O artista pertence à humanidade. Artigo de Tomaso Montanari

Monumento eqüestre a Ferdinando I, Florença (Foto: Wikimedia commons)

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06 Junho 2023

Giambologna não pertence a uma nação, mas sim a toda a humanidade que procura respostas: que tenta, fatigantemente, tornar-se verdadeiramente humana.

O comentário é do historiador da arte italiano Tomaso Montanari, professor da Universidade Federico II de Nápoles. O artigo foi publicado pelo caderno Il Venerdì, do jornal La Repubblica, 02-06-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

A etnia, a raça, a nação, a linhagem... fantasmas ressuscitados hoje por uma direita xenófoba. Então, tentemos nos perguntar: a quem pertence Giambologna?

Jean de Boulogne nasceu em 1529 em Douai: à época nos Flandres e hoje na França. Em 1550, foi para a Itália e nunca foi embora de Florença. Flamengo, francês, florentino, italiano?

Em 1583, foi inaugurado o seu grupo mais famoso talvez: um mármore de mais de quatro metros de altura, com três figuras entrelaçadas, considerado tão importante a ponto de ser colocado no lugar da gloriosa “Judite”, de Donatello, debaixo da Loggia dei Lanzi, na Piazza della Signoria, em Florença.

Giambologna, “Rapto da Sabina”, mármore, 1582, Loggia dei Lanzi Piazza della Signoria, Florença (Foto: Wikimedia)

Surgem perguntas em torno dessa obra símbolo do maneirismo. Giambologna queria mesmo esculpi-la sem encomenda e até mesmo sem um tema específico, para mostrar sua arte e deixar algo que fizesse frente a Michelangelo na praça da escultura por excelência?

E foi realmente seu erudito amigo Raffaello Borghini quem inventou – a posteriori, como em uma obra conceitual dos nossos dias – o título de “Rapto da Sabina”?

E será que Francesco de’ Medici aceitou colocar na praça, ao lado de estátuas muito cheias de significado e de símbolos, uma obra sem outra mensagem senão a da grandeza e da liberdade da arte e dos artistas?

E nós hoje, de nossa parte, como reagimos quando nos encontramos diante dessa monumental celebração de um estupro, de um rapto que, na verdade, se assemelha a um roubo, porque degrada o corpo da mulher a mero objeto de uma disputa entre dois homens que resolvem sua controvérsia com a força e com a guerra, de acordo com um arquétipo tristemente ainda bem vivo e ativo?

Conseguimos separar a nossa admiração pela arte e pela liberdade de Giambologna e pela clarividência do grão-duque da Toscana da instintiva repulsa pelo tema?

E se – como é justo e necessário – historicizamos aquela invenção, conseguimos mesmo assim amar a obra também com a nossa emotividade, com aquele incondicional transporte que as verdadeiras obras de arte fazem sentir quem as admira?

E ainda: será realmente a mesma coisa se encontrar diante não do original, mas da cópia que, em pouco tempo, a substituirá na praça, para evitar que este clima envenenado a destrua?

Em suma, são realmente muitas as questões que o “Rapto da Sabina” faz a cada um de nós. E, diante de sua pressão, não estamos nos esquecendo, talvez, da primeira pergunta, incomparavelmente menos interessante e que é praticamente impossível de responder? Porque Giambologna não pertence a uma nação, mas sim a toda a humanidade que procura respostas: que tenta, fatigantemente, tornar-se verdadeiramente humana.

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