Não movam aquele quadro da janela. Artigo de Tomaso Montanari

Foto: RS/Fotos Públicas

Mais Lidos

  • "A adesão ao conservadorismo político é coerente com uma cosmologia inteira que o projeto progressista rechaça". Entrevista especial com Helena Vieira

    LER MAIS
  • Quando uma estudante de teologia desafiou o cardeal

    LER MAIS
  • Neste ano, o El Niño deve ser terrível. Artigo de Vivaldo José Breternitz

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

09 Setembro 2025

"A condição humana impede separar nitidamente o dentro e o fora: o mundo (a sua imagem, a sua leitura) está dentro de nós. A nossa paisagem interior (a nossa alma) continua aquela externa, numa conexão tão profunda que nenhum desligamento pode de fato arrancá-la, a não ser arrancando a própria natureza humana", escreve o historiador da arte Tomaso Montanari, professor da Universidade Federico II de Nápoles, em artigo publicado por Il Venerdì, 05-09-2025.

Eis o artigo.

“E como podíamos nós cantar
Com o pé estrangeiro sobre o coração,
entre os mortos abandonados nas praças 
sobre a grama dura de gelo, ao lamento 
de cordeiro das crianças, ao grito negro 
da mãe que ia ao encontro do filho 
crucificado no poste do telégrafo? 
Nos ramos dos salgueiros, por voto, 
também as nossas cítaras estavam penduradas, 
balançavam leves ao triste vento”.

Esses versos, célebres, de Salvatore Quasimodo explicam talvez por que seja tão difícil, tendencialmente impossível, fazer arte, ou escrever sobre arte, quando se é atropelado por eventos de sangue das dimensões de uma guerra civil, ou de um genocídio. Hoje para nós, o genocídio do povo palestino em Gaza, perpetrado com armas vendidas por nós, com o apoio do nosso governo:

"trabalho sujo feito por nós", diz o chanceler alemão. Um genocídio feito também por nós: um evento desconcertante também no plano dos princípios e dos valores, capaz de marcar o nosso mundo moral por toda uma vida. Por isso, a Hora da arte não consegue falar de outra coisa. Afinal, a arte fala da condição humana.

Pintura "Condição humana" de René Magritte

É exatamente esse o título de um quadro que René Magritte pintou em duas versões, uma de 1933 e uma de dois anos depois: enquanto o nazismo subia ao poder na Alemanha. Um quadro de paisagem pousa sobre um cavalete diante de uma janela: e pintura e realidade (mundo interior e mundo exterior) parecem em perfeita continuação. Mas obviamente, também a “realidade” é pura pintura, numa corrida vertiginosa entre o mundo e a sua imagem dentro de nós. "É assim que vemos o mundo", explicou próprio Magritte: "o vemos como se estivesse fora de nós, ainda que seja apenas de uma representação mental dele que fazemos experiência dentro de nós".

A condição humana impede separar nitidamente o dentro e o fora: o mundo (a sua imagem, a sua leitura) está dentro de nós. A nossa paisagem interior (a nossa alma) continua aquela externa, numa conexão tão profunda que nenhum desligamento pode de fato arrancá-la, a não ser arrancando a própria natureza humana. Quando dizemos “continuemos humanos” queremos dizer isso: não mover aquele quadro da janela, continuar a representar o mundo, a sentir o seu peso. Recordando que ao pintar quadros de paisagem, no fim mudamos a paisagem, em grande medida uma criação humana: é escrevendo sobre o mundo, cuidando do mundo, assumindo a responsabilidade pelo mundo, que o mundo pode mudar. Se não quisermos pendurar as cítaras nos salgueiros, devemos usá-las para isso. Ou não seremos perdoados.

Leia mais