Relatório do Grupo de Estudo nº 5: Escuta do mal-estar, reticências sistemáticas, perspectivas limitadas. Artigo de Andrea Grillo

Foto: Vatican News

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12 Março 2026

"Se a autoridade está ligada à ordenação, como diz o Vaticano II, isso significa que cada batizado, homem ou mulher, nas devidas condições, pode ser ordenado. Sem esta perspectiva, de paridade diferenciada, a 'reserva masculina' continuará a minar as relações eclesiais. Mesmo que a exaltemos ao nível de 'princípio'."

O artigo é de Andrea Grillo, teólogo italiano, publicado em seu blog Come se non, e reproduzido por Rivista Europea di Cultura, 10-03-2026. 

Eis o artigo.

Um dos fatos significativos que se leem nos primeiros 9 números do "Relatório" (que pode ser consultado aqui) é a transformação do trabalho do Grupo 5 no decorrer do processo. Ao final, temos, como produto do grupo, um relatório semelhante ao de todos os outros grupos, e não um documento do Dicastério, como havia sido hipotetizado no início e também no confronto entre o Prefeito e o Sínodo, em outubro de 2024. A estrutura do Relatório, no entanto, conserva em parte a estrutura do Documento que havia sido antecipado. Contudo, mudam os "pesos" internos ao documento. Aquela ampla apresentação de "figuras femininas", que parecia dever ser o corpo do documento, tornou-se parte de um apêndice articulado (que ocupa 72 números, em comparação aos 51 números das duas primeiras partes). No entanto, o apêndice oferece também outro material, de diversa natureza e intenção. Eis o esquema geral do documento (com os números correspondentes, que não são progressivos, mas recomeçam em cada parte e apêndice):

a) uma breve reconstrução da história do Grupo 5, do seu método de trabalho e das intuições obtidas durante o próprio trabalho (a presente Primeira Parte I, 1-9);

b) uma síntese argumentada das principais conclusões e convergências sobre o tema em questão, derivadas da escuta de diversos componentes do Dicastério (Consultores, Gabinete Doutrinário, Congresso, Feria IV), da leitura dos textos recebidos e dos testemunhos solicitados pelo próprio órgão (a Segunda Parte do Relatório Final, II 1-42);

c) um amplo apêndice de catalogação compreendendo pelo menos uma parte importante do vultoso material que o Dicastério recebeu e recolheu nos últimos meses, sintetizado em seis partes:

– Figuras femininas na Bíblia (App I, 1-73)
– Figuras femininas relevantes na história da Igreja (App II, 1-19)
– Testemunhos atuais sobre mulheres que participam na liderança da Igreja (App III, 1-21)
– Princípio Mariano e Princípio Petrino. Um olhar crítico. (App IV, 1-48)
– A potestade eclesial (App. V, 1-29)
– A contribuição do Papa Francisco e do Papa Leão XIV sobre o papel das mulheres na Igreja. (App VI, 1-42)

Como é evidente, a estrutura do documento é bastante composta e demonstra muitas camadas diferentes, quase a união em um só texto de projetos diversos. É evidente já pelo fato de a numeração recomeçar do n.1 por nada menos que 8 vezes, atestando, também numericamente, a complexidade das abordagens presentes no texto. Muitos são os aspectos interessantes. Gostaria de me limitar a examinar, por ora, o perfil sistemático do Relatório. Nesse plano, parece-me que se podem registrar alguns pontos interessantes, juntamente com carências ainda bastante vistosas.

1. A qualificação do problema e algumas reticências

O primeiro ponto sobre o qual me detenho é apresentado pela Síntese fundamentada dos temas emergentes do aprofundamento sinodal. É muito claro o caminho de reconhecimento da "entrada da mulher no espaço público", como fenômeno cultural que a Igreja lê como "sinal dos tempos" desde João XXIII (R, II, 1-3). Uma clara assunção do "desconforto" aparece limpidamente delineada (R, II, 4-7) com uma franqueza bastante rara nos recentes documentos eclesiais. A questão das mulheres é um "sinal dos tempos" (R, II, 10) ao qual a instituição deve responder não sofrendo as transformações sociais, mas tomando decisões, embora considerando que as situações são geograficamente e historicamente diferenciadas. No entanto, o tomar decisões é imediatamente atenuado, excessivamente atenuado, por uma contraposição forçada: aquela entre medo e pressa. Assumir decisões, sentidas como "honrar uma promessa", não pode considerar uma virtude o adiamento indefinido de cada decisão. Neste caso, o problema não é a pressa, mas a falta de memória: há uma promessa para honrar há 60 anos, não simplesmente um tema sobre o qual refletir com paciência infinita.

