Trump, o estado de segurança e a mutação pós-fascista: rumo a um cristianismo nacional interconectado

Donald Trump. (Foto: Daniel Torok/White House/Flickr)

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15 Abril 2026

Na segunda presidência de Donald Trump, o aparato estatal americano parece ter entrado em uma fase que opera dentro da democracia formal ao mesmo tempo que a esvazia progressivamente, combinando securitização extrema, guerra cultural e uma crescente sacralização do poder. De fato, diversas confissões religiosas tiveram um importante peso em sua reeleição.

O artigo é de Manuel Sánchez-Moreno, professor universitário, publicado por Religión Digital, 13-04-2026.

Eis o artigo. 

Esse processo não se manifesta apenas no discurso, mas na reorganização material do Estado: o Departamento de Defesa foi renomeado como Departamento de Guerra. A política externa recente, especialmente em relação à guerra do Irã, não aponta apenas para uma intensificação do conflito, mas para sua legitimação em termos quase civilizatórios. Trump recorreu reiteradamente a uma linguagem em que a guerra aparece como necessária, inevitável e até moralmente justificada, invocando explicitamente a ideia de que os Estados Unidos agem sob o desígnio de Deus e sob sua própria moral.

Aqui a guerra deixa de ser apenas um instrumento político para se tornar uma empresa moral sacralizada. Essa dimensão conecta-se com a crítica feita décadas atrás pela teóloga Dorothee Sölle, que denunciou a "teologização da violência" nas sociedades modernas — a tendência de justificar a guerra como se fosse compatível com uma ética religiosa. No caso atual, essa lógica não se apresenta como teologia sistemática, mas como retórica política difusa, cumprindo uma função similar: legitimar a violência estatal como parte de uma ordem transcendente baseada em um Cristo guerreiro e vitorioso, oposto ao Cristo histórico dos Evangelhos.

Esse deslocamento torna-se mais inquietante quando conectado às políticas domésticas. O sistema migratório encabeçado pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), dentro do Departamento de Segurança Nacional, adotou uma lógica cada vez mais próxima à de um dispositivo de guerra interna. A expansão de recursos, a linguagem de mobilização e a normalização de práticas de detenção em massa da população migrante configuram um cenário onde a fronteira deixa de ser um limite geográfico para se tornar uma tecnologia social: o "inimigo" já não está fora, mas também dentro.

Esse fenômeno se encaixa no "ur-fascismo" de Umberto Eco, como persistência histórica de certos traços fascistas no tempo. E com a leitura do pós-fascismo proposta por Enzo Traverso, que sustenta que as novas ultraditeiras não replicam o fascismo clássico, mas o transformam em formas compatíveis com a democracia liberal. Não há ruptura aberta, mas uma continuidade deformada, onde os mecanismos formais permanecem enquanto seu conteúdo se altera profundamente. O ICE, nesse sentido, não é uma instituição excepcional, mas uma instituição ordinária que funciona sob uma lógica extraordinária.

No entanto, o que distingue este momento de outras formas de ultradireita atual não é apenas a militarização ou a securitização, mas a forma como ambas se entrelaçam com uma arquitetura religiosa emergente. Aqui voltamos a Sölle e a seu cristofascismo, definido como a legitimação e o apoio a ideologias totalitárias e autoritárias por parte de setores cristãos. Assim como ocorre com Eco e Traverso, podemos adaptar esse conceito ao de pós-cristofascismo, que emerge em democracia.

Uma manifestação possível é o nacionalismo cristão, não como simples ideologia política com referências religiosas, mas como teologia política que identifica a nação com um destino divino. Nesse quadro, os Estados Unidos não são apenas um Estado, mas um sujeito providencial, e seus inimigos não são meros adversários geopolíticos ou sociais, mas ameaças à ordem moral conservadora querida por Deus.

Para compreender plenamente sua configuração atual, é necessário introduzir uma evolução recente: o cristonacionalismo trumpista não surge do nada, mas se inscreve na evolução do nacionalismo cristão promovido pelos movimentos neoconservadores e teoconservadores do final do século XX. Esses movimentos já haviam articulado uma forte aliança entre religião, política externa e moral pública — especialmente no contexto da "guerra contra o terrorismo" de Bush —, mas ainda dentro de quadros institucionais relativamente estabilizados.

Com o trumpismo, essa tradição experimenta uma mutação qualitativa: o antigo nacionalismo cristão se transforma em um nacionalcristianismo mais direto, menos mediado institucionalmente e mais intensamente emocional e performativo. Já não se trata apenas de fundamentar políticas em uma moral cristã conservadora, mas de fundir identidade religiosa e liderança política numa mesma figura carismática, onde a nação, o líder e a missão providencial tendem a se sobrepor. De fato, não são raras as imagens de Trump orando no Salão Oval por suas políticas bélicas, cercado de líderes evangélicos que lhe "impõem as mãos".

