A bomba atômica e a Covid. Artigo de Raniero La Valle

Foto: Fider Boulman | Unsplash

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18 Mai 2023

"Esta guerra não é uma parte da "guerra mundial aos pedaços", mas já representa toda a guerra mundial. Resta a grande incógnita sobre o papel que as armas nucleares desempenhariam", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di tutti Chiesa dei poveri, 17-05-2023. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Ao final da missão, compreende-se melhor o sentido do passeio pelas Sete Igrejas que o presidente Zelensky fez, da Polônia a Roma, Vaticano, Berlim, Paris, Londres e Bruxelas. Seus objetivos eram três: a confirmação do apoio político de seus aliados e a garantia de que seria mantido mesmo que a contraofensiva anunciada durasse muito tempo; o pedido de mais armas, e sobretudo caças para a guerra aérea com a Rússia, porque uma guerra não pode ser vencida sem o domínio dos céus; puxar o Papa para seu lado, fazê-lo comprometer sua imparcialidade e seu papel de mediador, adicioná-lo também à cruzada ocidental contra a Rússia, dissuadi-lo de querer falar com Putin.

Dos três objetivos, o primeiro foi alcançado desde a Polônia, a nova pupila dos Estados Unidos na Europa, até a promessa de Ursula von der Leyen de novas sanções contra a Rússia, e com a extraordinária recepção recebida na Itália; o segundo foi apenas parcialmente alcançado porque foram negados mais caças, além dos já fornecidos por Varsóvia; o terceiro se resolveu num desastre.

A solidariedade da Itália chegou à identificação entre as duas lideranças, sua união na busca da vitória, e até a definição da Rússia como "o Inimigo", dada por Giorgia Meloni no discurso no Palazzo Chigi; qualificação de inimigo que equivale a estar em guerra contra alguém (Biden define Rússia e China não como "inimigos", mas "competidores estratégicos"), guerra que, porém, na Itália só pode ser deliberada pelas Câmaras e declarada pelo Presidente da República. Em troca, Zelensky preconizou que a Itália também terá que enviar seus filhos para combater nesta guerra quando a Rússia, se não for derrotada, invadirá os países bálticos, como dizia a "teoria do dominó" na época da guerra do Vietnã.

Por outro lado, fracassou completamente o terceiro objetivo que colocava em jogo a "missão" buscada pelo Papa. Zelensky apresentou-se a ele com sua lista de pedidos, que depois enunciou à noite nas declarações ao "Porta a porta", no qual expressou toda a sua decepção e dispensou o Papa dizendo que não precisava de um mediador. Na audiência, ele tropeçou numa grave gafe ao presentear ao Papa uma chapa à prova de balas e um ícone de Nossa Senhora sem a criança, substituída por uma rasura preta (para significar a "perda" das crianças na guerra), que seria como apresentar o Cristianismo sem Cristo e não fazer de Maria "a mãe de Jesus", como o Papa se apressou em chamá-la no "Angelus" de domingo.

De tudo isso, conclui-se que esta guerra não é uma parte da "guerra mundial aos pedaços", mas já representa toda a guerra mundial. Resta a grande incógnita sobre o papel que as armas nucleares desempenhariam. Questionado sobre a hipótese de a Rússia recorrer à arma atômica (conforme previsto em sua estratégia caso a própria existência do Estado fosse posta em risco), Zelensky respondeu que Putin tem medo de morrer, como demonstra quando recebe seus convidados sentado a uma mesa comprida para não pegar a Covid e, portanto, não usaria a bomba porque ele também morreria. Não parece a resposta de um estadista, quando na Guerra Fria para evitar um confronto nuclear e se livrar das bombas atômicas, até se recorreu à dissuasão e ao equilíbrio do terror, e se empenharam os maiores estadistas, de Kissinger a Gorbachev e Rajiv Gandhi.

Portanto, é preciso parar a guerra, porque hoje estamos em outras mãos.

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