"É dia de contemplar o Cristo no trono que ele escolhe para si – o trono da Cruz – de onde, coroado de espinhos, ele mais uma vez nos chama à fé – à luz que poderá nos guiar pelas trevas e nos fazer chegar à vida. É tempo de mais uma vez contemplar o grande amor de Deus que ofereceu-nos o Filho para que de novo pudéssemos ouvir sua Palavra criadora a nos chamar à vida e trazer-nos de volta da morte. É tempo de silenciar para contemplar o profundo silêncio da morte, que envolveu Jesus por três dias, e perceber que, também no silêncio, Deus nos ama."
A reflexão é de Mariana Aparecida Venâncio. Ela é doutora em estudos literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É doutoranda em teologia sistemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). É mestra em letras (literatura brasileira) pelo Centro Universitário UniAcademia (Juiz de Fora - MG) (2019). É especialista em sagrada escritura pelo Centro Universitário Claretiano (2018). É bacharela em Teologia pelo Centro Universitário UniAcademia (2016). Atualmente é professora na graduação em Teologia da Faculdade Palotina de Santa Maria (RS) (FAPAS), onde lecionando as disciplinas de História de Israel e Literatura do Antigo Testamento. Assessora da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB.
1ª leitura: Is 50,4-7
Salmo: Sl 21(22),8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)
2ª leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Mt 26,14-27,66 ou mais breve 26,11-54
Queridas irmãs, queridos irmãos que acompanham este projeto Ministério da Palavra na Voz das Mulheres, com alegria compartilho minhas reflexões para este Domingo de Ramos da Paixão do Senhor.
Iniciamos com este domingo a Semana Maior de nossa vida cristã, a Semana em que celebramos o Mistério da Páscoa do Senhor. O Domingo de Ramos tem uma estrutura própria – recordamos na celebração a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e contemplamos sua condenação, Paixão e Morte de Cruz na escuta da Palavra, especialmente na narrativa da Paixão. No Mistério da Paixão e Cruz, Jesus nos diz – como lembrava o Papa Francisco – sua “palavra de amor mais eloquente” (Dilexit nos 46). A cruz, sinal de escândalo para muitos, torna-se, para nós, sinal de amor de um Deus que em vez de desistir da humanidade, triste por suas faltas, dá-nos o seu próprio Filho para livrar-nos das amarras definitivas da morte. A Cruz é a palavra final de Jesus, que é fiel à missão recebida do Pai e não recua, em uma coerência absoluta com o serviço que ele escolheu como modo de viver e expressar sua autoridade, como enviado do Pai. A Cruz de Jesus é sua palavra final de obediência e de esvaziamento de si mesmo, expressão perfeita de alguém que soube retirar-se para que a vontade do Pai nele crescesse e produzisse frutos de salvação.
Na auto abdicação da Cruz, Jesus realiza o seu messianismo já prefigurado no Servo Sofredor de Isaías, embora esse messianismo antes anunciado no Mistério da Palavra, não correspondesse às expectativas messiânicas que o Povo da Primeira Aliança cultivava. As imagens do Servo que ouvimos hoje na Leitura do AT e também leremos na sexta-feira, para nós, são prefigurações do Cristo sofredor, que sobe o Calvário carregando o peso do nosso pecado – mas essas figuras não eram as imagens do messias esperado. E a celebração de hoje nos faz ver essa dicotomia. A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém o celebra como um rei, mas a Cruz o põe ao lado dos malfeitores. Hoje, também tendemos a desejar um Cristo que seja um rei do poder, do triunfo e das posses e às vezes nos esquecemos que ele rejeitou essas recompensas – e recusou até mesmo provar sua própria razão. Jesus não quis que a Cruz fosse o lugar de um espetáculo que provasse ao mundo o poder extraordinário de Deus, mas despojou-se das vestes e dos orgulhos, aceitou e abraçou a humilhação e – mais uma vez dentre tantas no Evangelho – colocou-se ao lado dos últimos. A Cruz é o núcleo do Querigma anunciado pela Igreja desde os primeiros Apóstolos, o núcleo da fé cristã, aquela proposição que tem o poder de abrir-nos ao dom da fé e despertar uma adesão verdadeira a Jesus. Mas nossa fé na Cruz exige não abdicar do Cristo que se fez último pela nossa salvação, que fez-se Cordeiro imolado, que “não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo” (Fl 2,6-7). É a este Cristo que devemos seguir se quisermos que a Cruz da nossa vida conduza à Ressurreição.
É dia de contemplar o Cristo no trono que ele escolhe para si – o trono da Cruz – de onde, coroado de espinhos, ele mais uma vez nos chama à fé – à luz que poderá nos guiar pelas trevas e nos fazer chegar à vida. É tempo de mais uma vez contemplar o grande amor de Deus que ofereceu-nos o Filho para que de novo pudéssemos ouvir sua Palavra criadora a nos chamar à vida e trazer-nos de volta da morte. É tempo de silenciar para contemplar o profundo silêncio da morte, que envolveu Jesus por três dias, e perceber que, também no silêncio, Deus nos ama.
Nesta contemplação da Paixão, há bastante tempo me acompanha um soneto do poeta barroco brasileiro, Gregório de Matos Guerra. Compartilho com você.
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, pra chamar-me
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
Desejo que ao olhar para as imagens do Cristo crucificado espalhados pelas nossas igrejas, nesta Semana Santa, você sempre seja capaz de enxergar a dor que Jesus transformou em palavra de amor; a rejeição que tão duramente ele suportou para que nós pudéssemos ser acolhidos nas moradas eternas; o sangue que ele derramou para que nossas feridas fossem curadas; enfim, a morte que nele o Pai transformou em vida. E que esta Semana Maior que iniciamos seja um mergulhar ainda mais profundo no Mistério Pascal que renove seu coração e seu discipulado.
Uma abençoada Semana Santa!
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