24 Março 2026
No dia dedicado ao padroeiro dos lares, São José, 19 de março, a Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora, a Pastoral da Moradia e Favela e o Setor de Campanhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lançaram um convite a todas as comunidades católicas para uma iniciativa e gesto concreto da Campanha da Fraternidade (CF) 2026.
A reportagem é de Juce Rocha, publicada por Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, 20-03-2026.
Com a inspiração do tema “Fraternidade e Moradia” e do lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), o projeto “Cada paróquia, um mutirão por moradia” tem o objetivo de buscar viabilizar a solidariedade, diante do grave cenário no qual cerca de 26 milhões de famílias brasileiras vivem em moradias precárias ou inadequadas, outras tantas pagam um aluguel que pesa no orçamento familiar, enfrentam despejos, enchentes e todo tipo de vulnerabilidade.
Diante dessa realidade, e em convergência com a Doutrina Social da Igreja, a iniciativa “Cada paróquia, um mutirão por moradia” propõe que cada comunidade paroquial se organize para reformar ou construir, ao menos, uma moradia em seu território ou nas proximidades da paróquia.
“A Campanha da Fraternidade no tempo da Quaresma abre espaço para que cada comunidade e paróquia se desperte para a necessidade de colocar em prática a missão do amor ao próximo. Com este despertar, cada paróquia é chamada também a formar a Pastoral da Moradia, envolvendo mais pessoas na solidariedade, nesta missão de estarmos atentos, sobretudo, às necessidades existentes nas periferias de nossas paróquias”, destaca o bispo da diocese de Registro (SP) e referencial para a Pastoral da Moradia e Favela, Dom Manoel Ferreira dos Santos Júnior.
Mobilização pastoral
Para o secretário-executivo de Campanhas da CNBB, padre Jean Paul, a iniciativa é uma resposta missionária. “O que inspira esse projeto é o compromisso da Igreja no prosseguimento da missão de Jesus, para que todos tenham vida e a tenham em plenitude, e portanto, encontrem numa moradia adequada o espaço propício para o seu desenvolvimento humano integral”, afirma.
Padre Jean Paul destaca que a Igreja não vai resolver essa questão histórica no Brasil, mas por sua missão fundamental de proteger a vida, tem o compromisso de mobilizar as forças pastorais nesta direção. “A Igreja não vai resolver, com essa iniciativa ou com a Campanha da Fraternidade, a questão da moradia. Mas ela tem a capacidade de mobilizar a sociedade para que encontre soluções concretas para a do déficit habitacional do Brasil. E nada melhor do que o testemunho, do que a ação concreta, para despertar outros atores sociais nesta tarefa tão urgente”, propõe.
O coordenador nacional da Pastoral de Moradia e Favela, frei Marcelo Toyansk, enfatiza que o seguimento de Jesus Cristo, que também nasceu sem um teto, deve nos mover na direção da solidariedade a quem vive sem acesso à moradia.
“Somos um país com muitos recursos e muita riqueza, porém tudo isso é distribuído de forma muito desigual. Nesse sentido, somos provocados, como paróquia que celebra sempre a fé em Jesus Cristo, a encontrá-lo nos sem-teto, nos que moram em situações precárias nesse país”.
Indicações para o mutirão
Para contribuir com a organização das paróquias que desejam realizar a iniciativa proposta, a Cepast-CNBB, com a Pastoral da Moradia e Favela e a Campanha da Fraternidade, sugerem 10 passos para organizar o Mutirão por Moradia.
O itinerário proposto inclui identificação das famílias, conexão com a comunidade, acompanhamento da situação, arrecadação de recursos, mutirão de construção, protagonismo da família, iniciativas permanentes, incidência nas políticas públicas, integração com a Doutrina Social da Igreja e celebração da vida.
“Embora algumas pessoas digam que as paróquias e comunidades católicas do Brasil não estão em condições financeiras de construir casas para os seus desabrigados, isso não é verdade. Porque a proposta do projeto não é que a paróquia retire do seu caixa aquilo que é necessário para a construção de casas para as pessoas que não as têm. O que está em causa neste processo metodológico oferecido pelo projeto é a força mobilizadora da Igreja, da comunidade, da paróquia, da palavra do padre e do bispo. Por isso não se trata só de construir casas. Trata-se de desenvolver um processo metodológico de escuta, de diálogo, de ação comum com os irmãos e irmãs que vivem, que padecem do problema da falta de moradia”, conclui padre Jean Paul.
Igreja em saída
Para o frei Marcelo Toyansk, a iniciativa pode fortalecer ainda mais o sonho de uma Igreja em saída. “A partir desta ação podemos repensar como nos colocamos na cidade, na realidade em que vivemos. Muitas vezes nos limitamos à realidade estrita no nosso pequeno local confortável, mas sempre temos a oportunidade de nos tornarmos definitivamente uma Igreja em saída e repensarmos a nossa presença e nosso compromisso com uma realidade gritante de negação de direitos fundamentais como da moradia, especialmente a partir da nossa presença nas periferias, nos bairros mais empobrecidos em nossas cidades”.
O religioso lembra que apesar da consciência de que mudanças estruturais não vão acontecer sem uma efetiva ação dos poderes públicos, e da incidência política dos grupos sociais organizados, a comunidade católica tem um dever ético com a justiça social. “É importante entender que, assim como dar um prato de comida é um dever ético, um dever cristão, contribuir com a melhoria ou construção de uma moradia para quem passa frio, sofre com enchentes, com chuvas, com riscos em terrenos inseguros, igualmente se faz necessário. Essa conexão com as periferias é fundamental para que nós também possamos entender e reivindicar uma mudança da estrutura excludentes das cidades em que vivemos”, alerta o frei.
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