28 Mai 2026
Os escândalos em torno de 'Dark Horse', com estreia prevista para pouco antes das eleições de outubro, afundaram a candidatura do filho de Bolsonaro, que pretende derrotar Lula nas eleições.
O artigo é de Bernardo Gutiérrez, publicado por El Diario, 27-05-2026.
Bernardo Gutiérrez é jornalista, escritor e pesquisador hispano-brasileiro. Cobre a América Latina desde 1999, atuando como correspondente no Brasil durante a maior parte desse tempo. É autor dos livros Calle Amazonas (Altaïr), #24H (Dpr-Barcelona), Pasado Mañana (Arpa Editores) e Saudades de junho (Liquid Books).
Eis o artigo.
Steve Bannon, um dos principais ideólogos do trumpismo, tinha um ás na manga para derrotar Lula da Silva nas eleições de outubro: um filme ao estilo de Hollywood sobre a biografia do presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe.
A receita trumpiana parecia infalível. O ator Jim Caviezel, estrela de A Paixão de Cristo (2004, dirigido por Mel Gibson, um enorme sucesso entre o público cristão), faria, nas palavras de Bannon, com que a figura de Jair Bolsonaro se equiparasse à de Cristo, e o filme seria até mesmo percebido como uma sequência do filme de Mel Gibson.
O plano era lançá-lo internacionalmente em setembro, pouco antes do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, o que impulsionaria a candidatura de Flávio Bolsonaro. Dark Horse, cujo trailer acaba de ser lançado, reforça a imagem de Jair Bolsonaro como um outsider contra um sistema corrupto, a quem tentam assassinar durante a campanha de 2018 (no filme, com uma arma, não com uma faca, como na realidade), e que renasce com vigor messiânico para salvar a alma do Brasil.
O podcast político Foro de Teresina, que teve acesso ao roteiro de Dark Horse, revelou que os créditos finais do filme afirmam que Lula venceu uma eleição marcada por "numerosas alegações de fraude" e que Jair Bolsonaro foi preso após as manifestações "majoritariamente pacíficas" de 8 de janeiro de 2023, quando, na realidade, os prédios que abrigam os três poderes foram vandalizados e faziam parte de uma tentativa de golpe mais ampla. Segundo Steve Bannon, o sucesso internacional de Dark Horse seria "retumbante" e mobilizaria a base de Bolsonaro para as eleições. "A história de Bolsonaro fala por si só, e Flávio [Bolsonaro] vai dar continuidade a esse legado", argumentou Bannon, conforme noticiado pela Folha de S.Paulo.
Os estrategistas de Trump não contavam com o "roteiro Brasil" , uma piada que os brasileiros usam para destacar como o roteiro da política brasileira supera em muito a ficção. Uma gravação de áudio divulgada pelo The Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro, o banqueiro preso pelo escândalo do Banco Master, que envolveu milhões distribuídos a políticos, em sua maioria apoiadores de Bolsonaro, 134 milhões de reais (cerca de 23 milhões de euros). A conversa pelo WhatsApp ocorreu em 15 de novembro, um dia antes de Vorcaro ser preso enquanto tentava fugir do país, acusado de deixar um rombo multimilionário no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que protege investidores estrangeiros no Brasil. Flávio não negou a conversa e ofereceu desculpas esfarrapadas.
Imagem promocional de Dark Horse (Foto: Divulgação)
Há suspeitas de que o dinheiro de Vorcaro não se destinava às parcelas privadas previstas pelos investidores do filme, como afirma Flávio, mas sim ao fundo de campanha de Bolsonaro. Investigações indicam que Vorcaro atuava nos bastidores como um dos principais financiadores do movimento político de Bolsonaro. Há suspeitas, como sugere a jornalista Ana Clara Costa, do Foro de Teresina, de que o dinheiro de Vorcaro esteja financiando a estadia de Eduardo Bolsonaro, outro filho de Jair Bolsonaro, que faz lobby contra os interesses brasileiros nos Estados Unidos.
Antes do escândalo do "Cavalo Negro", a estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro estava funcionando. O candidato Flávio estava tecnicamente empatado com Lula em quase todas as pesquisas. Ele mobilizava a base de Bolsonaro quase que automaticamente e atraía o eleitorado de centro ao minimizar a importância de seu sobrenome, Bolsonaro. O efeito "Dark Horse", no entanto, representou um golpe devastador para sua candidatura.
