A igreja que o Papa Francisco nos deixou. Comentário de Austen Ivereigh

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • “Permitir a instalação de um empreendimento com essa magnitude de demanda sem uma avaliação climática rigorosa significa aprofundar a vulnerabilidade territorial já existente”, afirma a advogada popular

    Data centers no RS e as consequências de sua implementação. Entrevista especial com Marina Dermmam

    LER MAIS
  • Inteligência Artificial e o empobrecimento da Igreja como centro de dados. Artigo de Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • Companhias aéreas europeias começam a cortar voos devido à guerra no Irã: Lufthansa anuncia 20 mil cancelamentos

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Abril 2026

"A alegria de Francisco jamais o abandonou porque, como Jesus, ele via a graça em ação e se alegrava em criar canais para que ela se propagasse. Essa era a alegria que Francisco irradiava, a qual permanece viva nos títulos de seus grandes documentos de ensino e na memória de inúmeros corações."

O comentário é de Austen Ivereigh, jornalista católico e biógrafo do Papa Francisco radicado no Reino Unido, publicado por America, 20-04-2026.

Este artigo foi adaptado da palestra Laetare de 26 de março, proferida em Nova York após o autor ter recebido a Medalha Loyola da Igreja de Santo Inácio de Loyola.

Eis o comentário.

O vasto legado do Papa Francisco levará uma geração para ser totalmente compreendido. Mas ele já está sendo desenvolvido no Papa Leão XIV, que foi “a última surpresa do Papa Francisco”, segundo o subtítulo de um relato recente do conclave que o elegeu, escrito pelos correspondentes americanos Gerard O'Connell e Elisabetta Piqué. Os cardeais falaram, nas semanas que antecederam a eleição, há um ano, sobre a necessidade de dar continuidade à era inaugurada por Francisco, que buscaram descrever com palavras como humilde, pastoral, misericordioso, sinodal, missionário, perspicaz e fraterno.

Refletindo seus desejos, Leão disse aos cardeais logo após o conclave que "continuaria a jornada" iniciada por Francisco. Ele a descreveu como "renovar o caminho do Concílio Vaticano II", que, segundo ele, Francisco "delineou de forma magistral e concreta" em seu primeiro grande documento doutrinário, A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium).

Muitos cardeais, especialmente os da América Latina, compreenderam imediatamente a referência, pois a Evangelii Gaudium foi fruto do encontro pioneiro de bispos latino-americanos no santuário brasileiro de Aparecida, em 2007. Foi um sinal do quanto a Igreja avançou sob o pontificado de Francisco, a ponto de Aparecida se tornar seu roteiro evangelizador. Quando Leão XIV convocou os cardeais de volta a Roma, em janeiro, eles optaram por se concentrar precisamente na conversão pastoral e missionária preconizada na Evangelii Gaudium e no instrumento fundamental dessa conversão: a sinodalidade.

É muito fácil esquecer agora quanta incompreensão, até mesmo perplexidade e hostilidade, o documento encontrou nos “antigos” centros eclesiais da Europa e da América do Norte quando foi publicado em novembro de 2013. A Evangelii Gaudium falava uma nova linguagem e tinha um tom incomum. Era ousada, alegre, enérgica, carismática e querigmática em sua promulgação do Evangelho centrada em Cristo e em sua aplicação à vida moderna. Chamava a Igreja a sair de si mesma, a evangelizar: não por meio da moralização, do esclarecimento e da definição, mas por meio da reorganização para possibilitar o “encontro primordial” com a misericórdia de Deus em Jesus Cristo. E nomeava, sem medo, os obstáculos e as tentações a essa renovação, todos enraizados na busca por prestígio, poder e conforto.

