Havia pedras no caminho. Ele construiu pontes: um ano sem Francisco de Roma. Artigo de Vitor Hugo Mendes

Papa Francisco | Foto: Vatican Media

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24 Abril 2026

"Um ano depois, compreende-se melhor que Francisco não representou um papel: testemunhou o Evangelho. Na simplicidade de sua vida, deu nova vida ao Evangelho anunciado pela Igreja. Viveu em minúsculas e entrou para a história em maiúsculas. Sua voz silenciou, mas sua profecia continua a ecoar em nossas vidas e no presente de nossa história", escreve Vitor Hugo Mendes, 21-0-2026.

Vitor Hugo Mendes é presbítero da Diocese de Lages, Santa Catarina. Com doutorado em Educação e Teologia, é autor da obra, em dois volumes, Liberación, un balance histórico bajo el influjo de Aparecida y Laudato si’. El aporte latinoamericano de Francisco (Appris/Amerindia, 2021). Realiza estágio de pós-doutorado na PUCRS.

Eis o artigo.

Há um ano, o mundo se despedia de Jorge Mario Bergoglio, o inesquecível Papa Francisco. Contudo, a sensação que permanece não é de ausência, mas de presença. Algumas pessoas, ao partirem, encerram um ciclo; outras inauguram um tempo novo. Assim foi com Francisco: “Ainda estou aqui”.

Logo nos primeiros dias de seu pontificado, tornou-se evidente que não se tratava de mera mudança administrativa ou de estratégia institucional. Francisco era Francisco em sua versão original. Sua força residia exatamente nisso: a coerência entre fé, vida e missão. Não interpretava um papel; testemunhava uma convicção. Não buscava parecer simples; simplesmente era simples.

O primeiro papa latino-americano, o primeiro jesuíta, o primeiro a escolher o nome de Francisco, trouxe ao centro da Igreja aquilo que tantas vezes permanecia periférico: os pobres, os migrantes, a paz, a ecologia integral, a fraternidade humana e a misericórdia, caminho que une Deus e o ser humano, tornando-nos sinal eficaz do agir de Deus no mundo. Seu modo de governar moveu a Igreja do poder ao serviço, da rigidez ao discernimento e do medo à esperança.

Seu magistério escrito já entrou para a história. Evangelii gaudium não só recolocou o lugar social da Igreja — pobre para os pobres —, como também devolveu vigor, rumo e novo alcance missionário à vida cristã: chegar às periferias geográficas e existenciais. Laudato si’ tornou-se referência global no cuidado da casa comum, ao propor uma ecologia integral. Fratelli tutti recolocou a fraternidade como horizonte político e espiritual do século XXI.

Em Querida Amazônia, Francisco ofereceu talvez uma das sínteses mais belas de seu pontificado: uma Igreja com rosto amazônico, defensora dos povos originários, guardiã da criação e capaz de unir justiça social, diálogo intercultural e renovada esperança. Na Amazônia, viu-se claramente que evangelizar, para ele, significava também proteger vidas ameaçadas e escutar vozes historicamente silenciadas.

Ao reconhecer nos Movimentos Populares um sujeito histórico indispensável, Francisco aproximou a Igreja das lutas concretas por terra, teto e trabalho. O encontro de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em 2015, foi decisivo: ali denunciou velhas e novas formas de colonialismo, criticou a economia da exclusão e afirmou que os pobres não são problema, mas parte essencial da solução. Deu voz global aos invisibilizados e recordou que o direito dos povos também pertence ao coração do Evangelho.

Mas talvez ainda maior tenha sido seu magistério não escrito: os gestos. Quem esquecerá Francisco abraçando enfermos, lavando os pés de presos e de mulheres, dialogando com outras religiões, pedindo orações ao povo, recusando pompas, preferindo a Casa Santa Marta ao Palácio Apostólico e reconhecendo, em atos concretos, a dignidade e a corresponsabilidade das mulheres na Igreja? Quem esquecerá a imagem solitária na Praça de São Pedro, durante a pandemia, rezando por uma humanidade ferida? Naquele silêncio chuvoso, falou ao mundo inteiro.

Francisco também incomodou. E isso era inevitável. Toda autenticidade desinstala. Sua crítica contundente ao clericalismo, à economia que mata, à cultura do descarte e às guerras mostrou que o Evangelho não pode ser reduzido a ornamento religioso. Com Francisco, a vida de fé precisava tocar a carne de Cristo no sofrimento humano.

Um ano após sua morte, percebe-se ainda mais claramente que seu pontificado não foi um parêntese, mas um processo. A sinodalidade, a reforma eclesial e social, a abertura missionária, a cultura do encontro, a conversão ecológica, a Economia de Francisco e Clara e o Pacto Educativo Global permanecem como tarefas em andamento. Francisco iniciou caminhos que ultrapassam seu tempo histórico e biográfico.

Também por isso ganha relevo a transição entre Francisco e o Papa Leão. Ao retomar em sua primeira exortação apostólica, Dilexi te, o núcleo evangélico do amor aos pobres, Leão XIV sinaliza continuidade inequívoca com a herança franciscana. Mais que sucessão institucional, trata-se da passagem de um testemunho de vida a uma responsabilidade histórica: conservar vivo o que Francisco recolocou no centro da Igreja. Se Francisco abriu processos, cabe agora aprofundá-los. Se devolveu credibilidade à necessária articulação fé e vida, espera-se que o novo pontificado a traduza em estruturas renovadas e decisões corajosas.

Talvez por isso sua memória continue tão viva. Como ficou notório com sua partida, Francisco não pertence apenas ao mundo católico. Foi amado por crentes e não crentes, admirado por muitos que viam nele uma rara combinação de vigor e ternura, firmeza e humildade, inteligência e prodigiosa humanidade.

Alguém disse um dia que ele era “um papa muito normal”. E talvez aí esteja uma de suas maiores grandezas. Num mundo fascinado por aparências e excentricidades, Francisco resgatou a extraordinária força do Evangelho vivido com a autenticidade do poverello di Assisi.

Um ano depois, compreende-se melhor que Francisco não representou um papel: testemunhou o Evangelho. Na simplicidade de sua vida, deu nova vida ao Evangelho anunciado pela Igreja. Viveu em minúsculas e entrou para a história em maiúsculas. Sua voz silenciou, mas sua profecia continua a ecoar em nossas vidas e no presente de nossa história.

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