Entrada de Jesus em Jerusalém
1. Os dias da semana santa, até a quinta-feira inclusive, são ainda dias da quaresma, na estrutura de suas celebrações litúrgicas, em nada diferentes das semanas anteriores. Contudo, a partir do domingo de Ramos, é como se entrássemos no ambiente espiritual da grande celebração da Páscoa. Os dias da semana Santa é uma espécie de “átrio” antes de entrar no lugar central desta memória, o Tríduo pascal.
2. Normalmente passamos rápido da procissão dos ramos ao relato da paixão. Mas é importante olhar mais profundamente sobre este mistério da entrada de Jesus em Jerusalém. Primitivamente na Igreja de Jerusalém, se celebrava neste domingo, tão somente, a memória da entrada de Jesus em Jerusalém, enquanto em Roma se celebrava neste mesmo domingo a memória da Paixão. Só mais tarde os dois eventos se fundiram num único domingo: Ramos e Paixão.
3. A narração da entrada de Jesus em Jerusalém tem a função de preparar os leitores do evangelho para os relatos da paixão e morte de Jesus. Por essa razão, os evangelhos insistem em mostrar que Jesus se distingue da multidão de peregrinos que vai a Jerusalém em romaria por ocasião da Páscoa. Ele que sempre ia como romeiro, desta vez, Ele entra na cidade santa para cumprir o seu destino.
4. No Evangelho de Mateus transparece desde o início até o capítulo 25 a crescente tensão entre Jesus e as autoridades judaicas, preparando o desenlace na paixão e morte [cap. 26-27]. A perícope que lemos neste domingo [Mateus 21,1-11] fundamenta em Zacarias 9,9-10 a chegada do Messias em Jerusalém como rei justo e humilde, montado em um jumento, a proclamar a paz às nações em contraste com as armas de guerra. Os discípulos estão no caminho de Jesus, enviados para buscar o jumento, fazem o que Jesus manda, participam da missão de paz do Senhor.
5. O relato de Mateus está em sintonia com Marcos e Lucas. João conta o episódio da entrada de Jesus em Jerusalém [12,12-16] com mais sobriedade do que os sinóticos. Coloca-o depois da unção de Betânia na casa de Marta, Maria e Lázaro [João 12,1-8]. Indicado no lecionário como opcional no B, poderia ser lido no Ofício de vigília nos anos ABC.
6. Os Ofícios da semana santa assumem um estilo sóbrio, marcados pela leitura do Cântico do servo sofredor de Isaías que parecem descrever antecipadamente a vida de Jesus por sua atitude de confiança em Deus e por sua capacidade de se compadecer dos irmãos. O primeiro cântico [Isaías 42,1-7] é lido na segunda feira; o segundo [Isaías 49,1-6] na terça-feira e o terceiro [Isaias 50,4-9a] na quarta (repetida no domingo de Ramos). O quarto cântico será lido na sexta feira da Paixão.
7. Os evangelhos dessa semana, a ceia de Betânia na segunda-feira [João 12,1-11]; a predição da traição de judas e da negação de Pedro na terça [João 13,21-33.36-38]; e traição de Judas na quarta [Mateus 26,14-25] é preparação imediata da comunidade à celebração da morte sepultura e ressurreição de Jesus. Duas personagens marcam o ambiente destes dias da semana: Maria de Betânia e Judas. Entre os comensais da ceia de Betânia, há uma “sombra”, a figura de Judas, contrastando com o amor exuberante de Maria. Judas está em contraste mais radical com Jesus: nele, o entregar indica, em Jesus é amor incondicional até o fim, puro dom à humanidade.
Dedique um tempo para uma leitura orante da Palavra de Deus. Crie ambiente de silêncio ao seu redor e dentro de você. Coloque-se em atitude orante. Após uma leitura pausada e atenta, de Mateus 21,1-11, repita a leitura até que a Palavra ganhe espaço no coração. Amplie a leitura da entrada de Jesus em Jerusalém com a leitura de Zacarias 9,9-10. Compare o relato de Mateus com o de João 12,12-16.
