Daniel Ortega encerra o processo eleitoral na Nicarágua: “Não haverá mais eleições aqui”

Daniel Ortega (Foto: Wikimedia Commons)

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21 Julho 2026

Durante a comemoração da Revolução Sandinista, Ortega anuncia reformas legais para impedir que a oposição desafie o poder e almeja um modelo de partido hegemônico.

A reportagem é de Wilfredo Miranda Aburto, publicada por El País, 20-07-2026.

No domingo, durante a comemoração da Revolução Sandinista, Daniel Ortega fez um anúncio que, na prática, sepultou os últimos vestígios de democracia na Nicarágua. "Não haverá mais eleições aqui", declarou. Com essa afirmação, ele fechou explicitamente a porta para o processo eleitoral como mecanismo de mudança política até as eleições marcadas para novembro de 2027. Anunciou também que trabalharia com o Parlamento, que controla, para "construir um muro" contra os partidos políticos que tentassem chegar ao governo por essa via.

“Que se esqueçam! Não haverá mais eleições aqui para que eles [os partidos políticos da oposição] não tentem tomar o governo, tomar o poder”, disse Ortega em 19 de julho, durante a cerimônia do 47º aniversário da insurreição sandinista que derrubou o ditador Anastasio Somoza Debayle em 1979.

Embora, na prática, o anúncio não altere uma realidade já conhecida pelos nicaraguenses — as eleições locais e nacionais têm sido marcadas por fraudes sucessivas desde 2008, segundo organizações internacionais de observação eleitoral —, ele representa um salto discursivo e político. As eleições presidenciais de 2021 já eram o melhor exemplo de um sistema sem concorrência: Ortega e sua esposa, a copresidente Rosario Murillo, prenderam todos os pré-candidatos da oposição com chances reais de desafiá-los nas urnas e reivindicaram 75,92% dos votos.

Além disso, o regime copresidencial, após exilar todos os membros da oposição, os proibiu para sempre de ocupar cargos públicos, declarando-os traidores da nação e atribuindo-lhes outros crimes políticos, restando apenas partidos fantoches que controlavam. Os Estados Unidos chamaram essas eleições de "farsa", enquanto outros governos e organizações internacionais se recusaram a reconhecer sua legitimidade.

Mas agora, embora não tenha especificado os detalhes de como essa mudança se materializaria, Ortega aponta para um modelo eleitoral mais próximo ao de regimes partidários hegemônicos ou regimes com poder permanente, como a Coreia do Norte e Cuba, onde as eleições existem formalmente, mas não constituem um mecanismo real de disputa pelo poder. Essa nova mudança confronta diretamente Washington, que tem exigido consistentemente eleições livres na Nicarágua.

O advogado e figura da oposição exilada, Juan Diego Barberena, insiste que a novidade não reside no fato de as eleições deixarem de ser livres. “Durante duas décadas, o direito de escolha foi violado, mas agora Ortega afirma que nem mesmo as eleições fraudulentas, as farsas que costumavam organizar, acontecerão”, declara. Segundo o jurista, cujo diploma de direito foi recentemente cassado, a mensagem aponta para a “perpetuação do poder de forma dinástica” e reflete “o caráter absolutista” que o regime adquiriu.

O que Ortega disse foi que imporia limitações aos partidos políticos. Ele enfatizou que trabalharia com seus deputados e aliados políticos na Assembleia Nacional e com as “organizações correspondentes” para criar leis “que erguerão um muro, um bloqueio” contra quaisquer partidos que considerem opções eleitorais para chegar ao governo nicaraguense. “Então, que esses partidos ganhem as eleições… A história de partidos instalados pelos ianques, instalados pelo regime de Somoza, chegando ao poder acabou. Nunca, nunca, nunca… Não importa quanto dinheiro os ianques deem a eles (os partidos políticos), eles não conseguirão, não conseguirão”, insistiu Ortega em seu discurso.

Um sistema unipartidário

Para Juan Sebastián Chamorro, um dos sete pré-candidatos à presidência presos pelo regime antes das eleições de 2021, o anúncio de Ortega confirma uma concepção de poder que ele defende há anos. “Ele sempre afirmou que os partidos políticos são indesejáveis ​​porque, segundo ele, dividem a sociedade”, declara. Na visão do economista, o presidente aspira a transformar a Nicarágua em um sistema unipartidário, inspirado em modelos como o da China.

Ortega provavelmente está pensando em um sistema de nomeações internas, como na China, onde os funcionários são escolhidos dentro do próprio partido e não por meio de concurso eleitoral aberto”, interpreta Chamorro.

Embora, por ora, a oposição esteja especulando sobre o modelo que Ortega poderia impor, como fez anteriormente com a "copresidência" para compartilhar o poder e garantir a sucessão com sua esposa, a verdade é que essa ambição entra em conflito direto com a política que Washington tem mantido em relação à Nicarágua nos últimos anos. Desde o início da crise sociopolítica de 2018, os Estados Unidos insistem que qualquer solução exige a restauração da democracia e a realização de eleições livres e competitivas com observadores internacionais.

Em março passado, o Departamento de Estado afirmou que sua estratégia em relação à “ditadura de Murillo-Ortega” visa restaurar o Estado de Direito e promover “uma mudança de comportamento”. Washington não especificou na ocasião quais novas medidas previa, mas enquadrou seu alerta no contexto do monitoramento do apoio internacional recebido pelo regime e do uso de seus instrumentos diplomáticos para aumentar a pressão.

Os Estados Unidos observaram que, desde 2018, impuseram sanções financeiras contra dezenas de autoridades e entidades ligadas ao regime, mantendo, ao mesmo tempo, outras vias de pressão política, econômica e imigratória. "Todas as opções permanecem em aberto", alertou o porta-voz, em uma declaração deliberadamente ampla que evitou descartar novas sanções, restrições de vistos ou outras ações contra o regime.

Por sua vez, o analista político exilado Eliseo Núñez interpreta o anúncio como uma manobra para alterar as regras de quaisquer negociações futuras. “Ortega está jogando com o fato consumado”, afirma. “Se em algum momento a pressão o obrigar a negociar, ele não partirá mais da premissa de que a Nicarágua tem eleições que devem ser livres e competitivas. Agora, o ponto de partida será simplesmente que não há eleições.”

Núñez concorda com Chamorro sobre a ideia de um “centralismo democrático” chinês. No entanto, ele alerta que, mesmo que esse modelo seja implementado nas reformas anunciadas, as decisões continuarão dependendo exclusivamente de Ortega e Murillo. “Ortega está dando esse passo convicto de que mantém o controle interno graças à estabilidade econômica e à repressão, enquanto percebe que a atenção dos Estados Unidos está voltada para outras prioridades”, concluiu.

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