Vozes de Emaús: Cristianismo libertador - romper com o patriarcado, o racismo e o fundamentalismo. Artigo de Romi Márcia Bencke

Arte: Lauren Palma | IHU

09 Mai 2026

"A partilha do pão e do vinho representou a resistência e a permanência do projeto igualitário, por isso, é importante fazer memória. Ela nos liga ao que é primordial. Hoje o primordial é a insurgência s contra as teologias e espiritualidades de adestramento, que embasam guerras, perseguição às mulheres e que violam a Terra."

O artigo é de Romi Márcia Bencke, pastora da IECLB, mestra em Ciência da Religião pela UFJF e doutoranda em Ciência Política pelo IPOL/UnB. O presente texto adveio da Conferência Temática apresentada no 13º. Encontro do Movimento Nacional Fé e Política, 25 de abril, São Bernardo/SP. 

Romi Márcia Bencke (Foto: Arquivo pessoal)

Eis o artigo.

Quando a fé vira sistema e os limites do cristianismo como projeto libertador

O tema acima provoca a pergunta: será que existe um cristianismo libertador, capaz de romper com o patriarcado, o racismo e o fundamentalismo? De imediato, minha resposta é: não. Ao longo dos séculos, a ideia de “cristianismo” contribuiu para legitimar e fundamentar desigualdades estruturais em diversos continentes. Historicamente, a palavra remete a práticas abusivas de poder.

Observemos o significado do sufixo “ISMO” que compõe a palavra. O Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos, informa que, dentre os significados possíveis para “cristianismo”, encontramos: sectário, monoteísta, teocrático, fé verdadeira e cristandade. Linguistas ensinam que a partícula de origem grega “ISMO” é utilizada para formar substantivos que indicam doutrinas, sistemas e correntes ideológicas. A substantivação da fé cristã carrega consigo todo o processo de institucionalização do “movimento Jesus”, estruturado e normatizado a partir de concepções patriarcais e racistas.

Ao se institucionalizar, o cristianismo estabeleceu conjuntos de doutrinas, dogmas, leis comportamentais, hierarquias e pressupostos hermenêuticos para definir uma “verdade única”, que contribuiu para projetos de dominação.

O Brasil resulta de um projeto colonial formado pela aliança entre o Império Português e a Igreja Católica anterior ao Concílio de Trento. Essa coalizão pretendia conquistar novos territórios tanto para a Coroa portuguesa quanto para a Igreja Romana. Para a instituição religiosa, o acordo era estratégico, pois garantiria a expansão da fé cristã católica através da conversão forçada de povos nativos. O cristianISMO, aliado ao colonialismo, ofereceu ao empreendimento de natureza colonial um arcabouço teológico e jurídico que enquadrou a expansão mercantilista e militarizada como um projeto divino. A tríade foi mercantilISMO, cristianISMO e militarISMO.

O legado histórico dessa aliança é um trauma coletivo para povos indígenas, africanos e para crianças e mulheres empobrecidas. Relembremos o projeto das “Órfãs do Reino”, que consistia em enviar jovens órfãs ao Brasil para casar com colonos, garantindo a formação de famílias e a transmissão da cultura europeia e católica. Esse trauma coletivo nunca foi curado; pelo contrário, ele se atualiza.

Desde 2006, lideranças religiosas denunciavam que crianças eram exploradas sexualmente na região. Em 2022, o tema foi amplamente veiculado em mídias religiosas com o apoio da ex-ministra Damares Alves, que denunciou crimes atrozes contra crianças sem que as denúncias fossem acompanhadas de documentos comprobatórios. Não por acaso, a localização do Marajó é estratégica para rotas de minérios na foz do Amazonas. Expor uma população de forma vexatória é, muitas vezes, o primeiro passo para induzir projetos de desenvolvimento econômico sob o pretexto de que a região é uma "terra de ninguém”. Este é um exemplo de como as alianças entre religião e colonialismo se atualizam.

Antônio Bispo dos Santos (Nego Bispo), em A terra dá, a terra quer, desenvolveu o conceito de "adestramento" como ferramenta colonial. Para ele, o colonialismo adestrou seres humanos para servirem aos senhores, desterritorializando e apagando memórias. O adestramento gera sofrimento, exaure física e mentalmente e anula a autonomia do imaginário das pessoas.

O cristianISMO opera como instrumento de disciplinamento ao converter pessoas em engrenagens de um sistema econômico estruturado no patriarcado e no racismo. Para tanto, vale-se da repetição mecânica de normas com vistas a controlar corpos, suprimir desejos e cercear o pensamento autônomo e criativo.