Depois da lectio pessoal ler o texto que segue:
Hoje, Domingo de Ramos, ao adentrar as portas da igreja, todos nós, exultantes, com os ramos de oliveira e as palmas, daremos um duplo testemunho acerca do Senhor: pelos ramos de oliveira confessaremos o Messias, o Ungido, já que é da oliveira que sai o azeite para a unção; e ao recebê-lo com as palmas da vitória, daremos testemunho de seu triunfo sobre a morte, porque teremos compreendido o significado de seu último sinal que foi o Despertar de Lázaro.
Através destes dois pórticos entraremos na Semana Santa e este curto tempo que vamos viver estará marcado por acontecimentos misteriosos, muitas vezes, aparentemente contraditórios, pouco claros para a nossa mente “pragmática” e “realista”. Se estivermos atentos, isto será uma constante na semana que iniciaremos.
Se olharmos atentamente para o Senhor, veremos no Evangelho do Domingo de Ramos que o Senhor avança e entra triunfalmente em Jerusalém e é recebido como um rei vitorioso. Não obstante, montado num jumento, se apresenta como um soberano humilde, não-violento. E isto já nos adverte que seu reino não é deste mundo (Jo 18,36).
É que neste curto espaço de tempo de uma semana, momento em que vamos nos submergir no Mistério de nossa Salvação, tudo será renovado. A morte vai adquirir um novo significado, será uma morte frutífera; Deus será glorificado por sua morte porque irá transformá-la numa passagem luminosa para a Ressurreição. Porém, esta transformação o Senhor a realizará atravessando a dor, as trevas e a solidão que a morte contém em suas entranhas.
Quem sabe, como diz Martín Buber falando dos profetas, porque as realidades significativas se realizam mais na profundidade do fracasso que na superficialidade do êxito. O êxito é efêmero, passageiro, porém, no fracasso nossa consciência fica marcada para sempre.
Quem se recorda dos que mataram os profetas e o Cristo?
Nas palavras finais do Evangelho do Domingo de Ramos, o Senhor vai se distanciando lentamente da multidão até ocultar-se dela. A sua vida pública vai chegando ao seu fim. A hora da glória só será compartilhada na intimidade por alguns poucos. Veremos que a maioria dos que hoje o recebem como rei, pedirão que seja crucificado. O aparente êxito de hoje, será transformado no aparente fracasso dos dias que virão.
Por isso, tudo pode ser novo nesta semana que começa se não abandonamos o Senhor. É a partir de suas ações, e não de nossos pensamentos, que cada coisa terá um novo olhar.
Seguir o Senhor para estar com Ele, para servi-Lo, fazer um silêncio profundo sobre nossas necessidades, sobre nossos pensamentos, sobre nossos sentimentos, sobre nossas opiniões. Estar atentos aos acontecimentos sem a interferência de nosso eu, sequer para tentar compreender. Silêncio receptivo: somente a ação de Deus, seus atos, suas palavras, seu silêncio. Podemos repetir ao longo destes dias uma pequena oração “Não eu, Senhor, senão Tu”. (...) [1].
Nos dias da semana santa, tome como leitura de cada dia os Cânticos do Servo de Deus, do livro de Isaias, colocados no lecionário como primeira leitura destes dias. Sugestivos são também os evangelhos destes 3 dias: a unção de Betânia [na segunda feira] tendo ao centro o gesto da mulher e a ceia. Na terça e na quarta, a predição da traição de Judas e da negação de Pedro.
1. O Tríduo Pascal começa ao anoitecer da quinta-feira santa com a memória da Ceia do Senhor e do lava pés. Esta celebração da quinta à noitinha, é uma espécie de I vésperas da festa anual da páscoa celebrada em três dias: a sexta-feira da paixão, o sábado do seu repouso e o domingo da sua ressurreição. O ápice do Tríduo é a Vigília Pascal, início do domingo (cf. PS 27) [2].