A Evangelii Gaudium soava estranha aos ouvidos dos católicos do mundo rico porque, de fato, o era. O discernimento dos tempos que havia remodelado aquela Igreja na América Latina mal havia sido percebido na Igreja europeia. Mais do que a eleição de Francisco em 2013, aquele documento marcou a maior mudança de rumo na Igreja universal desde o Concílio Vaticano II. Era um sinal de que a Igreja Católica não era mais uma Igreja europeia com missões, mas uma Igreja global multipolar, na qual a América Latina, e não mais a Europa, era agora o centro dinâmico do catolicismo.

Se podemos falar do primeiro milênio do cristianismo como tendo seu centro no Oriente, em Constantinopla, e do segundo milênio como tendo seu centro no Ocidente, em Roma, entramos agora em uma terceira etapa, na qual a América Latina, em nome do Sul Global, é a fonte espiritual dinâmica para uma Igreja global e multipolar. Francisco foi o arquiteto dessa transição, confirmada por Leão XIV, o primeiro papa norte-americano e o segundo latino-americano, cuja tarefa histórica é consolidar e aprofundar esse caminho.

Bem-vindos ao catolicismo do resto de nossas vidas.

Conversão e crescimento

Quando os historiadores analisarem essa grande mudança na vida da Igreja, Francisco será justamente considerado seu principal agente. Foi ele quem criou espaço para a ação de Deus nesse momento crucial da história da Igreja, quem conduziu a ela através da crise de evangelização que enfrentava. Como seu biógrafo, posso afirmar que sua vida o preparou para essa tarefa. Na década de 1970, os jesuítas argentinos chamavam Jorge Mario Bergoglio de nuestro piloto de tormentas, “nosso piloto de tempestades”. Eles não elogiavam suas habilidades de liderança, que — como ele admitiu com prazer anos depois — eram deficientes: ele era, em muitos aspectos, jovem e inexperiente demais para ser nomeado provincial em 1973. Mas ele possuía uma qualidade que na Companhia de Jesus é muito mais valorizada: uma refinada capacidade de discernimento dos espíritos, sobretudo em tempos de provação e crise.

Seu maior dom para a Igreja — primeiro como superior provincial dos jesuítas argentinos, depois como líder nacional e continental da Igreja na América Latina e, finalmente, como sucessor de São Pedro — foi abri-la à graça da conversão e do crescimento em meio à turbulência.

Este era um carisma prático, que levava a sério o Reino de Deus no centro da missão cristã. Afinal, a preocupação de Jesus era criar espaço — iniciar processos, diria Francisco — para que o Reino de Deus irrompesse em nossa história. Essa irrupção se manifestava na misericórdia e na alegria: misericórdia, porque essa é a qualidade da graça divina; alegria, porque ver essa graça abundar entre nós e permitir que ela se estabeleça e cresça é a fonte da consolação cristã, mesmo em meio à morte e à dor.

A alegria de Francisco jamais o abandonou porque, como Jesus, ele via a graça em ação e se alegrava em criar canais para que ela se propagasse. Essa era a alegria que Francisco irradiava, a qual permanece viva nos títulos de seus grandes documentos de ensino e na memória de inúmeros corações. Sua alegria não nascia da confiança no rumo da história — Francisco via com muita clareza a chegada de nossa atual escuridão —, mas do que já havia acontecido: a morte e ressurreição de Jesus Cristo e os efeitos vivificantes e renovadores da ação contínua de Deus na história. Francisco compreendia isso não apenas como uma verdade teológica, mas como prática de liderança.

Francisco guardava consigo um verso enigmático do poeta alemão Friedrich Hölderlin: “Onde há perigo, cresce o poder salvador”. Ele havia aprendido que era precisamente no lugar da ameaça que a ação salvadora e libertadora de Deus pode ser descoberta. Uma nova vida se apresenta a nós precisamente no lugar da morte iminente. Mas receber isso como um dom de Deus é uma escolha, pois é da natureza de um dom que ele não pode ser imposto. Francisco descreveu essa escolha como uma luta “para vencer a tentação de nos fecharmos em nós mesmos, para que o amor do Pai possa fazer morada em nós”, como ele disse no prólogo do meu livro de 2024, Primeiro Pertencemos a Deus.

