Existem católicos na política? Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Hansjörg Keller | Unsplash

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19 Dezembro 2023

"Em extinção não são os políticos que se dizem católicos, mas aqueles católicos que eram identificados como fiéis ao magistério do Concílio e hoje ao Papa Francisco. Sim, muitos são chamados de católicos porque comparecem à missa, mostram-se obsequiosos para com a religião, mas desconfiam do Papa Francisco e da doutrina católica no que diz respeito à hospitalidade dos estrangeiros, uma política de justiça e igualdade social, o cuidado da mãe terra, a liberdade de consciência", escreve Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, membro da comunidade Casa Madia, em artigo publicado por La Repubblica, 18-12-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Paul Valadier, ex-diretor da revista dos jesuítas franceses Études, gostava de repetir que a condição do cristão – a ser entendido como aquele que tenta viver inspirado no Evangelho - é uma condição anômala e que muitas vezes se torna paradoxal. Na verdade, não é fácil para um cristão empenhar-se e ser responsável pela construção da pólis, em aliança com outros homens e mulheres não-cristãos, e ao mesmo tempo, estar sujeitos a um primado da fé num único Senhor, numa pertença a uma igreja. Por essa razão, toda a história dos católicos na política resulta atormentada, fazendo emergir sempre a pergunta: “Onde estão os católicos em termos de posição política?”.

Nos últimos dias, sem suscitar qualquer debate nos jornais ou no mundo político, deste jornal Concetto Vecchio denunciava a diáspora e o desaparecimento dos católicos da política italiana. Onde estão? Nestes anos vimos diversas iniciativas e participamos de conferências que propuseram a reanimação de grupos políticos de cristãos, mas esses imediatamente evaporaram: por outro lado, mereceram o juízo de tentativas nostálgicas, não generativas, especialmente quando a iniciativa era tomada ou incentivada por alguém bispo.

A situação atual é a do desaparecimento dos mestres, da saída de cena da geração dos octogenários que incluíam figuras de referência, e da imposição de uma ausência e de uma afonia de políticos portadores de instâncias cristãs. Nos países da Europa ocidental há políticos crentes com uma identidade religiosa vivida, mas que preferem escondê-la e silenciá-la na arena política, sem nunca tentar dar-lhe uma forma de partido. A raiz dessa situação deve ser identificada no final do século passado, quando uma ideologia radical, como a chamava o luciferino Baget Bozzo, se apossava do legado comunista no período pós-Berlinguer e quando os católicos democráticos eram desmerecidos por sua pretensão de serem adultos e eram substituídos na arena política pelos bispos italianos sob a presidência do Cardeal Ruini. Alguns esvaziaram-se da “paixão ideológica”, outros relegaram-se ao silêncio. E por isso devemos reconhecer: nunca como hoje, de fato, os católicos estão presentes na política italiana, eles estão no governo do país e falam como católicos em voz alta e retumbante! Essa maioria política reivindica a inspiração cristão-católica e os valores alardeados são aqueles caros à tradição católica: Deus, pátria, família.

Em extinção não são os políticos que se dizem católicos, mas aqueles católicos que eram identificados como fiéis ao magistério do Concílio e hoje ao Papa Francisco.

Sim, muitos são chamados de católicos porque comparecem à missa, mostram-se obsequiosos para com a religião, mas desconfiam do Papa Francisco e da doutrina católica no que diz respeito à hospitalidade dos estrangeiros, uma política de justiça e igualdade social, o cuidado da mãe terra, a liberdade de consciência.

Mas, afinal, os católicos ainda estão presentes na política italiana?

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