2. O tríduo pascal tinha-se deformado de tal maneira que o domingo da Páscoa já não se configurava mais como parte do Tríduo. Progressivamente a celebração da ceia do Senhor ganhou tal relevância que desviou a atenção do verdadeiro ápice: a Eucaristia na noite da Páscoa. A Paixão passou a ser celebrada não mais como “Paixão gloriosa”, mas num clima de incontido sentimentalismo, exclusivamente como “Paixão dolorosa”, e assim se tornou o centro da piedade cristã. O sábado da sepultura desapareceu do horizonte espiritual da Igreja transformando-se em “Sábado de Aleluia” [3]. Ritos de caráter apenas prático ou de importância secundária acabaram adquirindo importância maiores do que os ritos fundamentais. Por exemplo, no final da Eucaristia comemorativa da Última Ceia do Senhor, o rito da transladação do Santíssimo virou solene procissão com exposição do Santíssimo seguida de adoração dos fiéis ao longo de toda a noite. Na Sexta-feira Santa, a procissão do Senhor Morto e outras expressões da piedade popular deixa em segundo plano a Liturgia da Palavra e a adoração da cruz. A bênção da Água Batismal da noite da Páscoa se torna bênção da água para uso devocional (água benta).
3. A reforma do Tríduo Pascal era tão urgente que começou antes do Concílio, com o papa Pio XII (1876-1958), que incentivado pelos protagonistas do movimento litúrgico, propôs a Reforma da Vigília pascal em 1951 e a da semana santa em 1955. Introduziu mudanças que visava justamente reaproximar a memória do mistério ao evento histórico: a missa vespertina da ceia do Senhor não antes das 17 horas; a liturgia da Sexta-Feira Santa próximo às 15 horas, mas não além das 18 horas; a vigília, de preferência, depois da meia noite de sábado para o domingo. Esta mudança visava garantir a verdade da hora em relação aos fatos, de modo que a vigília pascal configurasse como celebração do domingo e não do sábado santo.
4. A reforma do Concilio Vaticano II, proposta nas Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário de 1969 [NALC], assumiu e completou o que Pio XII havia iniciado em 1951, dando ao Tríduo Pascal autonomia em relação à Quaresma e a Semana santa e tirando-o da sua condição de “exilado”.
5. Cada celebração do tríduo é entendido como momento progressivo da única festa: a páscoa da Ceia, a páscoa da cruz, a páscoa da sepultura e a Páscoa da ressurreição.
6. A celebração da Ceia do Senhor ao anoitecer da quinta-feira marca o inicio das festas pascais: as flores, as luzes, a antífona de entrada, o canto do glória e a cor branca indicam que a quaresma ficou para trás para dar lugar à festa da páscoa.
7. Nesta noite repetimos em memória da Páscoa de Jesus, os gestos da sua última ceia: “Jesus tomou o pão, deu graças, partiu e passou aos seus”. Retomamos a eucaristia como ceia, cuja estrutura fundamental se apoia nestes gestos de Jesus: a preparação da mesa, a ação de graças, a fração da pão e partilhas do pão e do vinho [comunhão].
8. O simples gesto de passar ao outro um pedaço de pão é um gesto despojado de poder que aponta para uma espiritualidade da mesa, baseada na gratuidade, na partilha e no serviço fraterno. Eis os gestos de Jesus na noite em que foi entregue, tendo à mesa Judas, aquele que o iria entregar, e Pedro, aquele que o iria negar.
9. O gesto do lava-pés – outra versão da Eucaristia. Jesus eterniza o gesto de Maria que ungiu os seus pés na ceia de Betânia, sem se deixar intimidar com a atitude de Judas.
A adoração eucarística depois da Ceia do Senhor é um desdobramento devocional da celebração desta noite, não o seu ápice. O catolicismo popular é particularmente sensível à adoração do Santíssimo Sacramento, mas é preciso proceder de tal modo, que não dê a esta oração um cunho devocional. Recomenda-se sobriedade para não ofuscar a densidade da própria Ceia do Senhor e seu caráter de Memorial: o Santíssimo seja conservado em tabernáculo ou cibório fechados, nunca exposto em ostensório (cf. PCFP, 55). A adoração não se prolongue depois da meia noite.
