O que Gandalf está fazendo na encíclica de Leão XIV sobre inteligência artificial?

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30 Mai 2026

"Os tempos são o que são, mas precisamente por isso não devemos nos resignar quando a ameaça de Mordor é mais intensa do que nunca desde a década de 1920. Outra citação lendária de Gandalf é: "Um mago nunca chega cedo nem tarde. Ele chega exatamente quando pretende chegar." Que esta encíclica contra o poder absoluto e em favor da solidariedade e da humanidade tenha chegado quando necessário."

O artigo é de Altares de Guillermo, jornalista, publicado por El País, 28-05-2026. 

Eis o artigo. 

O Senhor dos Anéis se passa na Terra-média, um lugar que é, em princípio, imaginário, habitado por diferentes raças — humanos, hobbits, magos, elfos, orcs, anões e criaturas estranhas como Gollum — que se confrontam ou colaboram entre si, sob a constante ameaça de um poder sinistro e onisciente: Sauron. Mas esse lugar é, em sua essência, inteiramente real. É um reflexo do mundo que o escritor britânico J.R.R. Tolkien (1892–1972) conheceu: o século XX, com todas as suas brutalidades, seus avanços e suas transformações, às vezes tão rápidas e radicais que seus habitantes mal conseguiam compreendê-las, quanto mais processá-las.

Mordor, o covil de onde o mal absoluto tenta controlar a Terra, é inspirado pelo nazismo, mas também pela própria experiência do autor, que sobreviveu milagrosamente às trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Ele se alistou logo após se formar em Oxford e participou da Batalha do Somme, o maior desastre militar do Reino Unido. Em 1º de julho de 1916, em um dos maiores — e mais estúpidos e desnecessários — erros militares da história, oficiais britânicos enviaram dezenas de milhares de soldados contra metralhadoras alemãs em uma ofensiva absurda: 20.000 homens foram mortos e 40.000 ficaram feridos em apenas algumas horas.

Tolkien é uma das referências culturais que o Papa Leão XIV incluiu em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, publicada na segunda-feira. A Nona Sinfonia de Beethoven, como símbolo da unidade europeia; a história de Oskar Schindler, o alemão que salvou centenas de judeus durante o Holocausto; a filósofa Hannah Arendt, historiadora do autoritarismo; e Guernica, de Pablo Picasso, estão entre as outras referências que o Papa incluiu em um texto no qual alertou para o perigo que a inteligência artificial pode representar para a humanidade se crescer sem controle e cair nas mãos de uma elite, além de qualquer escrutínio democrático.

A encíclica fazia referência a outro texto, Rerum novarum (Das Coisas Novas), que o Papa Leão XIII escreveu um século antes, quando o Ocidente passava por uma transformação radical, semelhante à que talvez estejamos vivenciando agora. O Pontífice denunciava a desumanização da revolução industrial e a ascensão do comunismo, assim como Leão XIV alertava sobre os perigos da tecnologia atual: "Nenhum sistema de cálculo, por mais sofisticado que seja, gera um coração que se doa, nem uma consciência capaz de discernir o bem."

Tolkien vivenciou a enorme transformação que Leão XIII previu: ele pertencia à geração que podia ir à escola de carruagem puxada por cavalos e à universidade de carro. Testemunhou o nascimento da aviação, do cinema, do rádio e, mais tarde, da televisão; mas também experimentou em primeira mão o poder destrutivo da guerra moderna. Na Batalha do Somme, por exemplo, tanques foram usados pela primeira vez.

Tolkien, um dos dez autores mais lidos da história, foi interpretado de inúmeras maneiras e utilizado por diversas correntes ideológicas. O mais curioso é que todas elas provavelmente têm razão em algum aspecto. A primeira-ministra italiana de extrema-direita, Giorgia Meloni, é uma fã incondicional da saga. Tolkien era, de fato, profundamente conservador: acreditava que uma elite deveria governar sobre todos os outros e ansiava por um mundo antigo em que os valores da antiga aristocracia rural britânica — a gentry — dominassem a sociedade. Ele também foi defendido por hippies e ambientalistas pioneiros. Isso também é verdade: seus livros denunciam a destruição da natureza por uma indústria que devasta tudo em seu caminho.

O perigo representado pelos grandes regimes totalitários (ele começou a escrever seu livro em 1937), a ideia de que pessoas muito diferentes devem colaborar para enfrentar o mal, a defesa da coexistência entre diferentes povos, a solidariedade… Tudo isso está presente em Tolkien, assim como sua defesa dos valores cristãos. Tolkien era um católico praticante em um ambiente anglicano hostil — sua fé só foi legalizada nas Ilhas Britânicas em 1829. A ideia de que um ser insignificante, vindo de um canto remoto do mundo, pode ser o escolhido e salvar a humanidade por meio de seu sacrifício está no cerne de uma trilogia que novas gerações descobriram graças aos filmes de Peter Jackson, lançados há 25 anos.

Mas a citação e o personagem que Leão XIV escolheu para sua encíclica são especialmente reveladores: a frase mais famosa de Gandalf, o mago branco que ajuda Frodo em sua jornada para destruir o Anel, que une os povos da Terra-média. "Não nos cabe controlar todos os rumos do mundo, mas fazer o que estiver ao nosso alcance para o bem dos dias em que vivemos." No filme de Peter Jackson, a frase é expressa da seguinte forma: "Não podemos escolher a época em que vivemos. Tudo o que podemos fazer é decidir o que fazer com o tempo que nos foi dado."

É uma cena que fala de compaixão pelos outros, mas também um apelo para não nos resignarmos, para não desistirmos diante de forças que parecem demasiado poderosas, mas que podem ser derrotadas. Os tempos são o que são, mas precisamente por isso não devemos nos resignar quando a ameaça de Mordor é mais intensa do que nunca desde a década de 1920. Outra citação lendária de Gandalf é: "Um mago nunca chega cedo nem tarde. Ele chega exatamente quando pretende chegar." Que esta encíclica contra o poder absoluto e em favor da solidariedade e da humanidade tenha chegado quando necessário.

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