Pax Silica: quando o Império deixa de fingir. Artigo de Evgeny Morozov

Fonte: Unsplash

Mais Lidos

  • Guerra contra o Irã: o “início do fim do governo” de Trump

    LER MAIS
  • Regret Nothing: a fotografia de um masculinismo capturado. Artigo de Jacqueline Muniz

    LER MAIS
  • Ao transformar a Palestina em um experimento de aniquilação sem consequências, EUA e Israel desenham o futuro da realidade: um mundo onde a força bruta substitui as leis e a sobrevivência humana está sob risco absoluto, salienta o jornalista

    Gaza: o laboratório da barbárie do Ocidente em queda aponta para o futuro da humanidade. Entrevista especial com Raúl Zibechi

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Fevereiro 2026

“Os impérios anteriores perduraram porque mantiveram a ficção do benefício mútuo. O atual está cada vez mais impaciente com a ficção. Essa impaciência pode resultar em sua fraqueza. Quando a dominação não se disfarça mais de comércio, o consentimento se torna mais difícil de fabricar”, escreve Evgeny Morozov, escritor e pesquisador bielorrusso, que estuda as implicações políticas e sociais da tecnologia, em artigo publicado por ALAI, 10-02-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Na Starbase da SpaceX, no sul do Texas, Pete Hegseth apresentou uma atualização doutrinal na linguagem própria de lançamento de um produto: o Pentágono incorporaria a IA de ponta em suas operações diárias, e o Grok, de Elon Musk, seria integrado às redes militares, incluindo as classificadas. O local do evento era a mensagem. O fato de um secretário de gabinete anunciar uma infraestrutura estratégica na base de lançamento de um bilionário não é um acidente de comunicação, mas a forma administrativa da fusão.

Durante anos, a hegemonia tecnológica estadunidense se baseou em uma ficção polida dos mercados. As empresas privadas “casualmente” dominavam chips, nuvens e plataformas; aliados “casualmente” se homogeneizavam em torno das arquiteturas tecnológicas estadunidenses (stacks); Washington se limitava a arbitrar. Essa ficção está sendo abandonada publicamente. O que distingue o presente não é o domínio, mas a audácia: a informática é tratada agora como um instrumento da política estatal, e o Estado deixou de fingir ser um mero espectador dos triunfos do Vale do Silício.

A questão já estava visível um ano antes, em um registro menos teatral. No dia 13 de janeiro de 2025, o Departamento de Comércio apresentou uma Marco Global de Difusão da IA: um regime de três níveis para racionar os chips avançados e os ecossistemas que os cercam. Os aliados próximos enfrentariam o mínimo de atrito; a maioria dos países se veriam limitados e empurrados a programas de concessão de licenças e autorização de data centers; os adversários seriam excluídos. A ambição era clara: designar quem poderia respirar dentro da sala de servidores.

Então, a narrativa cambaleou. No final de janeiro de 2025, o aplicativo chinês DeepSeek disparou nas listas da App Store da Apple e desencadeou o pânico no mercado. A Nvidia despencou cerca de 17% em uma única sessão, o que significou uma perda de valor de mercado de aproximadamente 593 bilhões de dólares. Uma perda recorde em um único dia, após os investidores se depararem com uma possibilidade herética: a de que ganhos de eficiência e atalhos algorítmicos pudessem acabar com a ideia estadunidense de que a superioridade equivale a uma escalabilidade cada vez mais cara. Até mesmo Sam Altman classificou o modelo R1 da DeepSeek como “impressionante”, ao mesmo tempo em que afirmava que o treinamento do modelo anterior V3 da DeepSeek exigia menos de 6 milhões de dólares em computação.

A resposta de Washington não foi abandonar o controle, mas mudar de tática. Em maio de 2025, o Departamento de Comércio revogou a norma de difusão dias antes da entrada em vigor dos principais requisitos de cumprimento. Não era tanto uma retirada da hierarquia, mas uma admissão de que a elaboração de normas é lenta demais para um ecossistema baseado em escassez, licenças e negociação diplomática. Quando a regulamentação não consegue acompanhar o ritmo, a lógica dos cartéis preenche o vazio: isenções, listas, acordos e blocos de cadeia de suprimentos.