Essa luta para “nos abrirmos” ou “sairmos de nós mesmos” é uma expressão que você encontrará em todos os documentos doutrinários de Francisco em suas versões em espanhol, onde a expressão (traduzida de forma inconsistente para o inglês) é salir de sí. Com ela, ele se referia à disposição de nossos corações e mentes para receber a auto-oferta de Deus em Cristo. Ele chamou isso de “encontro primário”, porque dele brota nova vida. Onde a autotranscendência humana encontra a autodoação divina, o Reino de Deus nasce em nosso tempo e lugar. “O coração de Cristo é êxtase, é abertura [salida]”, escreve Francisco em Dilexit Nos (nº 28), acrescentando: “Em seu coração aprendemos a nos relacionar uns com os outros de maneiras saudáveis ​​e felizes, e a construir neste mundo o Reino de Deus de amor e justiça. Nossos corações, unidos ao de Cristo, são capazes desse milagre social.”

Francisco procurou nos ajudar nessa luta ensinando o discernimento dos espíritos. É assim que conseguimos nos manter firmes no meio do fluxo de mensagens e narrativas que diariamente inundam nossa realidade e ouvir a voz mansa e delicada do Espírito. É assim que encontramos o poder salvador no lugar do perigo, como abrimos as torneiras da misericórdia que anseiam transbordar em nosso mundo. Como Papa, ele nos mostrou como sair de nós mesmos para discernir onde a ação de Deus está se manifestando e escolher esse caminho.

Abrindo-nos

Gostaria de compartilhar três exemplos. O primeiro foi aquele que deu ao pontificado sua direção fundamental: o já mencionado encontro de bispos em Aparecida, em 2007. O segundo foi a crise da Covid-19 em 2020, quando Francisco se tornou, por um tempo, o piloto da tempestade da humanidade, guiando-nos para um lugar melhor. O terceiro foi o Sínodo sobre a Sinodalidade, que criou um novo modus operandi para a Igreja. Em cada caso, houve um "salir de si", um ato de autotranscendência, uma escolha humilde de discernir. Ele nos mostrou como escolher esse caminho e como rejeitar, em cada caso, a tentação de recuar para uma autossuficiência ilusória.

Aprendi com Francisco que as duas principais formas que essa tentação assume são o otimismo ingênuo e o pessimismo apocalíptico. No primeiro, não precisamos discernir porque tudo será resolvido por algum poder superior mágico: um grande líder político, mercados desregulamentados, bombas inteligentes, avanços tecnológicos e assim por diante. No segundo, não precisamos discernir porque a humanidade está em uma espiral descendente irreversível, e a única opção para nós é nos refugiarmos em nossos bunkers de ideologia ou fundamentalismo.

O discernimento, por sua vez, parte de um lugar de humilde insuficiência. Não sabemos o que devemos fazer. Buscamos graça e orientação, confiando que Deus está conosco e deseja o nosso bem. Nos expomos à pergunta: Como devemos mudar? E, ao respondermos, confiamos que, de alguma forma, Deus usará nossa escolha para ajudar a moldar o curso da história.

Pode parecer paradoxal, mas ao admitirmos nossa insuficiência e nos abrirmos para receber a graça e a orientação de Deus, aumentamos grandemente nossa própria capacidade de agir.

A descoberta de Aparecida

Quando os bispos latino-americanos se reuniram no santuário de Aparecida, em maio de 2007, para seu primeiro encontro continental em 15 anos, a crise que enfrentavam era familiar: o colapso dramático do catolicismo cultural. Os canais tradicionais pelos quais a fé era transmitida de geração em geração estavam desgastados ou rompidos. A “nova evangelização” sob João Paulo II e Bento XIV, focada em reformular e esclarecer a doutrina da Igreja, não havia revertido o afastamento da fé. Os progressistas culpavam a Igreja por não se adaptar; os conservadores, por se adaptar demais. Mas em Aparecida, os bispos perceberam que nenhuma dessas explicações era válida. Era necessário discernimento: O que devemos fazer? Como devemos mudar para evangelizar neste contexto?