10. A páscoa da cruz, de um lado, expressa a tristeza e o luto pela condenação e morte de Jesus. Frequentemente é com o sentimento de nossa própria justiça e de nossa própria integridade que contemplamos a tristeza solene destes ofícios. Há dois mil anos, homens "maus" mataram o Cristo. Mas o mal, que fez o justo inocente sofrer e morrer, parece não ter se acabado e se prolonga até os nossos dias. A sexta da paixão revela a verdadeira natureza do mundo que preferiu e continua a preferir as trevas à luz, o pecado ao bem, a morte à vida. E condenando o Cristo à morte, "este mundo" condenou-se a si mesmo à morte. Este é o primeiro significado, terrivelmente realista, da Sexta-feira Santa: uma condenação à morte... A Sexta-feira Santa não concerne somente ao passado. É o dia do Pecado, o dia do Mal, pois o pecado e o mal não desapareceram: ao contrário, permanecem a lei fundamental do mundo e de nossa vida.
11. De outro lado, a celebração da Sexta-Feira Santa assume a dimensão de ação de graças pela fidelidade do Filho ao Pai, até à doação da sua vida. A morte do Cristo nos é revelada como uma morte para nossa salvação. O Cristo nos dá a sua morte porque na verdade é em nosso lugar que Ele morre. Ele quer assumir e compartilhar de nossa condição humana até o fim, menos no pecado, porque em Jesus Cristo, não há pecado, logo não há morte. É somente por amor a nós que ele aceita morrer. Sua morte é então a revelação suprema de sua compaixão e de seu amor. [...] A condenação é transformada em perdão. [Cf. Alexandre Schmémann, Olivier Clément].
12. Por isso a Sexta-Feira da Paixão, em perspectiva bíblica, sobretudo do Evangelho de João, é “Paixão gloriosa”, pois celebra, o Amor Maior, que se manifestará vencedor na madrugada da Ressurreição. Ao fazer memória da bem-aventurada paixão do Senhor, a Igreja comemora o seu próprio nascimento do lado de Cristo na cruz (cf. PCFP, 58).
Muitas comunidades persistem em organizar grupos de adoração em plena sexta-feira da paixão, contrariando a norma que não prescreve tal prática. A norma diz que a adoração ao Santíssimo vai até a meia-noite de quinta para sexta-feira. A sexta-feira santa é dedicada ao mistério da cruz e não ao mistério da presença real na Eucaristia [cf. PS n. 56]. Ou então, impõe costumes devocionais arcaicos, fora de contexto [“hibridismo distorcido” segundo o DPPL, n. 143). A orientação primeira é que se valorize o ofício divino, com a participação do povo, sugerindo que tais ofícios sejam sóbrios, realizados na igreja despojada [não na capela da reposição]. Com ofícios bem organizados em nossas comunidades, estaríamos oferecendo um precioso serviço aos “peregrinos” que visitam as Igrejas neste dia.
13. No Sábado Santo, “a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando a sua descida à mansão dos mortos, e esperando na oração e no jejum a sua ressurreição” (PS 73. O foco é a sepultura do Senhor, certificação de sua morte, pertencente à forma mais antiga da fé: ‘Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras’ (1Cor 15,3-4). Na liturgia ressoa o convite: “Cristo por nós padeceu, morreu e foi sepultado: vinde todos, adoremos!”
O ‘grande e santo Sabbat’ é o dia que liga a Sexta-Feira santa, à comemoração da Cruz, ao dia da Ressurreição. Para muitos, a verdadeira natureza e o sentido desta ligação, a necessidade real deste dia intermediário, permanece obscura. Para a grande maioria daqueles que vão à igreja, os dias “importantes” da grande semana são a Sexta-feira e o Domingo, a Cruz e a Ressurreição. Estes dois dias, entretanto, ficam de alguma forma distintos. Há um dia de tristeza e depois um dia de alegria. Nesta sucessão, a tristeza é simplesmente substituída pela alegria. Mas segundo o ensinamento da Igreja, expresso na sua tradição litúrgica, a natureza desta sucessão não é uma simples substituição.
