04 Abril 2024
"Recebemos os ramos da consolação pelo enésimo ano consecutivo. Um ramo empoeirado de promessas não mantidas, de paraísos humanitários nunca realizados e de golpes de estado militares em intervalos regulares, que cumprem a profecia de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Para que nada mude, tudo deve mudar, e eis que a profecia se torna realidade. Agora sopra o vento da soberania nacional, real e não substituído por décadas de dissimulado neocolonialismo, disfarçado de ajudas. As esperanças autênticas encontram-se onde é difícil imaginá-las, na fraqueza e na fragilidade dos últimos", escreve Mauro Armanino, missionário, doutor em antropologia cultural e etnologia, em artigo publicado por Avvenire, 26-03-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Os nossos ramos são feitos de poeira como o governo de transição do Níger, que decretou três dias de luto nacional pelos seus soldados caídos em confrontos recentes. Foram vinte e três militares mortos e dezessete feridos na última quarta-feira na zona das três fronteiras, Mali, Níger e Burkina Faso.
De acordo com o balanço oficial do Ministro da Defesa, também várias dezenas de “terroristas” perderam a vida. É por isso que foi um Domingo de Ramos empoeirado e sangrento aquele de Niamey.
O mesmo que aconteceu com o bispo Oscar Romero, no mesmo dia, de muitos anos atrás. Era o 24 de março de 1980 e os ramos do bispo mártir de El Salvador ficaram tingidos com a cor litúrgica da festa que abre a Semana Santa. Também no ano passado, segundo a agência vaticana Fides, a maioria dos missionários mártires está no continente africano. Trata-se de um “privilégio” que confirma, com autoridade, como o testemunho do Evangelho é hoje o pão quotidiano de inúmeros cristãos. Os ramos do martírio encontraram uma mão africana.
Os nossos ramos são feitos de poeira como a vida dos pobres que louvam o Messias, libertador de toda a opressão e de todo o engano. Empoeirados como as esperanças perdidas e reencontradas lá onde ninguém as esperava. O nosso país, o Níger, ainda se encontra nos últimos lugares da classificação contida no relatório posteriormente divulgado e publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Recebemos os ramos da consolação pelo enésimo ano consecutivo. Um ramo empoeirado de promessas não mantidas, de paraísos humanitários nunca realizados e de golpes de estado militares em intervalos regulares, que cumprem a profecia de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Para que nada mude, tudo deve mudar, e eis que a profecia se torna realidade. Agora sopra o vento da soberania nacional, real e não substituído por décadas de dissimulado neocolonialismo, disfarçado de ajudas. As esperanças autênticas encontram-se onde é difícil imaginá-las, na fraqueza e na fragilidade dos últimos.
Os nossos ramos são feitos de poeira como o silêncio daqueles que, depois de ter acreditado num mundo novo, têm a tolice de continuar a esperar por um amanhã diferente. Os ramos dominicais em Niamey são levados em pleno mês do Ramadã. Nele, os crentes muçulmanos praticam o jejum do estômago, do mal, e se empenham para compartilhar seus bens com os pobres.
São ramos que passam por nós sem se mostrar, um de poeira e outro de sangue, devido ao luto nacional pelos militares mortos pela loucura de morte que se espalhou pelo Sahel. As lágrimas das famílias que perderam os seus filhos numa guerra nunca declarada e a leitura de paixão que conta o assassinato de um inocente entre os Ramos da Cruz. Aqui entre nós os ramos são de poeira e não poderiam ser de outra forma por solidariedade com o lugar e o tempo. São as crianças que, durante a oração, entrelaçaram por brincadeira os ramos na forma de cruz.
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