11 Abril 2026
"Estamos sendo convocados pelas circunstâncias e pela fé para um novo momento e um novo espaço na esfera pública. Seremos cúmplices de ameaças genocidas contra outras culturas? Permaneceremos em silêncio diante da crueldade contra nossos vizinhos imigrantes?", afirma o editorial do National Catholic Reporter, 10-04-2026.
Eis o editorial.
Esses dias ficarão marcados como três dos mais imprudentes e decisivos da história da presidência dos EUA, um anti-Tríduo Pascal que começou na manhã do Domingo de Páscoa. Ao anunciar ao mundo que estávamos dispostos a aniquilar uma civilização, Donald Trump liderou nossa descida rumo ao mal corporativo.
Aqueles dias e aquelas palavras, que moldaram uma América que não conhecíamos antes, podem também conter consequências a longo prazo que Trump jamais poderia ter previsto. Aqueles dias e aquelas palavras nos trouxeram a mais um ponto em que confrontamos quem somos como americanos e, mais importante para a comunidade católica, quem somos como fiéis.
Algumas indicações das respostas a essas perguntas já estão em jogo.
Em seu discurso mais ultrajante até o momento, Trump conseguiu inspirar uma coalizão improvável, abertamente contrária às suas intenções e a ele pessoalmente, que ultrapassou todos os tipos de fronteiras ideológicas e divisões religiosas. Na esfera cívica, antigos apoiadores fervorosos — membros do Congresso e influenciadores populares da internet — pediram abertamente que os responsáveis desobedecessem às suas ordens. Outros, nesse grupo que se formou rapidamente, instaram legisladores e membros do gabinete a invocar a 25ª Emenda ou iniciar um processo de impeachment que levasse à destituição de Trump.
No âmbito religioso, os católicos, alguns dos quais profundamente divididos em uma série de questões, juntaram-se ao coro que instava os líderes militares e outros a desobedecerem ordens que constituiriam uma clara violação do direito internacional e dos princípios católicos da guerra justa. Alguns chegaram mesmo a pedir a destituição de Trump.
"Teólogos, padres, acadêmicos, autores, personalidades da mídia, bispos e outros usaram as redes sociais em 7 de abril para alertar que ataques militares contra alvos civis e infraestrutura no Irã constituiriam males graves e violariam a tradição da Igreja Católica sobre a guerra justa", relatou Brian Fraga, do National Catholic Reporter.
Independentemente do efeito a longo prazo que esse coro de dissidência possa ter, ele demonstra que pelo menos um momento de sobriedade social ainda é possível.
Na manhã de Páscoa, Trump, ignorando qualquer reflexão significativa sobre a festa mais sagrada da cristandade, optou por emitir uma declaração repleta de palavrões, com a intenção de cometer crimes de guerra, que terminou com um insulto ignorante e ofensivo ao Islã.
Seu ultimato: "Abram essa porra de estreito, seus bastardos malucos, ou vocês vão viver no inferno – AGUARDEM. Louvado seja Alá."
Na segunda-feira de Páscoa, ele elevou a aposta, passando de pontes e usinas elétricas. "O país inteiro pode ser destruído em uma noite, e essa noite pode ser amanhã", disse Trump. Ele sugeriu que seu prazo de 7 de abril, às 20h (horário do leste dos EUA), era definitivo, afirmando já ter concedido prorrogações suficientes ao Irã.
Naquela manhã, o mundo ouviu os discursos delirantes de alguém que não deveria estar nem perto das alavancas do poder ou do potencial de destruição que o presidente dos Estados Unidos possui. "Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta", escreveu Trump, anunciando nas redes sociais sua intenção de ordenar um genocídio, a destruição de uma civilização, caso suas exigências não fossem atendidas até aquela noite.
Menos de uma hora e meia antes do prazo final, o mundo recebeu um frágil adiamento de duas semanas e Trump, aceitando uma proposta de paz "viável" de 10 pontos do Irã, tomou o primeiro caminho disponível para se afastar do abismo ao qual ele mesmo, nós e o povo iraniano tínhamos sido levados de forma tão imprudente. Nada de substancial foi resolvido nas semanas de intensos bombardeios, que ceifaram a vida de milhares de pessoas.
Esses três dias foram talvez o choque de realidade mais vívido que os americanos já receberam em relação ao perigo inerente à eleição de um indivíduo tão fragilizado, carente e amoral para o cargo mais alto do país.
Aquele período de três dias foi singular pelo perigo que representou e pela traição intrínseca aos ideais americanos que constituiu. Visto numa perspectiva mais ampla, contudo, aqueles dias e palavras representam um resultado previsível de forças empenhadas não só em minar a democracia americana, mas também em infundir um nacionalismo cristão na essência da cultura dos EUA.