O Cardeal Bergoglio expressou essa percepção em uma homilia proferida no santuário logo no início do encontro, homilia essa que serviu de base para seu famoso discurso aos cardeais antes do conclave seis anos depois. Ele lembrou aos bispos de Aparecida que a Igreja primitiva se difundiu somente pela ação do Espírito, abrindo-os para “a sabedoria cognitiva que destrói todas as pretensões gnósticas na Igreja”. O Espírito, em outras palavras, mostrou aos apóstolos que o verdadeiro poder ali era de Deus. A “Igreja da pretensão gnóstica” era o que a Igreja havia se tornado com muita frequência na era da secularização.

Diante da rejeição das verdades do cristianismo pela modernidade secular, a igreja muitas vezes se retraiu, refugiando-se no que Bergoglio chamou de “a suficiência do nosso próprio conhecimento”, quando o que se fazia necessário agora era uma renovada dependência da ação do Espírito. “Ao nos impulsionar à evangelização”, disse ele, o Espírito “nos liberta de nos tornarmos uma Igreja autorreferencial, como a mulher curvada do Evangelho que não faz nada além de olhar para si mesma enquanto o povo de Deus está em outro lugar”. A comparação sugeria que o afastamento da igreja não se tratava tanto de pessoas abandonando a igreja, mas sim da igreja abandonando as pessoas, focando-se na sua própria preservação institucional em uma era de secularismo.

O que ele disse em seguida levou os 200 bispos reunidos a aplaudirem. “Na verdade, não queremos ser uma Igreja egocêntrica, mas uma Igreja missionária”, disse ele. “Nós, o povo e os pastores, falamos com base no que o Espírito nos inspira, e oramos juntos e edificamos a Igreja juntos; ou melhor, somos instrumentos do Espírito que a edifica.”

Foi esse discernimento por trás da transformação de Aparecida. Os que lá estiveram descrevem-na como uma experiência do Espírito que os libertou do desânimo e da divisão. Chegaram à conclusão de que a secularização e o afastamento da Igreja não eram sintomas de declínio, mas um convite à conversão, a libertar-se dos apegos ao poder e ao status que a Igreja acumulava em culturas antes cristãs. Em Aparecida, viram a necessidade de ser “uma Igreja pobre, dos pobres”, como Francisco afirmou categoricamente após a sua eleição, ou seja, uma Igreja que evangeliza a partir de um lugar de pobreza e humildade, dependente da graça. É a única maneira de a Igreja evangelizar de forma credível em culturas que já não apoiam o cristianismo.

Essa visão de uma Igreja sinodal evangelizadora, formada por discípulos missionários, é a que transborda das páginas da Evangelii Gaudium. Ela nasceu de uma decisão de discernimento. Isso significava que os bispos não se limitavam a culpar a cultura pelo fracasso da Igreja em evangelizar, mas questionavam como eles próprios precisavam mudar para cumprir a missão de Cristo. Como Francisco escreveu em 2021 ao cardeal alemão Reinhard Marx: "A reforma na Igreja foi realizada por homens e mulheres que não tiveram medo de se expor à crise e deixar que o Senhor os reformasse. Esse é o único caminho; caso contrário, seríamos apenas 'ideólogos da reforma' sem arriscar a nossa própria vida".

