Geopolítica da Copa do Mundo no Catar

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08 Novembro 2022

As monarquias árabes do Golfo – dos chamados petromonarcas – estão muito interessadas no esporte. A prova mais recente disso vem do golfe, no qual os sauditas estão investindo pesado para levar o torneio por eles promovido – o LIV Championship – ao primeiro lugar do mundo. A hospitalidade recebida, pela segunda vez, no complexo de propriedade de Donald Trump serviu de ajuda.

O comentário é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano, em artigo publicado por Settimana News, 04-11-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o exemplo mais importante vem do futebol e do Catar, tão rico quanto hostil, há anos, aos sauditas: base militar, na região, da marinha militar estadunidense, próximo do turco Erdogan e da Irmandade Muçulmana, com profícuas relações diplomáticas com Teerã.

O obséquio do futebol

Nestes dias, naturalmente, a Copa do Mundo do Catar é objeto de grande atenção dos apaixonados por futebol, porque representa uma novidade absoluta.

Os campeonatos nacionais e as grandes competições internacionais de clubes estão no seu momento mais quente: as primeiras eliminatórias da Liga dos Campeões terminaram e os campeonatos nacionais prosseguem em etapas forçadas – para os especialistas, forçadas até demais – precisamente para permitir a longa pausa do inverno europeu e a realização da Copa do Mundo do Catar.

Quem acompanha futebol sabe como é estranho suspender os torneios precisamente agora. Normalmente, isso ocorre em junho [no hemisfério Norte]. É verdade que, em junho, é inverno na América Latina, a outra enorme bacia de captação e de prática do futebol. Mas os dois grandes blocos continentais do futebol já estão estruturados assim há décadas. Agora, tudo passa a estar virado de cabeça para baixo.

O presidente da Fifa, Giovanni Infantino, não está interessado – segundo ele – nos calendários esportivos e nos lucros, mas sim no progresso social e em uma moderna legislação trabalhista no Catar e, portanto, também em outros países do Golfo.

Ele disse: “O Catar implementou verdadeiras mudanças para melhorar as condições dos trabalhadores migrantes, e a Copa do Mundo é uma oportunidade para o Catar e para todo o Golfo Pérsico se mostrarem de uma maneira diferente e se livrarem dos preconceitos que infelizmente existem ainda hoje. Essas mudanças ocorreram nos últimos anos, enquanto em outros países levaram décadas”.

A satisfação de Infantino provavelmente se deve ao fato de que, em 2020, ou seja, após oito anos de trabalho conjunto com a Fifa, o Catar aprovou a lei do salário mínimo e removeu alguns obstáculos à mudança de um emprego a outro na ausência da autorização do primeiro empregador, dado que o patrocínio ou kalafa está em vigor no emirado: é o empregador e não o Estado que garante o status jurídico e a residência do trabalhador estrangeiro. O sistema, portanto, permanece, mas foi temperado.

O Catar e os trabalhadores estrangeiros

Infantino, portanto, tem razão? De acordo com o jornal britânico The Guardian, tudo isso aconteceu depois que cinco países – Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka, ou apenas cinco de muitos outros – forneceram dados oficiais sobre as mortes de mais de 6.000 trabalhadores a partir do momento em que a Fifa concedeu ao Catar a Copa de 2022.

Talvez as palavras de Infantino devam ser lidas à luz do fato de que, das 6.000 mortes por acidentes de trabalho, 5.927 ocorreram até 2020, marcando, portanto, uma melhora ocorrida no último período.

No que se refere, por exemplo, ao Paquistão, os dados fornecidos pelo jornal britânico citam 824 mortos desde a atribuição dos jogos para 2020, ano em que teria ocorrido a virada virtuosa. No entanto, faltam totalmente os dados sobre os últimos dois anos. Além disso, o jornal não conseguiu escrever nada sobre as mortes de trabalhadores provenientes de muitos outros países – além dos cinco citados – cujas embaixadas não forneceram informações úteis.