Os novos Teodósios: quando magnatas usam Deus para governar

Não surpreende que magnatas do Vale do Silício, como Peter Thiel da Palantir e Elon Musk da SpaceX, recorram ao "cristianISMO" para sustentar seus sistemas. No século IV, o imperador Teodósio oficializou o cristianismo como religião estatal para garantir coesão social. No século XXI, os "Teodósios" da tecnologia utilizam termos como "Anticristo" e "Armagedom" para deslegitimar a regulação de seus monopólios.

Peter Thiel tem realizado seminários fechados para apresentar e desenvolver sua "teologia do Anticristo". Um desses encontros ocorreu na Universidade de Innsbruck, na Áustria, sob a coordenação do Grupo de Investigação de Teologia Dramática, vertente que utiliza o "drama" como categoria analítica para compreender o conflito e o sacrifício na história da salvação. Max Chafkin, autor do livro Controverso, aponta que Thiel foi o principal responsável por forjar a ideia de que o progresso tecnológico deve ser ilimitado. Os potenciais custos ou riscos a ele associados não podem ser impeditivos para o avanço tecnológico. Esse imperativo define, em larga medida, a cultura do Vale do Silício.

Não surpreende, portanto, que Thiel esteja empenhado em elaborar uma teologia à altura de suas ambições. Para que os objetivos do Vale do Silício se sustentem, é preciso que sejam legitimados por um sistema de crenças e valores capaz de responder às questões fundamentais: o que é verdadeiro, o que é o bem, o que é o mal e qual o sentido da existência humana. Thiel se apresenta publicamente como cristão. Ele tem apoiado iniciativas que articulam fé e carreira profissional no ambiente tecnológico. À luz de sua formação filosófica e de sua visão de mundo, ele entende que a tradição cristã oferece o fundamento mais sólido para pensar poder, política e tecnologia. É a partir desta compreensão que Thiel tem construído seu projeto intelectual, político e religioso.

Na visão de Thiel, o "Anticristo" são todos os que tentam deter o avanço tecnológico ou regular o mercado: movimentos ambientalistas, feministas, indígenas e negros. Ele define como anticristo organismos como a ONU e o Tribunal Penal Internacional. Thiel defende a liberdade individual absoluta, combate a justiça distributiva e o papel regulador do Estado.

Lembremos que Peter Thiel é cofundador e rosto visível da Palantir Technologies, empresa que fornece ferramentas de vigilância e análise de dados para o FBI, a CIA, a NSA e o ICE, agência norte-americana de controle de imigração, além de tecnologia e inteligência militar para o Estado de Israel. Situar a "teologia do Anticristo" nesse cenário de crescente militarização e vigilância permite inferir que sua função de sua teologia é oferecer uma cosmologia capaz de conferir enquadramento sagrado às guerras e vigilância, transformando conflitos geopolíticos em batalhas entre o Bem e o Mal.

A urgência profética: libertar Jesus do cristianISMO

A teologia do Anticristo, embora faça parte da tradição cristã, sempre foi secundária. Contudo, movimentos centrados nessa figura fortaleceram-se à medida que as igrejas se afastaram de sua vocação primordial: a experiência radical da justiça, da compaixão, da misericórdia e da igualdade (Jo 8.1-11, Mt 25, Lc 10.25-37, At 2.42-47, Gl 3.28) proposta e praticada por Jesus.

As igrejas tornaram-se autorreferenciadas, mais concentradas em preservar identidades denominacionais e doutrinárias do que em enfrentar suas próprias contradições. Biblicamente, a profecia é a crítica à religião que se afasta da igualdade em favor de projetos de poder. Não surpreende, portanto, que as vozes proféticas sejam hoje silenciadas dentro das igrejas. Não são bem-vindas as críticas que problematizam a vinculação das igrejas a projetos de poder político. O que prevalece é uma idolatria da instituição. Essa idolatria é, em última análise, traição ao Evangelho.

Na medida em que igrejas se orientam na defesa da sua institucionalidade, elas abandonam sua vocação primeira. É neste vácuo entre a defesa da institucionalidade e o distanciamento do anúncio do Evangelho que propostas como a apresentada por Peter Thiel podem, com o tempo, encontrar ressonância em grupos das igrejas. A defesa da institucionalidade e a imposição de dogmas e doutrinas exige "caçar anticristos". Talvez seja por isso que o genocídio em Gaza não mobilize as igrejas de forma ampla. A mesma apatia se manifesta diante do ataque à escola de meninas em Minab, Irã, que matou cerca de 150 pessoas, e do ataque contra a população libanesa, quando 160 mísseis, em dez minutos, mataram 300 pessoas. Engajar-se pela paz e contra as guerras não é prioridade na prática atual das igrejas. Há mais igrejas empenhadas em impedir o avanço de políticas públicas voltadas a proteger a vida das mulheres do que em denunciar as violências cotidianas e as guerras.