Covid: reflexões teológicas

Meu segundo exemplo é a pandemia da Covid-19 em 2020-21, que não foi apenas uma crise mortal e paralisante para a economia, mas também uma espécie de apocalipse, revelando as disfunções e a crueldade de uma sociedade consagrada à busca individual da riqueza. Em seu famoso momento de oração e bênção em 27 de março de 2020 — um dos momentos mais assistidos da história da humanidade — Francisco conduziu uma meditação na Praça São Pedro, convidando-nos a ver o que a crise havia revelado e a entrar em discernimento. Jesus estava no barco conosco, sofrendo conosco, mas pronto para nos conduzir a uma nova vida. “Tu nos chamas a aproveitar este tempo de provação como um tempo de escolha”, orou Francisco. “Não é o tempo do teu julgamento, mas do nosso: um tempo para escolher o que importa e o que passa, um tempo para separar o necessário do supérfluo.”

Francisco percebeu que, se a humanidade aproveitasse a pausa para compreender o que é verdadeiramente valioso, poderíamos abandonar nossa ânsia por poder e posses e nos abrir para o que o Espírito estava pronto para nos mostrar: “espaços onde todos possam reconhecer que são chamados e permitir novas formas de hospitalidade, fraternidade e solidariedade”.

Ao longo da Páscoa daquele ano, ele manteve essa mensagem: como de uma crise como essa, nunca saímos os mesmos — melhores ou piores, mas nunca os mesmos. Como, então, sair melhores? Convidei-o a explicar, em um pequeno livro que pudesse destilar o método espiritual que (eu já havia percebido) norteava sua maneira de liderar a igreja. Let Us Dream dividiu o método em três etapas: contemplar-discernir-propor. Era a abordagem tradicional de ver-julgar-agir usada na reflexão teológica, mas em uma perspectiva inaciana. Em cada etapa, há um convite ao discernimento e uma tentação correspondente.

Na primeira etapa, a contemplação, observamos atentamente a realidade do que está acontecendo e nos deixamos atrair para os lugares de dor e necessidade, o que Francisco chamou de "margens existenciais". A partir daí, podemos ver com mais clareza onde encontrar Cristo em suas feridas. As tentações são o narcisismo, o pessimismo, o desânimo, a indiferença — todas as formas que nos fecham em nós mesmos, nos impedindo de enxergar o que está acontecendo. Se, por outro lado, estivermos dispostos a contemplar a realidade e a nos comover com o que vemos, nos deparamos com muitas questões perturbadoras. O que está sendo revelado? Por que as coisas são assim? Onde está Deus nisso tudo? Como o diabo opera aqui?

Na segunda etapa, discernir, “entramos no discernimento”, o que significa — diz Francisco — que resistimos à tentação de tomar uma decisão imediata, agarrando-nos a soluções imediatas ou técnicas. Em vez disso, temos a coragem de perguntar, como o povo de Jerusalém que ouvia Pedro: “O que devemos fazer?”. E em nosso pensamento e diálogo, somos convidados “a deixar espaço para este encontro gentil com o bem, o verdadeiro e o belo”, como disse Francisco. Citando o teólogo Romano Guardini, ele chamou isso de “pensamento incompleto”.

Ao entrarmos em discernimento, encontramos diversos espíritos excitáveis, ameaçados por qualquer indício de mudança: espíritos de acusação e ressentimento, de rigidez e pensamento dicotômico. Eis os sinais de resistência à humildade e pobreza de espírito. Mas se nos sentarmos em paz, em oração, e nos abrirmos, outros espíritos se apresentarão. Detectamos esperança, novas ideias, compaixão, paz, consolo. Este é Deus e assim reconhecemos o seu chamado para nós.

Jesus não descreve em detalhes como será o Reino de Deus, mas o invoca por meio de sinais de união, comunhão, abundância — refeições festivas e curas. Como Francisco disse certa vez em um discurso no Chile, a questão não é alimentar os pobres, vestir os nus ou visitar os doentes, mas sim reconhecer que os pobres, os nus, os doentes, os prisioneiros e os sem-teto têm a dignidade de se sentar à nossa mesa, de se sentirem “em casa” entre nós, de se sentirem parte de uma família. Esses são os sinais de que o Reino dos Céus já está entre nós. Buscamos esses sinais e, ao vê-los, os procuramos, deixando-nos guiar.