A Igreja proclama que o Cristo “venceu a morte pela morte”; isto quer dizer que, antes mesmo da ressurreição, coloca-se um acontecimento no qual a tristeza não é simplesmente substituída pela alegria, mas ela própria é transformada em alegria. O grande Sábado é precisamente este dia de transformação, o dia em que a vitória germina de dentro mesmo da derrota, uma vez que antes da ressurreição nos é dado contemplar a morte da própria morte. E tudo isso é expresso – mais ainda, tudo isso é realmente atualizado – a cada ano, no maravilhoso ofício matinal, na comemoração litúrgica que se torna para nós um “presente” salvador e transformador [4].
Mesmo tendo de cuidar dos preparativos da grande vigília na noite pascal, é importante considerar o sábado como parte estruturante do tríduo pascal. A Igreja abstém-se absolutamente da Missa, nem celebra os sacramentos neste dia. Contudo, recomenda-se a Liturgia das Horas. A sua versão inculturada, o Ofício Divino das Comunidades, oferece uma proposta acessível ao povo. Tais ofícios celebrados na igreja despojada [não na capela da reposição] oferecem um ambiente contemplativo, como as mulheres portadoras dos perfumes [miróforas] à espera da madrugada.
Neste dia, os catecúmenos eleitos são convidados a participar do “recolhimento” de toda a comunidade. Há ritos previstos para eles [o “éfeta”, e a recitação do creio...].
14. A primeira celebração deste domingo maior é a Vigília Pascal na noite santa, Mãe de todas as Vigílias da Igreja. O ponto de referência é o êxodo, cumprido e realizado na Páscoa de Cristo. O ato de se reunir no meio da noite e a procissão luminosa, precedida pelo Círio pascal, como a antiga coluna de fogo que guiava os israelitas, torna-se sinal deste êxodo que se realiza na vida da comunidade reunida. A liturgia da Palavra, é um longo relato da história de Deus com o seu povo, cujas leituras fundamentais é a do Êxodo e o relato da ressurreição de Jesus. O batismo evoca a passagem do mar Vermelho, onde os cristãos atravessam as águas do mal e renascem para uma vida nova. A eucaristia, novo maná, alimenta o novo povo de Deus pelo deserto da vida. Nesta noite, os catecúmenos eleitos são batizados e crismados, tomam parte nas preces e levam os dons do pão e do vinho até o altar; participam, pela primeira vez, da Oração Eucarística, da recitação da Oração do Senhor e da Mesa do Pão da Vida e do Cálice da Salvação, ápice da iniciação cristã. Nesta noite, os fiéis renovam as promessas batismais, reafirmando a inserção no mistério do crucificado-ressuscitado por meio do Batismo e da Confirmação (cf. PCFP 80).
15.. Na vigília pascal, nasce o dia novo, o Dia da Ressurreição, celebrado com grande solenidade (PS 97). Nele testemunhamos que o Senhor ressurgiu, como Maria Madalena, Pedro, João e os demais discípulos e discípulas. Eis o dia que o Senhor fez para nós. “Doravante a vida e a luz nos chegam mesmo pela morte e por todas as situações de morte de nossa existência se as "configuramos" pela fé na cruz do Cristo sobre a qual ele venceu a morte” [5].
16. O domingo da Ressurreição é prolongado por cinquenta dias de páscoa, “como um único domingo [santo Atanásio]. Tempo de mistagogia da vida batismal (RICA 37-40 e 235-239) para os fiéis e para os neófitos, na alegria de renascermos como filhos e filhas de Deus.
1. Se o silêncio é uma exigência de toda celebração litúrgica, as celebrações pascais com sua densidade espiritual, supõem que os momentos de silêncio sejam valorizados. Além disso, a oração pessoal antes e depois da celebração, garantem uma mais consciente e ativa participação.