Esse bloco agora tem um nome: Pax Silica é a tentativa do governo Trump de transformar as cadeias de suprimentos de IA e semicondutores em uma arquitetura de aliança, reunindo países situados em pontos críticos. Catar e Emirados Árabes Unidos se incorporaram em janeiro de 2026, juntamente com Israel, Japão, Coreia do Sul, Singapura, Reino Unido e Austrália. Na linguagem do Departamento de Estado, trata-se de uma declaração de segurança econômica – a paz por meio do silício –, em que a “paz” é definida como o acesso ordenado a chips, minerais, energia, logística e infraestrutura em “nuvem”, em termos estadunidenses.

A diplomacia digital não é nova, apenas a sua franqueza. Os Estados Unidos governam há muito tempo por meio de intermediários: bancos e alfândegas, na era da diplomacia do dólar, companhias petrolíferas e mercados do Tesouro, na era da reciclagem do petrodólar. O intermediário atual são os elementos necessários para a IA. Os controles de exportação e a jurisdição da nuvem fazem o que antes era feito pelos canhoneiros e os comissários da dívida, mas com menos manchetes. A camada de compras diminui à medida que o sistema amadurece. São necessários menos intermediários locais quando o cumprimento se alcança por meio de licenças, telemetria e acesso ao único hardware que importa.

A fusão entre o Estado e o capital é mais fácil de enxergar em Washington, onde exportar dependência, em vez de produtos, tornou-se um objetivo político. Em julho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva intitulada “Promoção da exportação de tecnologia estadunidense de inteligência artificial”, ordenando ao Departamento de Comércio criar um programa de exportação de IA estadunidense organizado em torno de pacotes “full-stack”: hardware, serviços em nuvem, canais de dados, modelos e aplicativos. Não se trata simplesmente de cota de mercado, mas de um bloqueio, de forma que transforma as decisões de aquisição em alinhamento geopolítico.

De vez em quando, o que se cala se diz em voz alta. Em julho de 2025, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, descreveu na televisão a lógica das vendas controladas para a China: vender chips suficientes para tornar os desenvolvedores “viciados em tecnologia estadunidense”. A expressão foi grosseira, mas a doutrina é sofisticada. A dependência não é um efeito secundário lamentável. É o produto.

A espinha dorsal física dessa ordem está sendo construída em uma escala que faz com que os antigos debates sobre a “política de inovação” pareçam pitorescos. O Projeto Stargate, anunciado como um investimento de 500 bilhões de dólares em infraestrutura de IA, já se expandiu com planos para diversos locais nos Estados Unidos, com parceiros como Oracle e SoftBank. A Reuters noticiou, em setembro de 2025, a respeito de novos data centers sob o guarda-chuva do Stargate, que seguem classificados como uma iniciativa privada, mas que foram colocados em marcha com o consentimento presidencial. A OpenAI afirma que a construção representa quase 7 gigawatts de capacidade prevista e mais de 400 bilhões de dólares de investimentos, em três anos.

Até mesmo os impérios precisam negociar com a física. Em janeiro de 2026, a Casa Branca instou a PJM, a maior operadora de redes elétricas dos Estados Unidos, a realizar um leilão emergencial de aquisição, pois a demanda dos data centers está diminuindo o fornecimento e aumentando o temor de apagões. As propostas da rede elétrica para que as novas grandes cargas gerem sua própria energia ou aceitem restrições parecem uma nota de rodapé para a ambição imperial: a diplomacia digital depende dos elétrons, e os elétrons não obedecem a comunicados de imprensa.

O efeito colateral geopolítico é um novo torneio de submissão, no qual os estados competem não pela independência, mas pela proximidade. O Japão é um exemplo ilustrativo. A Reuters noticiou que a SoftBank vendeu toda a sua participação na Nvidia, avaliada em 5,8 bilhões de dólares, para financiar suas apostas em inteligência artificial, entre as quais estão incluídas OpenAI e Stargate. Son, fundador da SoftBank, também apresentou o Projeto Crystal Land, avaliado em 1 trilhão de dólares, uma “Shenzhen americana” no Arizona, como uma fantasia de relocalização financiada por capital japonês. A lógica é conhecida: em um mundo monopolista, a diversificação parece um suicídio, então, o racional é se tornar o agente credenciado do monopólio.

