A Igreja dividida: o rito imaculado diante da fraternidade esquecida. Artigo de Alzirinha Souza

Foto: András Rátonyi/Unsplash

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31 Março 2026

"O Espírito Santo que nos faz 'una' uma vez que nos convida a construirmos unidade na diversidade em linha com a unidade que Jesus mesmo estabelece com os pobres. Sigamos a Semana que nos santifica, iniciada no Domingo de Ramos, em linha com os valores D’Aquele que encontraremos no Domingo da Ressurreição!", escreve Alzirinha Souza, leiga, doutora em Teologia pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica), onde realizou a primeira tese doutoral sobre o pensamento de José Comblin.

Além disso, é mestre em Teologia pela Universidad San Dámaso (Madri) e pós-doutora em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É professora e pesquisadora do Instituto São Paulo de Ensino Superior (Itesp). É membro da Société International de Théologie Pratique e fundadora e colaboradora do Centro pesquisa e documentação José Comblin, da Unicap.

Eis o artigo.

Iniciamos hoje o período mais caro e mais significativo da fé católica: a Semana Santa. Seu nome não é por acaso, contudo a Santidade da semana não nasce das celebrações que nos esmeramos em realizar. A santidade da Semana nos é dada por Aquele se segundo a Carta aos Filipenses que lemos na celebração de Ramos “existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se iguais aos homens” (Fl 2, 6-7). De fato, se o Filho de Davi não usurpou a Deus, ao contrário, me parece que são as celebrações realizadas que insistem em usurpar ao Filho em seu novo mandamento deixado: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” (Jo, 13, 34-35). Se as nossas celebrações pascais se detém na estética barroca e, não nos convida e nos impulsiona à realidade, não seria legítimo nos perguntarmos: a que elas servem?

Notadamente hoje, na Missa de Ramos em que participei, não encontrei os pobres “sem moradia” da Campanha da Fraternidade? Eles não foram lembrados nem formalmente e por “obrigação” pelo cartaz da CF que não estava no presbitério, nem pelas músicas, nem pela oração da Campanha descrita, pedida e solicitada após a oração dos fies, nem a explicação ao Povo de Deus sobre a coleta da Solidariedade. Enfim, foram expulsos da celebração, não somente fisicamente, uma vez que se mantiveram na calçada, mas também espiritualmente. Eles foram deliberadamente ignorados.

Muitas perguntas podem decorrer daí, contudo gostaria de colocar duas que julgo essenciais: 1) essa celebração que abre a Semana Santa, afirmando “Hosana ao Filho Davi”, está se referindo a “qual Filho de Davi”? O Filho de Davi, Jesus, para culto ou para seguimento? 2) O dos Evangelhos tal como deve ser: aquele que se direcionou primeiramente aos excluídos do sistema religioso, político-religioso de sua época, aquele que perguntou de diferentes formas “a Lei foi feita para o homem ou o homem para a Lei” (Mc 2,27)? ; 3) Aquele que ensinou por práxis e palavras que pôr em cima de todo está a misericórdia de Deus que se dirige prioritariamente aos pobres nos direcionando para as demandas mais concretas da nossa realidade. Qual Jesus?

Ora, a morte de Jesus que nos permite a experiência com o Ressuscitado, não é desconectada de sua práxis histórica. A semana que nos santifica, nos leva à experiência do Jesus que viveu, morreu e ressuscitou. Jesus é o conjunto: só ressuscita o que morre e só morre o que vive! A ressurreição o faz vivente por excelência, para que aqueles/as que se afirmam seus seguidores assumam seus ensinamentos. (Edward Schillebeeckx: Jesus, a história de um vivente" (1974).

O Concílio Vaticano II, SC, 34, que orienta e estabelece as normas gerais para a revisão da liturgia, destaca que a liturgia deve ter a "nobre simplicidade". A avidez “santa” pelo preciosismo litúrgico, as celebrações na Semana que deveria nos colocar no caminho da santificação, não pode encobrir seus sentidos mais profundos de nos colocarmos em unidade eclesiástica com os dois pés nas realidades onde nos encontramos. Ao contrário disso, hoje se celebrou um Jesus projetado, abstrato, inventado, desconectado da realidade, seja pelos cantos que em definitivo passam longe de ser litúrgicos, seja pelas falas, seja pela estética barroca de paramentos em geral que destoam e se colocam diametralmente oposto àquele anunciado no Evangelho que descreve todo o relato da Paixão. E a ausência da referência a Campanha da Fraternidade confirma essa alienação.

A Campanha da Fraternidade, nestes seus mais de 60 anos de existência é tem a proposta de ser um caminho de preparação para Semana Santa, porque nos coloca em contato com a realidade do contexto brasileiro, para ser caminho de construção comunitário de práxis transformadora, tal como as práxis de Jesus. De outra forma, no coloca em contato com o Jesus que de fato, deveríamos celebrar! Neste sentido ela não deveria ser optativa, uma vez que antes de qualquer adjetivo, a CF é um caminho práxico-espiritual de vivenciarmos o caminho quaresmal que nos aproxima do Ressuscitado. Com muita correção Santo Irineu de Lyon (Adversus Haereses Contra as Heresias), nos ensina que Deus age no mundo com suas duas mãos: a mão do Filho, que nos ensina a correta práxis cristã, e a mão do Espírito que move o mundo porque move pessoas que aí se encontram colocando-as cada vez mais em contato com a realidade à luz do seguimento de Jesus.

Por em cima de todos os nossos limites e esquizofrenias eclesiais, é importante afirmar, como nos lembra Pe. Congar, que a Igreja “é na Força do Espírito” (1974)! O Espírito Santo que nos empurra à realidade, que nos faz como comum-unidade de pessoas que se reúnem em torno da pessoa de Jesus, logo Igreja Povo de Deus, nos dá identidade “apostólica”, nos colocando em linha com nossa tradição que traz em seu bojo o cuidado com os pobres, o órfãos e as viúvas. O Espírito Santo nos que faz “católica” a medida em que aceitamos as diferenças culturais e humanas da realidade encarnamos os ensinamentos do Ressuscitado na história. O Espírito Santo que nos faz “santa” porque nos lembra continuamente quem é Santo por excelência. O ES que nos faz “una” uma vez que nos convida a construirmos unidade na diversidade em linha com a unidade que Jesus mesmo estabelece com os pobres. Sigamos a Semana que no santifica, iniciada no Domingo de Ramos, em linha com os valores D’Aquele que encontraremos no Domingo da Ressurreição!

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