Por outro lado, o texto continua com um exame da natureza relacional do humano que sai das leituras "essencialistas" de masculino e feminino que caracterizaram muita teologia e quase todo o magistério até hoje. "Isso significa esforçar-se para pensar a dualidade sexual humana sem se deter em uma concepção naturalista, que se limite a tomar nota da diversidade sexual no sentido biológico, mas que a conceba também de um ponto de vista antropológico-relacional, para o qual o homem e a mulher são um 'tu' imprescindível um para o outro." (R II 15). E acrescenta-se, significativamente: "A teologia e o magistério são, portanto, chamados a colocar-se em jogo interagindo com a história concreta das pessoas" (R II 18).

Na segunda questão fundamental (dedicada à potestas), a tradução deste compromisso teológico e magisterial parece, porém, autoconfinar-se no território das diversas acepções de "potestas". Do ponto de vista sistemático, parece-me uma autolimitação bastante grave. Todos os números seguintes, de fato (R II 19-29), reconstroem as ampliações do "exercício de governo" causadas pelas intervenções generosas do Papa Francisco, tanto no plano teórico como no prático. Da potestade de governo as mulheres podem participar: isso é um fato. Mas por que apenas da potestade de governo? Os malabarismos começam no n. 21 e não cessam mais: fala-se apenas de participação na "potestade de governo" e deixa-se no não dito a resistência da "reserva masculina" sobre todo o campo do ministério ordenado. Assim, todo o texto, mesmo quando é aberto e sincero, permanece marcado por uma falta de parresia. Nunca se fala de corda neste discurso sobre o enforcado! Por isso, se o tema é a potestas, redimensiona-se a hierarquia. Se o tema é o ministério, abre-se espaço apenas para os ministérios instituídos, não para o ordenado.

Assim, a síntese de R II 28 é profundamente marcada por limites sistemáticos estruturais, incapazes de respirar fundo. Oferece-se uma síntese do magistério recente com um pequeno resumo que cria uma identidade do "ministro ordenado" apenas marcada pela administração da eucaristia (como era antes do Vaticano II) e um espaço de inclusão deixado apenas para a potestade primacial do Romano Pontífice. Em suma, uma síntese que junta o Cura d’Ars e o Concílio Vaticano I. Do ponto de vista sistemático, nem sequer se entra no século XX.

Na parte dedicada ao ministério (R II 30-32), examina-se a extensão do acesso aos ministérios instituídos como um dado objetivo. Mas é claro que, do ponto de vista da potestas, não é um grande resultado. Pelo contrário, para consolação, valoriza-se o relato da Comissão sobre o Diaconato feminino na única proposição em que se alcançou um consenso considerável: infelizmente trata-se de uma proposição inútil, porque repete simplesmente o que já aconteceu e que já está adquirido, muito antes da Carta do Card. Petrocchi, que resulta irrelevante. O tema dos carismas, que encerra a II parte, move-se com liberdade precisamente porque não toca em instituições. Fala-se de autoridade, mas o direito não está implicado (ou não se sente implicado) e assim pode-se respirar sem riscos.

2. A forma um pouco fugidia da resposta

Se estes são alguns traços da formulação da questão, muito mais decepcionante é a articulação sistemática da resposta, da qual temos apenas poucos vestígios dentro dos apêndices. Detenho-me apenas em dois aspectos, sem entrar nos articulados três primeiros apêndices de apresentações de figuras femininas antigas, modernas e contemporâneas.