2. Depois da celebração celebra-se o ofício da “Vigilância com Jesus” na capela da reposição fazendo memória da passagem de Jesus, da Ceia à Cruz. Esta oração comunitária requer bastante espaço de oração pessoal. Ao longo da oração pode ser sugerido: Ler pausadamente e com toda a atenção, o texto da segunda leitura 1Coríntios 11,23-26 [relato mais antigo da última ceia de Jesus]. Ou o evangelho de João 13,1-15. Cantar salmos em comunhão com Jesus, salmos que o sustentou nesta passagem da ceia até a cruz, ele que fez dos salmos a sua oração. Ficar em silêncio, repetindo no coração alguma palavra, deixando que os sentimentos de Jesus habite o coração.
3. Na sexta feira da paixão, em algum momento do dia, tomar um tempo, para ficar em silêncio diante da cruz de Jesus, repetindo no coração as palavras que ele rezou: faça-se a tua vontade ou as palavras dom ladrão: Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. Ler pausadamente o quarto cântico do Servo sofredor, proposto como primeira leitura neste dia.
4. No sábado santo, reservar um tempo em algum momento do dia, para a oração silenciosa e para a leitura espiritual. Sugerimos os seguintes textos: Os relatos evangélicos referentes ao sepultamento de Jesus: João 19,38-42 e Lucas 23,50-56 [ver também Mateus 27,56-61 e Marcos 15,42-47].
a) O Sábado Santo é aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo em que Deus, em Jesus Cristo, compartilhou não só nosso morrer, mas também nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical. Todos temos sentido alguma vez uma sensação espantosa de abandono. Isto é o que mais tememos da morte. Como os meninos, nos dá medo ficarmos sozinhos na escuridão. Só a presença de uma pessoa que nos ama nos dá segurança. Pois bem, isto é o que ocorreu no Sábado Santo: no reino da morte ressoou a voz de Deus. Aconteceu o inimaginável: que o Amor penetrou “nos infernos”: na obscuridade extrema da solidão humana mais absoluta. Também nós podemos escutar a voz que nos chama e a mão que nos toma e nos tira para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar. E se no espaço da morte penetrou o amor, então chegou ali a vida. Na hora da extrema solidão, nunca estaremos sozinhos. [Bento XVI [2/5/2010].
b) O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl. 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas? Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar? Quê Deus não tem direito de guardar silêncio? Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente? Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo. [...] O Pai está de luto; toda a natureza, em silêncio, acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo; morte e ressurreição são simultâneas no presente de Deus, mas no acontecer humano só podem ser sucessivas. [Padre Adroaldo Palaoro:]
5. No Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor.
a) Reservar um tempo para ficar em silêncio e repassar no coração a vigília, para agradecer pela graça do batismo renovado, para abrir o coração aos cinquenta dias de alegria e de contemplação do Espírito, na vida das comunidades que seguem Jesus. Começar a oração repetindo no coração a oração-coleta da vigília:
Ó Deus, que iluminais esta noite santa
com a glória da ressurreição do Senhor,
despertai na vossa Igreja o espírito filial para que,
inteiramente renovados, vos sirvamos de todo coração.
b) fazer a Leitura orante do evangelho de João 20 não só os versículos indicados para este dia [1-10], mas até o versículo 18, que inclui o encontro com Madalena, a discípula amada.
[1] Padre Enrique Bikkesbakke nos ajuda a olhar o mistério de Jesus em Jerusalém à luz do relato de João (www.ecclesia.com.br).
[2] Até hoje, é comum, considerar a vigília do sábado à noite como pertencente ao sábado, quando na verdade pertence ao domingo e é ápice do tríduo pascal.
[3] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Paschalis Sollemnitatis: sobre a preparação e celebração das festas pascais (16/01/1988), n. 38. É um documento que merece ser estudado pelas equipes de pastoral litúrgica. Sigla: PS.
[4] Segundo Alexandre Schmémann, Olivier Clément.
[5] Alexandre Schmémann, Olivier Clément.