Francisco usou esse método não apenas para compreender, mas também para agir. Tendo visto onde o Reino de Deus aguarda para se manifestar, podemos fazer propostas, iniciar ações, criar espaços. Um princípio fundamental é que essa ação seja realizada em conjunto. “Só se sai de uma crise em comunidade”, disse Francisco em Vamos sonhar juntos, que, assim como Fratelli Tutti, contém belas passagens sobre o que significa redescobrir nossa pertença a um povo.

Francisco viu na crise da Covid-19 uma profunda fratura social, a perda do sentimento de pertencimento a Deus, à criação e uns aos outros. Mas também viu na resposta à crise por parte das pessoas comuns sinais da direção para onde o Espírito de Deus nos conduzia, uma consciência da dignidade de sermos um povo. Foi aí que ele encontrou o poder salvador: ali, no perigo da pandemia.

Isso nos leva à terceira etapa do método teológico de Francisco: propor. Isso levou ao convite de Fratelli Tutti: criar, a partir do colapso da ordem mundial, um novo roteiro, baseado na dignidade compartilhada de todos. Ele se materializa em uma política do bem comum do povo que transcende tanto o neoliberalismo quanto o populismo; em um diálogo cívico para superar a paralisia da polarização; em uma renúncia ao desejo de dominar e de guerrear; e na construção de uma economia que prove para todos, mas que respeita a ecologia da criação. Nesse novo futuro, há lugar para todas as religiões, não mais em guerra umas com as outras, mas trabalhando juntas a serviço da fraternidade.

É claro que não foi isso que aconteceu. Em sua carta de 2023, Laudate Deum, Francisco expressou frustração com o fato de “crises globais terem sido desperdiçadas quando poderiam ser ocasiões para promover mudanças benéficas”, citando tanto a crise financeira de 2007-08 quanto a pandemia de 2020-21. Já em Vamos sonhar juntos, Francisco previu que haveria uma tentativa das elites econômicas de recuperar o status quo ante e previu, corretamente, que em resposta haveria uma explosão social explorada pelos populistas.

O sonho de uma igreja sinodal

No entanto, Francisco ainda poderia agir para ajudar a concretizar esse novo futuro por meio da Igreja, o que nos leva ao nosso terceiro “momento”: a sinodalidade. Em seu discurso de 2015, no qual clamava por uma “Igreja totalmente sinodal”, ele afirmou que isso ajudaria o mundo a redescobrir a dignidade da participação e da autoridade como serviço, e a criar “um mundo mais belo e humano para as gerações vindouras”.

O sonho de uma Igreja sinodal nasceu do discernimento de Aparecida: abrir o povo de Deus à ação do Espírito. Na crise dos abusos sexuais cometidos pelo clero, Francisco percebeu que a sinodalidade era fundamental para uma conversão eclesial mais ampla, que destronasse o clericalismo e desse forma à compreensão do Vaticano II sobre o Espírito agindo por meio da assembleia do povo de Deus, interpretada e vivenciada pelos bispos e pelo Papa. Mas ele também viu que era “um dom que não podemos guardar só para nós”, como afirmou ao final do processo, em outubro de 2024. Ao contrário, disse ele, referindo-se ao sonho de paz em nosso tempo de guerras, a sinodalidade “nos dá a coragem de testemunhar que é possível caminhar juntos com nossas diferenças sem nos condenarmos uns aos outros”.

A crise multifacetada para a qual Francisco discerniu a sinodalidade como resposta de Deus foi descrita no primeiro capítulo de Fratelli Tutti: a ruptura do sentimento de pertencimento, o colapso do multilateralismo e a normalização política da polarização e do conflito — tudo isso já identificado por ele em sua famosa metáfora da “terceira guerra mundial travada aos poucos”. A sinodalidade foi o poder salvador que Deus disponibilizou no perigo do nosso momento.

