07 Março 2026
“A pergunta que devemos nos fazer é: estamos dispostos a aprender com os povos ou continuamos acreditando que as vanguardas e os partidos de esquerda são as únicas alternativas?”, pergunta Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 06-03-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Há algum tempo, bastava a vontade de lutar para alcançar resultados, tanto para vergar os de cima, quanto para evitar que nos destruíssem. Hoje, a vontade sozinha não basta; é necessário “algo mais” para não sermos engolidos pela tempestade capitalista. Pelo que eu conheço, só o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) vem se preparando para essa eventualidade, há mais de uma década, quando realizaram o encontro Pensamento crítico frente à hidra capitalista.
As guerras de espoliação e extermínio dos de cima não podem ser enfrentadas diretamente, pois isso significaria a nossa aniquilação, como vem acontecendo com o povo palestino. Ao contrário, no Vietnã, na Argélia, em Cuba e em tantos outros lugares foi possível enfrentar e derrotar os representantes do sistema. No entanto, a velha cultura política não serve mais, embora seja necessário resgatar dela valores éticos como o compromisso militante, a vontade de sacrifício (Benjamin), a organização e colocar o próprio corpo, sem limites, mas com os devidos cuidados.
Os estados-nação que enfrentarem estados mais poderosos de frente serão varridos pelo vendaval, como estamos vendo nos últimos anos, com custos enormes para as populações. Não se aconselha a não combater, mas a levar em conta que o objetivo do capitalismo hoje é a aniquilação de povos inteiros. Quando temos clareza sobre isto, tudo começa a fazer sentido.
Rafael Poch disse isso abertamente, dias atrás: “Em torno do Irã, da Ucrânia e da Venezuela, presenciamos, em termos gerais, uma só guerra. Seu objetivo é impedir militarmente o ocaso da hegemonia estadunidense-ocidental no mundo, ameaçada principalmente pela pujança da China” (Ctxt, 23/02/2026).
Seria ingenuidade acreditar que se trata apenas de uma guerra entre estados. Ainda que para os grandes meios de comunicação estejamos diante do confronto entre potências que lutam pela hegemonia global ou regional, quando observamos o pano de fundo, vemos que em todos os casos estão em jogo as matérias-primas essenciais para a dominação, do gás em Gaza ao petróleo no Irã e na Venezuela. Para se apropriar desses bens comuns, é necessário realizar limpezas étnicas e sociais, como as que estamos vendo em todo o mundo e, de forma muito clara, na América Latina.
Retificando minimamente Rafael Poch, podemos dizer que estamos diante de uma só guerra: a dos de cima contra os de baixo. Na América Latina, está sendo uma guerra impiedosa contra os povos indígenas e negros, contra camponeses e moradores das periferias urbanas. Uma guerra colonial que aprofunda cinco séculos de “conquista” e violências. Esta realidade se torna muito clara, quando nos permitimos ver onde estão as resistências, precisamente entre os povos mencionados, não mais entre os velhos sujeitos que a esquerda continua evocando.
Esses sujeitos, e muito particularmente os povos indígenas, estão praticando uma nova cultura política que não está em nenhum livro, mas que se inspira nas resistências e sublevações de séculos, nos modos de vida e de se relacionar com a vida, em tradições, mas também na incorporação de novas aprendizagens.
Um primeiro tema a ser ressaltado está relacionado às pirâmides. Vemos que todas as vezes que os impérios atacam, a primeira coisa que buscam é decapitar pirâmides. O antropólogo Pierre Clastres observou que os povos das terras baixas resistiram melhor à conquista do que aqueles que formaram grandes impérios, com altas funções.
Penso que o debate proposto pelos zapatistas sobre as pirâmides, com a ampla e profunda reorganização de sua autonomia, relaciona-se tanto com a resistência à tempestade quanto com a certeza de que reproduzem a opressão, como demonstraram na sementeira de Morelia, em agosto passado. Se não construirmos pirâmides, não poderão nos decapitar. Essa é a outra lição que precisamos aprender.
Um segunda tema é o modo de enfrentar aqueles que querem nos destruir. Na velha cultura política, tratava-se de responder a cada agressão de cima, enfrentar a guerra dos poderosos com a guerra revolucionária, em uma simetria que demonstrou suas limitações. Não é que não queiramos lutar, mas que lutemos de outras formas, de modo a garantir a sobrevivência dos povos.
Nessa lógica, não há vitórias, nem derrotas. Não há entradas vitoriosas nos palácios do poder, mas outra coisa: continuar sendo o que somos, sendo necessário resistirmos construindo nossos mundos, que é um dos modos de condensar a rebeldia que nos inspira.
Há muito a aprender sobre como resistir. Dias atrás, celebramos a grande vitória de 14 povos amazônicos contra a privatização de três grandes rios, resistindo à multinacional Cargill e ao governo de Brasília. A pergunta que devemos nos fazer é: estamos dispostos a aprender com os povos ou continuamos acreditando que as vanguardas e os partidos de esquerda são as únicas alternativas?
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