"Na Evangelii Gaudium (2013), que será 'revisitada' pelo Colégio Cardinalício em junho, a pedido do Papa Leão XIV, Francisco nos recorda que a missão 'não é um negócio nem um projeto empresarial' (n. 279), mas uma tarefa mais profunda de levar o Evangelho às pessoas (n. 127)".
O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS.
Para quem acompanhou os 12 anos do pontificado do Papa Francisco, a leitura da autobiografia Esperança é uma ocasião para meditar novamente as preocupações que estavam no centro do coração do pontífice. Mais do que um relato sobre os principais momentos da vida de Jorge Mario Bergoglio, destacam-se os fatos que moldaram sua personalidade e explicam o que estava por trás do seu modo de ser, pensar e agir.
Muitos são os trechos que merecem ser realçados, mas um dos mais emocionantes é aquele em que Francisco narra como entendia sua missão na vida da Igreja: um serviço. Apesar de ter recusado festas e presentes na ocasião da celebração de sua primeira missa na Igreja do Colégio da Misericórdia, em Buenos Aires, por não compreender aquele momento como uma conquista, recebeu da avó Rosa um estojo porta-viático para transportar a eucaristia e um vasinho para a unção dos enfermos, acompanhado de um bilhete:
“Neste dia maravilhoso, em que poderá segurar entre as suas mãos o Cristo Salvador e no qual se abre para você o caminho privilegiado em direção a um apostolado mais profundo, com este modesto presente, de pouco valor material mas de altíssimo valor espiritual, embora distantes fisicamente, seus avós Rosa e Juan estão espiritualmente ao seu lado. Que Deus te abençoe. Que Deus ti haga santo.”
Na autobiografia, o Papa recorda outro presente que carregou consigo por mais de cinquenta anos: o testamento espiritual que a avó lhe entregou no Natal de 1966. Um texto breve, de profunda sabedoria, que é capaz de ecoar nos momentos mais difíceis:
“San Justo 25-12-66, Día de Navidad. Que os meus netos, aos quais dei o melhor do meu coração, tenham uma vida longa e feliz. Mas se um dia a dor, a doença ou a perda de uma pessoa amada lhes causar aflições, que se lembrem de que um suspiro ao Tabernáculo, onde fica guardado o maior e mais nobre mártir, e um olhar a Maria aos pés da cruz podem derramar uma gota de bálsamo nas feridas mais profundas e dolorosas.”
Nessas palavras, compreende-se de onde brotavam os conselhos do Papa Francisco acerca das relações interpessoais entre jovens e idosos e suas preocupações com a interrupção da transmissão da fé em nossa época. Na mesma autobiografia, ele nos interpela sobre qual é o nosso testemunho num período em que as novas gerações apresentam-se indiferentes à religião e assegura que “precisamos alimentar a esperança com a força dos gestos em vez de esperar por gestos de força”. Afirma que a missão não é um “ornamento” ou “um momento entre tantos” e dá seu próprio testemunho: “é algo que não posso erradicar do meu ser a menos que queira me destruir”.
Na Evangelii Gaudium (2013), que será 'revisitada' pelo Colégio Cardinalício em junho, a pedido do Papa Leão XIV, Francisco nos recorda que a missão “não é um negócio nem um projeto empresarial” (n. 279), mas uma tarefa mais profunda de levar o Evangelho às pessoas (n. 127). Explicou em que consiste um dos modos mais simples, bonitos e atrativos de empenhar-se na missão: “É a pregação informal que se pode realizar durante uma conversa, e é também a que realiza um missionário quando visita um lar. Ser discípulo significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho, num caminho” (n. 127).
Para que a simplicidade da missão se manifeste, é preciso recuperar e aumentar o fervor de espírito (n. 10), “mesmo quando for preciso semear com lágrimas!”, disse o pontífice, recordando trechos da Evangelli nuntiandi (1975), de Paulo VI. O fervor, contudo, é dado pelo Espírito e alimentado diariamente na vida de oração, escuta e resposta à Palavra. É o Senhor quem enxuga as nossas lágrimas, transforma a tristeza em alegria e faz arder o coração, como ouvimos dias atrás, ao recordar o encontro de Jesus Ressuscitado com os discípulos de Emaús.
A Evangelli Gaudium é mencionada duas vezes na autobiografia. O texto convida os cristãos a “uma nova etapa evangelizadora” (n. 1), a se tornarem evangelizadores com espírito. “Evangelizadores com espírito quer dizer evangelizadores que se abrem sem medo à ação do Espírito Santo” (n. 259).
Dos vários ensinamentos que podem ser extraídos do documento magisterial para todos que desejam ser discípulos missionários de Cristo, recordemos dois:
1. “Não pode haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus como Senhor”, como disse o Papa Francisco ao retomar as palavras de João Paulo II (n. 110).
2. “Não há maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo Espírito, renunciando a calcular e controlar tudo e permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde Ele quiser” (n. 280).
Que no dia de hoje, 21 de abril, em que a Igreja recorda o primeiro ano do falecimento do Papa Francisco, possamos abrir mais uma vez o nosso coração aos seus ensinamentos e tornarmo-nos discípulos missionários de Cristo, isto é, evangelizadores com espírito.