07 Abril 2026
Em nota, o filósofo aponta: o Estado que se declara o mais poderoso do mundo é dirigido há anos por homens tecnicamente dementes. Talvez por compaixão, não toca ao Ocidente assistir a seu declínio em consciência e responsabilidade – mas em delírio e loucura.
O artigo é de Giorgio Agamben, filósofo italiano, publicado por Outras Palavras, 06-04-2026. A tradução é de Antonio Martins.
Eis o artigo.
Vale a pena refletir sobre um fato tão inacreditável que tentamos a todo custo apagá-lo: que o Estado que se autoproclama o mais poderoso do mundo é governado, há anos, por homens que são tecnicamente dementes. Não se trata de dar uma forma extrema a um julgamento político: que Donald Trump — assim como Joe Biden antes dele, por certo — deva ser considerado demente no sentido patológico do termo é uma evidência agora compartilhada por muitos psiquiatras. Qualquer pessoa que observe sua maneira de falar não pode deixar de concordar.
O que nos interessa aqui não é, evidentemente, o caso clínico de indivíduos chamados Trump e Biden. Mas a pergunta que não podemos deixar de fazer é: qual o significado histórico de um país como os Estados Unidos — que, de certa forma, lidera todo o Ocidente — ser governado por uma pessoa com problemas mentais? Que declínio espiritual e moral radical, mesmo antes de sua natureza política, poderia ter levado a um resultado tão extremo?
Que o destino do Ocidente estivesse selado pelo niilismo era algo que Friedrich Nietzsche já havia diagnosticado há mais de um século, juntamente com a morte de Deus. Mas que o niilismo assumiria a forma de demência não era algo inevitável. Talvez seja, de certa forma, por compaixão e piedade que o Deus que deseja destruir o Ocidente o conduza a seu fim não com consciência e responsabilidade, mas com delírio e loucura.
Leia mais
- Trump dá sinais de descontrole diante de reveses militares no Irã e crise global pelo bloqueio do Estreito de Ormuz
- “Hitler com demência” ou “presidente sobre-humano”: o debate sobre a saúde mental de Trump
- Trump está acabado, mas o poder por trás de seu trono permanece. Artigo de Gustavo Veiga
- Trump diz que os Estados Unidos poderiam encerrar a guerra com o Irã “em duas ou três semanas”
- Trump cogita encerrar guerra contra o Irã mesmo sem liberar Estreito de Ormuz, segundo o Wall Street Journal
- O ceticismo dos países do Golfo Pérsico em relação às "intensas negociações" com o Irã demonstra uma desconfiança em relação a Trump
- O Irã impõe suas condições e diminui a possibilidade de uma solução negociada enquanto os bombardeios continuarem
- O Irã adverte os EUA: "Não queremos uma trégua, vocês serão eliminados"
- Fim da guerra no Irã? Artigo de Liszt Vieira
- "Trump está perdendo e precisa pagar para acabar com a guerra". Entrevista com Aaron David Miller, ex-enviado dos EUA para o Oriente Médio
- Por que o plano de 15 pontos de Trump provavelmente não agradará ao Irã
- A mais recente mudança de posição de Trump sobre o Irã: mediadores misteriosos, contatos preliminares e acordos não especificados
- As derrotas de Trump expõem as limitações dos EUA
- “Trump começou uma guerra que não pode terminar”. Entrevista com Ali Vaez, especialista em Irã do International Crisis Group