Um dos momentos culminantes desse nacionalcristianismo será em 17 de maio de 2026, quando os EUA serão novamente consagrados a Deus no evento denominado "Rededicate 250" — uma jornada de oração no National Mall de Washington D.C., coincidindo com o 250º aniversário da independência, buscando reafirmar a identidade do país como "uma nação sob Deus".

Nesse trânsito, o nacionalcristianismo trumpista radicaliza os elementos anteriores: intensifica a lógica amigo/inimigo, reduz o espaço do pluralismo religioso e converte a política em uma cena de confrontação moral absoluta. É precisamente aqui que emergem traços que Dorothee Sölle teria identificado como próprios do cristofascismo: a legitimação da violência, a sacralização do poder, a obediência cega e a instrumentalização da fé como dispositivo de dominação — no que poderia ser uma manifestação pós-cristofascista.

A teóloga Rosemary Radford Ruether já havia advertido que o fundamentalismo cristão nos Estados Unidos opera como uma ideologia de domínio, articulada na interseção entre nacionalismo, patriarcado e messianismo religioso.

Nessa mesma linha, o trabalho da historiadora Kristin Kobes Du Mez mostrou como o trumpismo se sustenta sobre uma teologia da masculinidade agressiva. Trump não é uma anomalia dentro do evangelismo, mas uma expressão coerente de uma cultura religiosa que valoriza a liderança forte, a violência redentora e o militarismo como virtudes cristãs.

Por sua vez, a teóloga Anthea Butler aprofundou a dimensão racial desse fenômeno, mostrando que o nacionalismo cristão branco não é um subproduto da política, mas uma estrutura teológica em si mesma. A identidade nacional se constrói sobre a exclusão, e essa exclusão se apresenta como moralmente legítima. Nesse quadro, políticas migratórias agressivas ou discursos de segurança não são simples decisões pragmáticas, mas expressões de uma visão de mundo em que pertencer é também uma categoria espiritual.

A dimensão crítica interna ao próprio cristianismo aparece com força em figuras como a advogada Amanda Tyler, que denunciou explicitamente essas derivas nacionalistas como uma distorção da fé. A partir de seu trabalho em defesa da liberdade religiosa, ela alerta que essa ideologia converte a religião em instrumento de exclusão política, corroendo tanto a democracia quanto a integridade do próprio cristianismo.

Longe de construir um Estado confessional clássico, a administração Trump desenvolveu uma rede institucional de articulação com atores religiosos que opera de forma capilar. Assim, a Oficina da Fé — integrada diretamente ao Conselho de Política Nacional da Casa Branca e com acesso direto ao presidente — não é simplesmente um órgão consultivo. Funciona como um nó central de coordenação que estende sua influência a praticamente todo o aparato federal.

Sob essa estrutura, múltiplos departamentos incorporaram centros específicos ou figuras de enlace religioso: o Departamento de Habitação e o Departamento de Agricultura, por exemplo. O que emerge não é uma política religiosa isolada, mas uma infraestrutura estatal distribuída, onde a dimensão espiritual se integra à gestão cotidiana do governo.

Essa rede adquire um perfil ideológico mais definido ao se observar sua liderança. A Oficina é dirigida pela evangélica Jennifer S. Korn e tem como figura central a pastora evangélica e telepredicadora Paula White-Cain, uma das assessoras religiosas mais próximas de Trump, a quem compara com Jesus Cristo.

Nesse contexto, é especialmente significativo o recente distanciamento do bispo ultracatólico Joseph Strickland, figura desacatada do movimento MAGA de apoio a Trump. Isso está em linha com a postura de Leão XIV, embora não sejam poucos os católicos que permanecem alinhados com o trumpismo. Essa fissura não é um detalhe menor, mas um sintoma de uma reconfiguração mais ampla: o eixo religioso do poder trumpista parece deslocar-se mais para setores evangélicos específicos, particularmente aqueles que combinam liderança carismática, teologia da prosperidade, obediência e uma visão escatológica da política.

Assim, a sacralização do conflito externo, a securitização do espaço interno e a matriz simbólica do nacionalcristianismo — como manifestação de um pós-cristofascismo — não operam como elementos separados, mas como dimensões de um mesmo processo. Trump não precisa declarar explicitamente uma guerra religiosa; basta construir um enquadramento em que suas guerras — militares, migratórias ou culturais — apareçam como parte de uma luta moral mais ampla.

Nesse sentido, a legitimação religiosa torna-se um mecanismo central: não impõe crenças, mas orienta percepções. Permite que decisões profundamente políticas se experimentem como inevitáveis, justas ou até necessárias para preservar uma ordem superior.

O que emerge sob Trump é uma forma política nova: um pós-fascismo securitário articulado com o nacionalcristianismo, onde o poder se apresenta simultaneamente como protetor, guerreiro e agente de uma missão transcendente, operando dentro da democracia enquanto transforma silenciosamente seus limites. O risco não reside apenas nas políticas concretas, mas nessa mutação profunda do imaginário político: uma transformação em que a violência se moraliza, a religião se instrumentaliza e a democracia se esvazia sem necessidade de ser abolida.

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