A Europa está no mesmo jogo, com uma retórica melhor e resultados piores: fala-se muito do poder regulador, mas depois se negocia discretamente em nome da competitividade. O Golfo joga com dinheiro e energia, com a esperança de traduzir a riqueza soberana em um acesso privilegiado no perímetro da Pax Silica. A América Latina, ao contrário, está se posicionando menos como coautora do acúmulo de ferramentas de IA, do que como anfitriã de suas camadas mais materiais e menos glamorosas: terra, energia e permissões.

A Argentina oferece um exemplo claro. Em outubro de 2025, a Reuters informou que a OpenAI e a Sur Energy assinaram uma carta de intenções para explorar um projeto de data centers de 25 bilhões de dólares, com capacidade de até 500 megawatts, chamado “Stargate Argentina”, estruturado em torno de incentivos ao investimento. A própria conta da OpenAI apresentou o projeto como uma oportunidade nacional, com a Sur Energy liderando um consórcio e um parceiro na nuvem que lhe acompanharia. Este é o acordo de desenvolvimento contemporâneo: a modernização é oferecida como um subcontrato de infraestrutura, ao passo que o controle estratégico (modelos, nuvens, jurisdição, normas) permanece em outro lugar.

O Brasil está se promovendo seguindo linhas semelhantes, por razões que não têm nada a ver com o “talento” e sim com o poder. A Reuters informou que a Equinix classificou o Brasil como um mercado prioritário em meio à demanda impulsionada pela IA, citando a abundância de energias renováveis e as isenções fiscais propostas para os equipamentos de data centers. A economia política é simples. Um data center de hiperescala não é uma fábrica no sentido tradicional de desenvolvimento; é mais parecido a um nó de serviços públicos gerido de forma privada, integrado a ecossistemas de nuvem estrangeiros e cada vez mais tratado como uma infraestrutura estratégica. Uma vez que os estados canalizam a administração pública e os serviços privados por meio desses nós, as posições de negociação mudam. O que se vende como investimento pode silenciosamente se tornar dependência administrativa.

É aí que os movimentos sociais entram em cena, sem a necessidade de um roteiro romântico. Os conflitos centrais serão travados em torno dos preços da energia, do uso da água, dos direitos sobre a terra, das condições de trabalho e da situação jurídica dos dados armazenados em instalações localizadas no país, mas gerenciadas por provedores estrangeiros. A questão não é se a “IA” é boa ou ruim, mas se é possível obrigar a nova infraestrutura a prestar conta democraticamente ou se funcionará como os ciclos extrativistas anteriores: recursos públicos mobilizados para financiar rendas privadas, com a soberania redefinida como o direito a hospedar as máquinas de outros.

O papel da China nessa história não é o de um exemplo moral, mas o de um contraste estratégico. O lançamento do DeepSeek foi importante porque sugeriu que os controles à exportação podem deter os rivais e, ao mesmo tempo, fomentar o tipo de determinação política que torna a ineficiência tolerável. A maioria dos governos trata a dependência como algo natural e se concentra em gerenciá-la. Pequim a trata como uma vulnerabilidade e, quando necessário, age em consequência. Essa postura é difícil de replicar em outros lugares, mas esclarece a verdadeira escolha que a Pax Silica tenta ocultar: o custo da rejeição é doloroso; o custo do cumprimento é estrutural.

A Pax Silica é, em definitivo, uma declaração incomumente honesta. Admite que a nova paz é uma paz gerenciada: a paz por meio do silício, mantida por aqueles que controlam o fornecimento. Os impérios anteriores perduraram porque mantiveram a ficção do benefício mútuo. O atual está cada vez mais impaciente com a ficção. Essa impaciência pode resultar em sua fraqueza. Quando a dominação não se disfarça mais de comércio, o consentimento se torna mais difícil de fabricar, e as fricções das redes, orçamentos e política começam a parecer menos como ruído de fundo e mais como terreno em que a paz do silício será disputada.

Leia mais