A pesquisa Atlas/Intel, a primeira desde o escândalo, revela que Lula abriu uma vantagem de sete pontos em um hipotético segundo turno contra Flávio Bolsonaro. O atual presidente obteria 48,9% dos votos, contra 41,8% de seu oponente. Diversas pesquisas indicam que o escândalo Dark Horse atingiu o cerne do movimento político de Bolsonaro .
A prestigiada pesquisa Datafolha reflete uma queda menor para Flávio (Lula de 47% para 43% no segundo turno), mas aponta para um detalhe crucial: Lula agora atrai 29% dos eleitores de centro, em comparação com 20% para seu oponente. A sangria dentro das próprias fileiras de Bolsonaro está se tornando evidente. Figuras proeminentes estão pedindo outro candidato de extrema-direita. E a pressão aumenta para que Michele Bolsonaro, a ex-primeira-dama, seja candidata, algo que deixa Jair e seus filhos desconfortáveis, pois querem evitar entregar o legado Bolsonaro a um forasteiro. Enquanto isso, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, os dois principais candidatos de direita, declararam publicamente que Flávio Bolsonaro não está apto a continuar como candidato devido à sua suposta corrupção.
Nesta semana, o Financial Times descreveu o episódio de Dark Horse como uma “comédia de erros” que ameaça afundar a candidatura do filho de Jair Bolsonaro. De fato, a cinebiografia, na qual o trumpismo apostava para derrotar Lula, está expondo múltiplos casos de corrupção dentro do governo Bolsonaro. A Folha de S. Paulo revelou na segunda-feira que produtoras ligadas a Bolsonaro e associadas ao filme abriram uma empresa em um paraíso fiscal. Além disso, o Instituto Conhecer Brasil, intimamente ligado à família Bolsonaro e responsável pela produção do filme no Brasil, está envolvido em um escândalo de notas fiscais falsas e exploração trabalhista, conforme noticiado pela Revista Fórum. O fato de os 134 milhões de reais solicitados por Flávio superarem o orçamento do filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2025, Ainda Estou Aqui (7,6 milhões de euros), e do sucesso de bilheteria de 2025, O Agente Secreto (4,7 milhões de euros), ajuda a ilustrar a magnitude do favor que Flávio pediu a Vorcaro. O valor também ultrapassa o limite legal de gastos de campanha para 2022.
A ideia original para o filme Dark Horse não surgiu do trumpismo, mas de Mário Frias, ex-secretário de Cultura do governo Jair Bolsonaro e atual deputado federal pelo Partido Liberal (PL). A BBC revelou como Frias, um dos principais gurus da guerra cultural de Bolsonaro, conseguiu convencer o roteirista e diretor Cyru Nowrasteh, que tem um longo histórico de produção de filmes com forte viés cristão, como A Verdade de Soraya M (2008) e O Jovem Messias (2016). Em entrevista à BBC News Brasil, Nowrasteh afirmou que "sentia que havia muitas perguntas sem resposta" em relação às traições de Bolsonaro nas eleições de 2018 e que o filme "ajudará a esclarecer o que está acontecendo hoje no Brasil e no mundo".
Flávio Bolsonaro no Senado (Foto: Lula Marques /Agência Brasil)
A contratação do ator Jim Caviezel pela Dark Horse Comics complicou ainda mais as coisas com o núcleo duro do trumpismo. Caviezel, um apoiador público de Donald Trump, é uma das figuras mais populares do movimento Make America Great Again (MAGA) e presença constante no podcast de Steve Bannon. Caviezel endossa a teoria da conspiração QAnon, que postula a existência de um culto satânico e pedófilo global operado por elites progressistas. Em outubro de 2021, Caviezel foi a principal atração da conferência For God and Country: Patriot Double Down, organizada em Las Vegas por influenciadores da esfera QAnon.
Marco Dias, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e especialista em guerras culturais, disse à BBC que o rótulo de "Hollywood" para o filme sobre Bolsonaro tende a ser "interpretado como uma grande vitória" pela direita brasileira. "É um projeto que ganhará visibilidade, com a representação de Bolsonaro como alguém perseguido, e pode muito bem ter um grande mercado dentro desses grupos da nova direita global", prevê ele.
Flávio Bolsonaro viajou a Washington esta semana numa tentativa desesperada de dissipar o fantasma do "Cavalo Negro" de sua campanha. Para ampliar o impacto desse encontro discreto, que recebeu pouca atenção da mídia nos Estados Unidos, os apoiadores de Bolsonaro estão tentando retomar o controle de sua guerra cultural.
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