Portanto, é difícil dizer se, para a Fifa, também é um progresso o fato de que – novidade das últimas semanas – muitos trabalhadores estrangeiros tenham sido forçados a deixar o Catar antes do início do campeonato, independentemente dos contratos existentes.

Ainda de acordo com o The Guardian, uma circular do governo teria sido emitida nesse sentido: apressar tudo para concluir e repatriar o maior número possível de imigrantes até setembro!

Muitos trabalhadores – contatados no Catar pelos correspondentes do jornal – esperam voltar para lá no ano que vem, assim que os jogos terminarem, longe dos olhos da imprensa e dos turistas-torcedores. Se não fosse assim, para muitos deles seria um desastre: pagaram grandes somas aos intermediários para conseguir emprego e, portanto, correm o risco de perdê-los, apesar de terem trabalhado. Outros alegam que ainda não receberam o pagamento combinado ou estão aguardando os salários atrasados.

A denúncia lança uma luz diferente e sinistra sobre a notícia divulgada em 29 de outubro passado sobre o despejo de centenas de trabalhadores estrangeiros de alguns prédios de Doha, a capital. De acordo com as autoridades do Catar, os imóveis não possuíam o requisito de habitabilidade, e por isso os trabalhadores teriam sido alojados em outros lugares. Enquanto isso, algumas fotos que circularam na internet mostravam núcleos familiares abandonados na rua. Estão prestes a serem expulsos? Serão expulsos nas próximas horas? As perguntas são plenamente justificadas, mas faltam confirmações.

Os interesses de Infantino

Portanto, é difícil dizer se e em que medida as condições dos trabalhadores melhoraram – especialmente de forma permanente – no Catar. As remoções forçadas com o pretexto da habitabilidade – evidentemente não verificada anteriormente – poderiam dizer que as mudanças absolutamente não são um fato estabelecido.

Se a situação está como Infantino diz, seria bom sonhar que o próximo Mundial poderia ocorrer no Irã ou no Afeganistão. Melhorar as condições de trabalho de milhões de operários em todo o mundo, sem esperar que milhares morram ainda, seria realmente um grande resultado trazido pelo esporte, principalmente pelo futebol.

Infelizmente, o interesse da Fifa – mais do que o mercado de trabalho – parece ir na direção dos interesses dos petromonarcas, apontando para o sentido da palavra “imagem”. De fato, associar o Catar ao campeonato de futebol muda a imagem desse país, extraordinariamente rico e pouco povoado, com menos de três milhões de habitantes e com um PIB per capita superior à média estadunidense de 60.000 dólares. Além do trabalho, as finanças também estão dizendo coisas importantes: certamente em associação com a imagem!

Os petromonarcas e o futebol europeu

Existe um time de futebol que todos acreditam ser sinônimo de vitória: esse time é o Manchester City. De quem ele é? Dos Emirados Árabes Unidos, o grande rival político do Catar na diplomacia do Golfo dos petromonarcas.

E, se procuramos uma equipe que signifique fenômenos futebolísticos – apesar de ainda não vencer como o esperado –, esse time é o Paris Saint Germain. De quem ele é? Do Catar. O contrato do século remonta a anos atrás, quando o PSG, já do Catar, comprou o craque brasileiro Neymar pela monstruosa quantia de 222 milhões de dólares. Mas esse não é mais um caso marcante e isolado, porque o fenômeno mundial do tempo presente se chama Mbappé e recebe um salário trienal de 630 milhões de euros do PSG-Catar.

Se o campeonato francês não cresceu de forma a dar o brilho esperado aos investimentos do Catar, o mesmo não pode ser dito do campeonato inglês, com os concorrentes Emirados que certamente colocaram suas mãos em uma galinha dos ovos de ouro, já que seu Manchester é o time com a renda mais alta do mundo (enquanto o PSG está apenas em sexto lugar).

Mas as duas pérolas do futebol árabe – na corrida exterior rumo à modernização – não estão sozinhas. A própria Arábia Saudita parece estar a um passo do mundo do futebol europeu: já se falou da compra de outro time inglês, o New Castle. A ideia de uma camiseta, para dar apenas um exemplo, com a foto de um craque como Ronaldo ao lado de Muhammad bin Salman, ambos sorridentes, ajudaria muito o reino dos Saud a refazer sua imagem, talvez muito mais do que muitas conferências sobre supostos renascimentos sauditas.