Na Quaresma, cristãos palestinos lançaram o documento Um Momento de Verdade: Fé em Tempos de Genocídio, alertando para o risco da extinção da presença cristã na Terra Santa. No Brasil, esse grito foi ignorado. Foram raras as comunidades cristãs brasileiras que, durante a Páscoa, refletiram sobre as cruzes que rasgam Gaza. Paradoxalmente, nas redes sociais, lideranças religiosas cristãs têm se empenhado em desenvolver uma Teologia da Guerra Justa. A Guerra Justa seria toda aquela orientada para combater o mal - mas esses teólogos da guerra não explicam o que é o mal. Pela lógica argumentativa, intui-se que o mal é o que se opõe ao projeto expansionista do Estado de Israel. O mal também são os imigrantes indocumentados; o mal também são as mulheres. A ideia da Guerra Justa é mais uma versão da teologia do Anticristo.

Existe um cristianISMO libertador? A resposta é não. O que a realidade impõe é a urgência de libertar Jesus do cristianISMO - de suas estruturas de poder, de suas alianças com os senhores da guerra e de seu patriarcalismo constitutivo. O cristianISMO é o apego a hierarquias, dogmas e doutrinas para justificar exclusões e violências, logo não pode ser libertador. Pelo contrário: ele oculta e distorce o projeto igualitário de Jesus - este sim, libertador.

Memória como insurgência e ressurgência

Jesus, como um palestino-judeu de seu tempo, ensinou que seres humanos não são autômatos seguidores de regras, por isso ele fazia a crítica à lei do Sábado. As pessoas, diante das adversidades são criativas. Elas encontram novas formas de auto-organização. Foi assim na história da partilha dos cinco pães e dois peixes (Mt 14. 13 – 21; Mc 6. 31-44; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15). Diante das injustiças do mundo, a criatividade humana encontra alternativas capazes de alimentar insurgências e ressurgências.

Um exemplo disso é a Última Ceia. Na véspera de ser julgado e crucificado, Jesus simplesmente reuniu seus amigos e amigas e compartilhou pão e vinho. Mais do que uma noite de despedida, esta Ceia afirmou a memória como ação política criativa. Jesus sabia que não seria poupado da condenação. Ao compartilhar o pão e o vinho, lembrou que a razão pela qual estavam reunidos era a oposição entre um projeto de poder e um projeto de igualdade. O projeto de igualdade, com o qual ele era comprometido, seria condenado no dia seguinte. A partilha do pão e do vinho representou a resistência e a permanência do projeto igualitário, por isso, é importante fazer memória. Ela nos liga ao que é primordial. Hoje o primordial é a insurgência s contra as teologias e espiritualidades de adestramento, que embasam guerras, perseguição às mulheres e que violam a Terra.

É também pela memória que os movimentos indígenas, negros, feministas e palestinos resistem. Francesca Albanese, em seu recente livro Quando o mundo dorme: histórias, palavras e feridas da Palestina, narra como palestinos e palestinas vão tecendo memórias através da arte, da literatura e do modo de vida. O projeto expansionista do qual são vítimas pode apagar a presença palestina nos territórios, mas não pode apagar o que a Palestina significa nem o projeto de humanidade que ela encarna. O poema deixado pelo professor Refaat Alreer, assassinado pelo exército de Israel, apresenta a memória não apenas como lembrança vaga de experiências individuais. Memória, neste poema, é trazer a experiência coletiva de um povo, como um projeto de humanidade que a violência não conseguiu apagar. A pipa branca que atravessa o poema pode ser lida como símbolo do Cristo não institucionalizado — aquele que, liberto das estruturas de poder, nos dá esperança para seguir acreditando em projetos antipatriarcais, antiracistas e libertadores. Diz o poema:

Se eu morrer,
você tem que viver
para contar a
minha história
para vender as minhas coisas
para comprar algum papel
e alguns fios,
para fazer uma pipa
(que seja branca com um longa cauda)
para que uma criança,
em algum lugar de Gaza,
olhando o céu
nos olhos
esperando por seu pai que
se foi numa chama
sem se despedir de ninguém
nem mesmo de sua própria carne
nem mesmo de si mesmo
veja a pipa, a minha
pipa que você fez,
voar lá no alto
e pense por um momento
que um anjo esteja ali
para trazer de volta o amor.
Se eu morrer,
faça com que eu traga esperança
faça com que eu seja uma história!

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