“O uso de tons de cruzada é um erro que os EUA pagarão”. Entrevista com Michael Walzer

Foto: Anadolu Ajensi

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14 Abril 2026

Mais cortante do que isso não poderia ser o filósofo de Princeton, Michael Walzer,: “Duas guerras estão em curso no Irã, uma travada por Israel e a outra pelos EUA, mas nenhuma é justa. Pior ainda, porém, é o tom de cruzada cristã com o qual o homem que se autodenomina Secretário da Guerra justifica a intervenção, não apenas porque é moralmente errado, mas também porque ameaça ter consequências muito perigosas para os Estados Unidos e o Ocidente.”

A entrevista é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Repubblica, 12-04-2026.

Eis a entrevista.

Quais são as duas guerras?

A primeira é a de Israel, que não atende aos critérios de uma guerra justa, mas pelo menos tem uma motivação, porque a política externa do Irã prevê sua destruição. O Estado judaico realizou uma série de intervenções preventivas com as quais não concordo. Em alguns casos, defendo as guerras ‘preventivas’, para evitar ameaças iminentes, mas sou cético quanto àquelas destinadas a enfrentar perigos hipotéticos a longo prazo. Israel não tinha justificativa para esse ataque, também porque, após o ataque de 12 dias realizado em junho, alegou ter atrasado o programa nuclear do Irã em anos, então havia espaço para outras opções, incluindo a diplomacia.

Qual é a segunda guerra?

Aquela estadunidense. Uma aventura trumpiana, que o próprio presidente teve grande dificuldade em explicar, mudando de versão cada vez que abriu a boca. Nenhuma das duas guerras é justificada, mas a israelense, pelo menos, tem um propósito.

O Papa Leão se opõe a ambas.

Não sei se ele o faz com base na doutrina católica da guerra justa, ou por ser um pacifista, então não sei se ele falou especificamente contra o atual conflito, ou contra todos os conflitos em geral.

A intervenção contra Teerã atende às condições para uma guerra justa estabelecidas pela doutrina católica?

Não, e o Papa deveria usar os argumentos da doutrina porque eles também se aplicam à cultura secular. Além disso, existe o aspecto religioso de políticos como aquele que se autodenomina Secretário da Guerra, que trata as operações como uma cruzada cristã. O Papa certamente tem razão em criticá-lo.

Porque não deveria usar motivações religiosas?

Exatamente. A doutrina da guerra justa, apesar de ser uma teoria católica, baseia-se na lei natural. É universal e não justifica as cruzadas.

O que sente quando ouve Hegseth?

É contra as tradições e as leis estadunidenses, além de violar os princípios do cristianismo.

Bush sempre enfatizava que as guerras no Afeganistão e no Iraque eram contra o terrorismo, não contra o Islã. Essa distinção é importante?

Claro. É necessário especificar razões para a guerra que sejam compreensíveis para todo o mundo e explicáveis pelo direito internacional. E tais razões não têm nada a ver com a religião.

Existe o risco de a guerra ser vista como uma cruzada?

É isso que Hegseth parece estar dizendo. Trump usa um tom menos religioso, mas ameaçou destruir toda a civilização iraniana. Pelo menos indicou uma intenção secular, mas violou a lei e a moralidade.

Quais são os riscos?

O nacionalismo cristão é muito forte no governo Trump. Isso é muito perigoso para todos nós, estadunidenses, mas também para os povos do mundo.

Poderia provocar reações terroristas?

Certamente, e não só. Outras formas de reações políticas também são muito prejudiciais, colocando em risco alianças, favorecendo a formação de coalizões contrárias aos nossos interesses, no Oriente Médio e em outras regiões.

Os EUA podem aceitar um acordo mesmo que o regime não caia?

Não creio que tenham escolha a essa altura. A ideia de que uma mudança de regime poderia vir com um ataque estadunidense e israelense nunca foi levada a sério. Portanto, se houver um acordo, terá que ser com o atual governo.

Que tipo de acordo seria aceitável?

Trump quer algo que possa definir uma vitória, mas não vejo como. O ideal seria a reabertura de Ormuz, o bloqueio da ajuda a grupos aliados como o Hezbollah, limitações ao programa nuclear e a entrega do urânio enriquecido a uma autoridade internacional. O risco, porém, é que Trump, para poder sair dessa, aceite muito menos.

Então, a guerra precisaria continuar?

Não. Mas se um bom acordo não puder ser alcançado, seria melhor retomar um programa de sanções para conter o regime. 

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