A crise não residia no desacordo e na tensão, que ele considerava a essência da própria vida. A criação estava repleta de opostos dinâmicos e inquietos: masculino/feminino, universal/local, verdade/misericórdia, tradição/novidade e assim por diante. Essas tensões são frutíferas quando conduzem ao discernimento, que nos mostra como transcender e, ao mesmo tempo, incluir o bem em ambos os polos, elevando-nos a um novo patamar. A tentação que esteriliza é o conflito estagnado, que acaba destruindo qualquer possibilidade de mudança ou crescimento. “Pois na crise há uma semente de esperança, enquanto no conflito há uma semente de desesperança”, escreveu Francisco naquela carta ao Cardeal Marx.

Francisco via a sinodalidade como a Igreja aprendendo a viver frutiferamente na tensão, praticando o discernimento em sua vida cotidiana, sendo guiada pelo Espírito a uma compreensão mais profunda do mistério, em vez de se prender a pretensões gnósticas. Nos sínodos sobre a família, a juventude e a Amazônia, Francisco ensinou aos bispos a arte do discernimento em comum, mostrando seus frutos. Após a Covid, ele percebeu que era hora de convocar todo o povo de Deus para redescobrir essa forma de estar junto.

A sinodalidade deriva de Evangelii Gaudium: a Igreja dá testemunho no mundo de hoje ao incorporar o “estilo de Deus”, como disse Francisco, evangelizando ao comunicar a vida de Deus. A sinodalidade é aprender a lutar para sair de nós mesmos e encontrar a vida de Deus. É entrar em meio às tensões, escolher escutar, dialogar, refletir e orar, e criar espaço para que o Espírito Santo aja e nos impulsione a evangelizar.

Em Let Us Dream, Francisco afirma que o sinal de tal ação é o transbordamento (perisseuo no grego do Novo Testamento). O transbordamento é o sinal da presença de Deus: a pesca abundante que rompe as redes, a multiplicação dos pães, a transformação da água em vinho num banquete festivo. É o “transbordamento” porque é o próprio coração de Deus que transborda nesses momentos; e porque o amor de Deus é escandalosamente ilimitado, não medido pelo que merecemos. “Esses transbordamentos de amor acontecem, sobretudo, nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade”, escreveu Francisco, “quando o oceano do Seu amor rompe as barragens da nossa autossuficiência e, assim, permite uma nova imaginação do possível”.

Foi para incentivar essas manifestações na Igreja, disse-me Francisco, que ele convocou o Sínodo sobre a Sinodalidade, que pode ser definido simplesmente como a tentativa de lidar com as divergências por meio da expressão mútua, em vez do conflito. É por isso que também é “um serviço à humanidade, que tantas vezes se encontra presa em divergências paralisantes”, como ele afirmou em Let Us Dream. Diante do perigo de nosso colapso cívico e eclesial, Francisco viu na sinodalidade o poder salvador de Deus.

Ao refletir sobre o legado de Francisco, vejo este constante "salir de si": sua corajosa e confiante autotranscendência para acolher o algo a mais que o Espírito nos oferece em nosso tempo de necessidade. Seu discernimento em Aparecida mostrou que a Igreja precisava de um tipo muito diferente de proclamação nesta mudança de era, uma que exigia uma conversão missionária e pastoral, que culminaria em uma conversão sinodal. Francisco nos mostrou como alcançar essa sabedoria: como correr riscos, como ir além, como criar gestos que abrem espaço para a ação de Deus. A nova era da Igreja que Leão XIV impulsiona nasceu naquela homilia em Aparecida: “Nós, o povo e os pastores, falamos com base no que o Espírito nos inspira, e rezamos juntos e construímos a Igreja juntos”.

Este é o verdadeiro legado de Francisco: mostrar como encontrar o caminho de Deus em meio às nossas crises, como povo de Deus e como terráqueos que compartilham este planeta. Este legado é o presente que ele nos deu e, agora, é nossa responsabilidade.

Leia mais