O futebol como imagem geopolítica

O pioneiro no setor, em altos níveis, foi outro aparato em busca de uma imagem: o russo! Nesse caso, não foi um fundo soberano que investiu, como os árabes, mas sim um magnata amigo – Abramovich – do líder supremo Putin, comprando o Chelsea.

Se as coisas não tivessem ocorridos como todos sabemos para Abramovich – isto é, se ele não tivesse sido forçado a vender o Chelsea rapidamente por causa das sanções à Rússia –, agora talvez veríamos um belo “Z” estampado na camiseta do time! Um exagero? Sim, mas até certo ponto. O poder da imagem é muito forte! E é algo – aliás – inventado no Ocidente.

Basta um olhar superficial ao campeonato italiano para perceber que os chineses também entraram nesse enorme jogo do mercado e da imagem. Em Milão, houve a tentativa – até agora mal sucedida – de outra petromonarquia – o Bahrein – se instalar à sombra da Madonnina, com a compra, por mais de um bilhão de dólares, do Milan.

Os magnatas chineses observam e continuam liderando a corrida da Lombardia. Obviamente, não existem apenas árabes e chineses: a Roma foi comprada por estadunidenses. O peso dos fundos soberanos e dos magnatas de economias pouco transparentes, no entanto, impressiona.

Portanto, a imagem não é um fim em si mesma. O que interessa é a colocação no Ocidente de capitais ingentes e muitas vezes não controlados em sua constituição, bem como a participação em um negócio gigantesco como o dos direitos de televisão.

Os Estados árabes e a economia de renda

Não se vislumbra, talvez, nas somas faraônicas que os emires investem nos clubes que mencionamos, um auxílio estatal a clubes privados? Uma ajuda voltada a quê? Por que um governo lida diretamente com a contratação de um jogador de futebol? Não parece ser essa a base do fair play financeiro de que tanto se fala, quando futebol e finanças se encontram.

É importante saber aquilo que é explicado por um estudo recentemente publicado pelo Carnegie Institute: quando foi comprado pelos Emirados Árabes Unidos, o Manchester City acabou nas mãos do Abu Dhabi United Group, que não é um grupo privado normal, mas é propriedade do vice-primeiro-ministro do reino, xeique Mansour bin Zayed al-Nahyan.

Estávamos em 2008, e assim o principal rival dos Emirados, o Catar, se pôs em ação e, em 2011, colocou em campo a Qatar Sports Investments, uma subsidiária da Qatar Investment Authority: portanto, o Paris Saint Germain é realmente propriedade do governo do Catar.

Obviamente, é pleno direito dos emires investir seu dinheiro como bem entenderem. O fato é que a ideia deles de uma economia nacional continua sendo a da renda: o dinheiro do petróleo é investido principalmente no Ocidente, sem que os concidadãos dos emires tirem qualquer vantagem disso.

Essa foi a escolha dos Saud desde o início de seu pacto com os Estados Unidos: exploração do subsolo pátrio e investimento dos proventos no exterior. Antes, tratava-se de hotéis, restaurantes e marcas do mundo do luxo. Agora, estão na mira os grandes clubes de futebol, um dos frutos mais cobiçados na sociedade da imagem.

O desenvolvimento de um mundo atrasado – o do pobre povo árabe – não existe na visão de mundo deles. Os investimentos para o campeonato mundial e as instalações esportivas futuristas produzirão a imagem desejada: e depois? De que servirão para a economia do Catar? Essa pergunta não encontra resposta nos documentos de análise e de estudo desse evento epocal e mastodôntico.

A projeção que a indústria do entretenimento desenvolve na região para além das fronteiras do ódio e dos conflitos estruturais não é tão difundida a ponto de legitimar a esperança de que a era dos tranquilos “jogos sem fronteiras” do Golfo está prestes a começar.

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