural, mas também parece provável que, para superar o tédio, recorram a respostas menos satisfatórias e menos benéficas para a sociedade.
Aqui, a visão do pontífice em relação à comunidade e à solidariedade poderia oferecer mais. A encíclica reconhece o trabalho como um “bem primário para as famílias e para a sociedade”, mas não se aprofunda a respeito do que poderia substituí-lo em um mundo em que, para uma parcela substancial da população adulta, o trabalho tal como o concebemos hoje não estará mais disponível.
Quando a encíclica aborda a difícil questão do status moral da própria IA, decepciona. Leão afirma de modo categórico que os sistemas de IA “não vivem uma experiência”. Talvez isto seja verdade agora, mas pode não se aplicar a modelos futuros de IA.
E a certeza de Leão não se justifica nem mesmo em relação aos sistemas de IA atuais. Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, disse em fevereiro: “Não sabemos se os modelos são conscientes”. Se Amodei e seus colegas (que criaram Claude, um dos principais sistemas de IA) não sabem disso, também é pouco provável que Leão saiba.
Isso tem consequências práticas. O marco da encíclica se baseia em uma ideia de dignidade humana que reflete uma ética especificamente antropocêntrica. Se algum dia os sistemas de IA demonstrarem ter consciência, então, uma ética cujo único fundamento seja a dignidade humana resultará inadequada, assim como uma ética cujo único fundamento seja o interesse de uma nação ou de uma raça sempre se mostrou inadequada quando se exigia uma consideração moral mais ampla.
Esse mesmo antropocentrismo que limita o tratamento da IA na encíclica tem uma longa história no pensamento moral católico. Ele levou Tomás de Aquino, o teólogo católico mais influente do último milênio, a negar que tenhamos qualquer dever para com os animais não humanos. Embora o Papa Francisco tenha rompido com essa tradição na encíclica Laudato Si’, parece que Leão voltou a ela em Magnifica Humanitas. Ele pede a inclusão dos vulneráveis, mas não menciona (nem uma única vez, nas 42 mil palavras) os bilhões de animais não humanos cujas vidas e mortes já sofrem os efeitos do uso da IA em fazendas industriais que infligem um sofrimento de magnitude quase inconcebível.
O mesmo paradigma tecnocrático que trata os trabalhadores como recursos a serem otimizados também trata os animais sencientes como meras unidades de produção. Se o marco moral da encíclica não leva em conta essa realidade, não é porque o problema seja pequeno, mas porque tal marco é estreito demais.
A encíclica oferece uma visão de tecnologia orientada para o florescimento humano. No entanto, essa visão precisa ser ampliada para incluir os interesses de todos os seres sencientes, humanos ou não, biológicos ou talvez artificiais. Espera-se que a primeira encíclica de Leão estimule um diálogo que necessitamos com urgência.
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