O Apêndice IV aborda a vexata quaestio dos "Princípios mariano e petrino". Quem o lê com atenção pode distrair-se com o título, que fala de "olhar crítico". Por 33 números, faz-se a apologética dos princípios, em Von Balthasar e nos papas que os utilizaram para o seu magistério. Em 9 números, oferece-se uma síntese das críticas, expostas de modo bastante cauteloso, mas logo a seguir devolve-se a palavra à apologética dos princípios e, contas feitas, abençoam-se os dois princípios como uma contribuição importante para "tutelar o papel da mulher na Igreja". Aqui, no entanto, esquece-se que Balthasar construiu com paixão uma leitura muito unilateral da tradição, que merece ser criticada porque resulta enganosa. Em vez disso, a apologética do teólogo não é capaz de sair do erro e, pelo contrário, considera que deve repeti-lo, sem pressa de sair dele. Isso, no plano da parresia sistemática, parece-me um aspecto muito grave do Relatório, que contradiz a tarefa da escuta.

3. Algumas perspectivas enganosas

O Apêndice sobre a "potestade eclesial" parece-me exemplar de uma perspectiva que chamo de "enganosa", porque não entra realmente nas questões, mas deixa na sombra ou no silêncio aspectos decisivos da "condição feminina". Os 29 números do App V são emblemáticos de uma ausência sistemática que aflige os discursos jurídicos de modo alarmante. Os primeiros números formulam a reflexão sobre poder, autoridade e serviço e reconstrói-se neles em linhas gerais a história da diferenciação da única potestas na potestade de ordem e na potestade de jurisdição. Cita-se, em R V 11, a tentativa do Concílio Vaticano II de reunificar a potestas, mas depois, para confirmar a forte distinção, cita-se inclusive a Nota Previa, sem levar em conta que, dali a poucos anos, mudaria no plano sistemático a relação entre Episcopado e Presbiterado. Quer-se apenas confirmar um "duplo nível" de potestas, mas faz-se isso instrumentalmente, para garantir uma margem de manobra em relação às mulheres.

O teorema (que nunca é formulado, mas que sustenta toda a frágil formulação sistemática do texto) é este: se o poder na Igreja tem também a forma de "regimen" (governo) e não apenas de "ordem", as mulheres não precisam de ser ordenadas para que lhes seja atribuída uma autoridade. As duas linhas de interpretação da "potestade" (mencionadas em R V 15-20) parecem cobrir todo o campo da questão. Do ponto de vista sistemático, há porém um problema muito grave, do qual o documento não faz nenhuma menção, a não ser de modo totalmente extrínseco. Trata-se do modelo de releitura do ministério eclesial, que o pensa segundo os "tria munera". Se se formula a questão de modo medieval e moderno, não se sai dela. Se, pelo contrário, se pensa o ministério como participação nos tria munera (profético, régio e sacerdotal), então o quadro muda completamente (e a isso alude, de modo transversal, R V 13).

A entrada da mulher no espaço público exige que se pensem, também para a mulher, todos os três munera, e não apenas dois. Um subtexto, sistematicamente demasiado invasivo, pensa, sem argumentar, que a mulher pode ter apenas poder régio, alguns retalhos de poder profético, mas nenhum poder sacerdotal. Por isso, a leitura redutiva da exclusão do ministério ordenado é promovida, indiretamente, por esta contínua oscilação entre "ontologia batismal" e "ontologia sacerdotal". Aqui reside o defeito sistemático que leva a perspectivas "enganosas". Se a autoridade está ligada à ordenação, como diz o Vaticano II, isso significa que cada batizado, homem ou mulher, nas devidas condições, pode ser ordenado. Sem esta perspectiva, de paridade diferenciada, a "reserva masculina" continuará a minar as relações eclesiais. Mesmo que a exaltemos ao nível de "princípio".

Certamente, este Relatório não se compromete de forma alguma com uma "essencialização" do feminino. Este é um dado muito positivo e que deve ser assinalado e valorizado. No entanto, a forma melhor de resistência da reserva masculina, que Von Balthasar transfigurou habilmente numa teoria de "princípios" para tutelar a hierarquia dos sexos, deve ser reconhecida hoje como um grave erro de formulação sistemática. A apologia dos erros do passado não leva longe, em nenhum caso. E se a Igreja hierárquica, mesmo quando trabalha "a partir de baixo", se obstina em definir a teoria dos princípios mariano/petrino como preta, muitas mulheres, juntamente com não poucos homens, reconhecem há muito tempo que veem essa teoria como branca. Neste contexto, com todo o seu impacto, o gênio paradoxal de Inácio de Loyola não consegue mesmo levar a melhor. Aqui não se trata de fé, mas de reticências e de medos.

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