21 Março 2026
“A luta pela reforma agrária, entendida como a distribuição individual de terras, foi substituída pelo surgimento dos territórios dos povos”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 20-03-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
“A terra e os territórios não são um pano de fundo da reconfiguração geopolítica”, escreve Oscar Bazoberry, coordenador do Instituto para o Desenvolvimento Rural na América do Sul - IPDRS, na introdução do Décimo Informe Anual. Acceso a la tierra y territorio en Sudamérica. Acrescenta que terras e territórios “continuam sendo o espaço onde os ciclos políticos, as estratégias extrativas e as novas agendas ambientais se materializam”.
Bazoberry argumenta que é necessário colocar o acesso à terra e aos territórios no centro das análises e da atenção global para compreender como o poder está sendo reordenado, tanto em escala local quanto global. O relatório, que vem sendo publicado há uma década, abrange nove países da região, já que neste ano, por razões óbvias, não pôde contar com as contribuições da Venezuela.
Segundo o IPDRS, trata-se de uma “pesquisa colaborativa situada”, que recorre à informação fornecida pelos movimentos e organizações sociais, os meios de comunicação alternativos e alguns relatórios institucionais para sistematizar os dados disponíveis, de modo que sejam de utilidade para os sujeitos coletivos que os relatórios buscam visibilizar.
Elaborados por pesquisadores próximos aos movimentos, os relatórios anuais permitem conhecer a fundo as principais tendências registradas na luta por terra e território no subcontinente e, ao mesmo tempo, aproximarmo-nos dos sujeitos que defendem a terra e a vida. Em cada parte, destaca-se alguma resistência, acompanhada de fotos daqueles que a protagonizam.
É importante destacar as mudanças registradas em apenas uma década e que modificaram os conflitos de forma radical. “Durante anos, a terra foi tratada como um assunto rural e setorial relacionado à agricultura e residual em termos de emprego e residência”, aponta a introdução. Afirma que agora o território se tornou o centro da formação de valor, “onde a economia global se materializou”, e das resistências dos povos. Em suma, a terra é central como recurso global, como acesso às fontes de energia, à extração mineral e florestal, bem como fonte de especulação do capital por meio dos créditos de carbono, entre outros.
Uma das mudanças destacadas diz respeito aos modos adotados pela acumulação de capital. As cadeias globais de valor exercem hoje muito mais peso sobre a propriedade da terra das velhas oligarquias latifundiárias, com tudo o que isso implica para as lutas sociais. Na medida em que o capitalismo impacta nos territórios dos povos, buscando deslocá-los para privatizar os bens comuns transformados em meras mercadorias, surgem novas formas de resistência e novos sujeitos coletivos: povos indígenas, negros e camponeses.
Relacionado ao anterior, aparece uma mutação que será de longa duração: a luta pela reforma agrária, entendida como a distribuição individual de terras, foi substituída pelo surgimento dos territórios dos povos. As resistências realmente existentes supõem se apegar a seus espaços e povoá-los de espiritualidade, transformando a terra em território integral, protagonizada por comunidades forjadas em meio a esses processos. A mudança dos sujeitos históricos da luta anticapitalista mexeu com todo o tabuleiro institucional e político.
O protagonismo desses povos (indígenas, negros e camponeses, que no Brasil são chamados de “povos do campo, das águas e das florestas”) implica não apenas uma mudança de sujeitos, mas mudanças de fundo nas formas de fazer política, que passa a se concentrar nos autogovernos e nas autonomias territoriais. Vemos como as resistências ao capitalismo estão sendo protagonizadas por autonomias indígenas, negras e camponesas em todo o continente, por mais que alguns “analistas” acreditem que os operários das indústrias continuem sendo a classe que resiste ao sistema.
No Brasil, os povos indígenas não chegam a 1% da população total, mas são os únicos que estão conseguindo frear os empreendimentos das grandes multinacionais, como demonstra a recente vitória de 14 povos amazônicos contra os planos da Cargill. Resistência que nesses dias é revivida por mulheres indígenas do Rio Xingu, que exigem a revogação da licença ambiental da mineradora canadense de ouro Belo Sun. Há três semanas ocupam a sede do instituto indigenista e bloquearam a via de acesso ao aeroporto de Altamira.
As resistências se estendem por todo o continente e a cada dia conhecemos novas experiências. Perguntei a Silvia Adoue, que acompanha algumas dessas lutas, por que os indígenas são os que mais resistem. Após refletir, respondeu: “Estão mais preparados do que os urbanos para enfrentar a guerra do capital, já que nunca estiveram fora da guerra. E estão menos contaminados pelo capitalismo”.
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