"Por que os aiatolás estão vencendo essa guerra". Entrevista com Olivier Roy

Destruição nos distritos de Javadiyeh e Beryanak, em decorrência dos ataques conjuntos EUA-Israel em Teerã, Irã (Foto: Fatemeh Bahrami | Anadolu Ajansi)

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23 Março 2026

Das colinas de Fiesole, onde leciona no Instituto Universitário Europeu, Olivier Roy observa de longe a crise que abala o Oriente Médio e a região do Golfo. Mesmo à distância, poucos como ele possuem as ferramentas e a capacidade de interpretá-la com precisão: islamista e cientista político, o professor Roy trabalhou como consultor para o governo francês e as Nações Unidas, percorreu a região de ponta a ponta durante quarenta anos, partindo do Afeganistão e chegando ao Golfo, e escreveu dezenas de textos que estudantes do mundo todo estudam para tentar decifrar a região mais tensa do planeta.

A entrevista é de Francesca Caferri, publicada por la Repubblica, 21-03-2026.

Eis a entrevista.

Professor Roy, que guerra é essa que estamos vivendo?

Uma guerra regional, pelo menos por enquanto. Uma guerra em primeiro lugar entre Israel e Irã, que começou depois de 7 de outubro de 2023, quando Israel decidiu lutar até o fim para se livrar primeiro do Hezbollah e do Hamas, e depois do Irã. Poderíamos nos iludir que, com o fim do Hezbollah e do Hamas e a expulsão dos Assad da Síria, o recuo que o Irã fora forçado a dar na região teria sido suficiente. Mas para Israel, não foi. E aqui estamos: o Irã nunca quis chegar a um confronto com os Estados Unidos, queria negociar.

Os Estados Unidos, precisamente: o senhor diz que essa guerra é regional, mas os Estados Unidos também estão envolvidos...

E esse é o principal problema hoje: Trump decidiu intervir ao lado de Israel em nada menos que duas vezes e agora não sabe onde quer ir. Israel, ao contrário, sabe onde quer chegar e está perfeitamente satisfeito com ambas as soluções que se delinearam: a ascensão ao poder do filho do antigo e, portanto, a mudança de regime, ou o caos. Não por acaso Israel não está ajudando Al Sharaa a estabilizar a Síria: não busca a calma; para Netanyahu é melhor o caos.

Mas Trump não é Netanyahu e está numa situação difícil: não sabe para onde quer ir e, quanto mais o tempo passa, mais complexa a situação se torna. Porque quanto mais líderes você mata, menos pessoas tem com quem negociar: antes se podia conversar com Khamenei ou Larijani, mas hoje isso já não é mais possível. E esperar que o regime desmorone graças às bombas vindas do céu é inútil: o exército não está pronto para trair, o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica tem uma base social importante (digamos, entre 10 e 20 por cento da população), o aparato estatal é leal e a população está presa entre o regime e os Estados Unidos, então não sairá às ruas para se rebelar.

Na sua opinião, qual é o objetivo do Irã?

Sobreviver, resistir. O regime não precisa vencer; basta-lhe se manter de pé pelos próximos seis meses. E pode fazer isso facilmente: tem excelentes combatentes, navios suficientes e vem se preparando há vinte anos para controlar o Golfo. A estratégia é clara: bloquear o fluxo de petróleo. Para isso, não é preciso destruir todos os navios que passam por Ormuz: basta um por dia. E nenhuma empresa pedirá a seus marinheiros que se arrisquem.

O que o xiismo tem a ver com isso? A rígida organização política, a ideia vertical de poder inerente a esse tipo de islamismo e que não existe nos países sunitas...

Eu diria nada. A ideologia xiita motiva a Guarda da Revolução, não a sociedade iraniana, que é a mais secularizada da região. O que realmente importa é a ideia de Estado-nação: o Irã sempre foi um Estado-nação, ao contrário das monarquias do Golfo. E a revolução reforçou essa ideia, proporcionando uma ascensão social, uma promoção para muitas pessoas das camadas mais baixas da sociedade, que assim se viram integradas. Isso é muito diferente da Síria, por exemplo, onde o poder começava e terminava no círculo de uma família: bastava matar os Assad para derrubar o regime. Não aqui. Não era difícil de entender, mas Israel não estava interessado nisso: o que lhe importava era destruir a capacidade nuclear.

Para os estadunidenses, não é isso: talvez pensaram que seria como na Venezuela, que uma vez removida a primeira linha de poder, a segunda teria negociado... Não é assim. E agora estamos a seis meses das eleições de meio de mandato, com a economia em dificuldade e a base Maga em revolta. Definitivamente, uma situação nada boa para Trump. No entanto, acredito que ainda não vimos tudo, que as coisas podem piorar ainda mais: Netanyahu afirma ser necessário enviar tropas terrestres, talvez apenas para o litoral, talvez apenas para controlar os portos e os pontos de trânsito de petróleo. Mas enviar soldados estadunidenses não resolverá o problema: pelo contrário, corre o risco de agravá-lo, tornando-se uma armadilha. Imagine o que aconteceria em caso de um atentado... A realidade é que, mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos terão que negociar. O que me leva a dizer que o Irã está vencendo.

O outro protagonista dessa história são os países do Golfo: como os situa nesse triângulo?

Os países do Golfo precisam de uma orientação, de uma proteção: durante 45 anos, foram os Estados Unidos, mas agora não são mais. Trump não os protegeu dos mísseis iranianos e, se eu fosse um morador do Catar ou dos Emirados, me questionaria bastante: para sair da crise, negociarão com o Irã. A Arábia Saudita poderia ser uma história diferente, mas não muito: eles também precisam de proteção e, se Trump não a garante, terão que conversar com Teerã. O Golfo voltará a ser um Golfo Pérsico, porque, no fim das contas, ninguém poderá oferecer proteção, exceto o Irã: não os Estados Unidos de Trump, não a Rússia, que tirou o corpo fora dessa questão, não a China, que está demasiado distante. Dito isso, também acredito que os Acordos de Abraão se manterão, que não haverá nenhuma crise com Israel: o que significa que, de uma vez por todas, é a causa palestina que será sacrificada, que todos no Golfo já consideram praticamente perdida e secundária em relação à importância de manter as relações com Israel.

O senhor leciona no Instituto Universitário Europeu: onde está a Europa? Talvez consiga enxergá-la melhor do que nós?

Eu diria definitivamente que não. A Europa é retórica: dois povos para dois Estados entre Israel e Palestina, estabilidade no Golfo... Mas não é um ator nessa crise, exceto na proteção de suas fronteiras e, portanto, de Chipre. Trump pediu que interviesse em Ormuz: mas por que a Europa deveria se mobilizar por um presidente que, um dia depois de você o ajudar, está pronto a lhe insultar? Essa é uma lição que os europeus aprenderam bem.

Em sua carreira, estudou a jihad profundamente: acredita que dessa guerra resultará uma onda de atentados semelhantes à que vimos nos anos do ISIS?

Não. Poderá haver atentados, sem dúvida, mas não haverá uma jihad em nome do Irã. O movimento jihadista é antixiita, portanto não haverá apoio popular a Teerã e seu povo. E, além disso, vejamos Gaza: há um enorme apoio popular por Gaza, há manifestações e universidades ocupadas na Europa, há milhares de jovens nas ruas, mas não há um chamado ideológico às armas. E, portanto, não há uma revolta terrorista de massa semelhante àquela do ISIS.

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