Este último aspecto é representado publicamente pelo secretário de Defesa Pete Hegseth em sua absurda invocação do Jesus não violento para promover uma guerra de escolha.
A vulgaridade religiosa de Hegseth é tão escancarada e nociva que não pode ser ignorada. Invocar o nome de Jesus para abençoar "a morte e a destruição vindas do alto" foi um uso tão ofensivo do fundador do cristianismo quanto se possa imaginar. O mesmo se aplica à sua comparação entre o resgate de um piloto abatido no Domingo de Páscoa e a ressurreição de Jesus.
As peculiaridades religiosas de Hegseth se estendem profundamente dentro do Pentágono, onde ele busca fazer do militarismo americano uma campanha justificada por Deus, e dos soldados americanos, agentes da vontade divina. Ou as ambições desse graduado de Princeton e Harvard são fruto de ignorância deliberada, ou ele está determinado a moldar a história americana de acordo com suas preferências pessoais. Os Estados Unidos não são uma nação cristã, como ele afirma. Nunca foram, nem em sua fundação, nem nas interpretações da Constituição desde então. Os Estados Unidos não são uma teocracia.
Se os católicos dos EUA precisavam de clareza em meio ao caos e ao patriotismo exacerbado, ela é fornecida nos mais altos níveis por um papa que fala com sotaque do Meio-Oeste e, portanto, não pode ser descartado, como outros fizeram no passado, como alguém que simplesmente não entende os Estados Unidos.
No Domingo de Ramos, o Papa Leão XIV proclamou: "Irmãos e irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da Paz, que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra. Ele não ouve as orações dos que fazem guerra, mas as rejeita, dizendo: 'Ainda que multipliquem as suas orações, eu não as ouvirei, porque as suas mãos estão cheias de sangue' (Is 1,15)".
Naquele momento, ele não fez referência específica a nenhum indivíduo ou país, mas Leão condenou claramente as ameaças posteriores de Trump como "verdadeiramente inaceitáveis" e uma violação do direito internacional.
Em entrevista transmitida no Domingo de Páscoa, Dom Timothy Broglio, da Arquidiocese para os Serviços Militares, alinhou-se à avaliação do Papa de que a guerra no Irã não era justificada pelos ensinamentos católicos.
As críticas à guerra com o Irã são apenas as mais recentes em uma série de distinções marcantes entre o governo e a liderança católica. Desde o início dos planos cruéis de Trump para deportação em massa, os bispos do país têm protestado. Eles emitiram uma declaração conjunta afirmando: "Nós nos opomos à deportação indiscriminada de pessoas em massa".
Antes disso, o cardeal Robert McElroy, de Washington, ao celebrar uma missa no Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, anunciou : "Estamos enfrentando — tanto como nação quanto como Igreja — um ataque sem precedentes contra milhões de homens, mulheres e famílias imigrantes em nosso meio."
Outros prelados lideraram delegações a centros de detenção federais recém-construídos, exigindo que os padres fossem autorizados a celebrar missa. O cardeal-arcebispo de Chicago, Dom Blase Cupich, denunciou as deportações em massa, e ele e o cardeal Joseph Tobin, de Newark, realizaram celebrações especiais da Quarta-feira de Cinzas, focadas nas necessidades dos imigrantes sitiados.
Já observamos anteriormente neste espaço que a hierarquia dos EUA e a igreja em geral estão sendo levadas, em virtude das violações extremas da dignidade humana e dos ataques ao Estado de Direito por parte desta administração, a uma relação com o Estado diferente daquela que existia na história recente. Trata-se de uma relação que não é mais partidária, mas sim de testemunho de um Deus de amor e compaixão ilimitados.
"O poder com que Cristo ressuscitou é inteiramente não violento", disse o Papa Leão XIV em sua mensagem de Páscoa. "Essa é a verdadeira força que traz paz à humanidade, porque fomenta relações de respeito em todos os níveis: entre indivíduos, famílias, grupos sociais e nações."
Estamos sendo convocados pelas circunstâncias e pela fé para um novo momento e um novo espaço na esfera pública. Seremos cúmplices de ameaças genocidas contra outras culturas? Permaneceremos em silêncio diante da crueldade contra nossos vizinhos imigrantes?
Se seremos definidos pelo anti-Tríduo Pascal de Trump ou pelas grosseiras distorções do Cristo não violento, depende de nós. Podemos resistir.
Esta reportagem faz parte da série especial "A Guerra no Irã". Veja a série clicando aqui.
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