Arte e silêncio para experimentar a dimensão espiritual da vida

IHU encerra Ciclo de Estudos: O cristianismo no contexto das transformações socioculturais e religiosas contemporâneas com palestra sobre "Espiritualidade cristã em perspectiva pós-teísta" nesta quarta-feira, 10-08-2022

Foto: Daniburgos | Cathopic

Por: Patricia Fachin | 08 Agosto 2022


A relação entre arte e transcendência é inquestionável para todos aqueles que têm apreço pela produção artística e buscam, de algum modo, transcender a si mesmos e contemplar o que está diante e além dos nossos olhos. A arte é expressão da cultura humana, seja através do desenvolvimento do próprio ser humano na criação e aperfeiçoamento de técnicas, seja no desejo de comunicar artisticamente a beleza que se vê e se sente, seja como forma de protestar e manifestar indignação com os aspectos menos belos do mundo, como as injustiças, a destruição e o mal. Mas a arte, ao longo dos séculos, também tem desenvolvido um papel fundamental na formação espiritual e esse é um dos seus legados, que pode ser visto em qualquer museu, igreja ou templo que o ser humano construiu para manifestar sua relação com Deus.

 

Para Paolo Scquizzato, padre diocesano na Diocese de Pinerolo, na província da capital do Piemonte, na Itália, a arte ocupa um papel primordial na formação espiritual. Responsável pelo Escritório de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso e pela formação espiritual em sua diocese, ele acompanha as pessoas no aprofundamento da Palavra e na redescoberta e cuidado do silêncio, liderando grupos de meditação silenciosa e atuando como guia bíblico na Terra Santa, na Palestina. Em seu blog pessoal, além de escrever sobre o Evangelho dominical, Scquizzato reflete sobre filmes, livros, músicas e sobre "esta nossa Igreja amada e sofrida", na "esperança" de poder ajudar os leitores "a respirar um pouco mais fundo, daquele ar que pede apenas para poder atravessar a janela que o Evangelho de Jesus finalmente veio abrir".

 

Paolo Scquizzato (Foto: Gabrielli Editori)

 

Entre suas preferências artísticas, ele destaca: "Adoro música de Bach a Keith Jarrett, passando por Guccini; especialmente a arte do século XX; o teatro do absurdo; aquele cinema que - infelizmente - poucos amigos estão dispostos a ver com você, e eu frequento muitos dos melhores amigos do homem, ou seja, livros, que falam quando você quer que falem e silenciam quando você quer".

 

 

Dio E' Morto | Deus está morto, Francesco Guccini (Tradução)

 

Eu vi
a gente da minha geração ir embora
pelas estradas que não levam a lugar nenhum
buscar o sonho que conduz à loucura
na procura de alguma coisa que não encontram
no mundo que já possuem
dentro das noites que por vinho são banhadas
dentro das estrofes por remédios transformadas
ao longo das nuvens de fumaça do mundo feito de cidades
ser contra engolir a nossa exausta civilização
e um Deus que está morto
nas margens das estradas Deus está morto
nos carros financiados Deus está morto
nos mitos de verão Deus está morto

 

Me disseram
que esta minha geração já não crê
naquilo que frequentemente têm mascarado com a fé
nos mitos eternos da pátria ou dos heróis
porque agora chegou o momento de negar
tudo o que é falsidade
as lealdades feitas de hábito e medo
uma política que é apenas carreira
o conformismo interessado, a dignidade feita de vazio
a hipocrisia de quem está sempre com a razão e não com a culpa
e um Deus que está morto
nos campos de extermínio Deus está morto
com os mitos do racismo Deus está morto
com os ressentimentos das escolhas Deus está morto

 

Mas creio
que esta minha geração está preparada
para um mundo novo e para uma esperança recém-nascida
para um futuro que já tem em mãos
para uma revolta sem armas
porque todos nós já sabemos
que se Deus morre é por três dias e depois renasce
naquilo em que acreditamos Deus renasceu
naquilo em que queremos Deus renasceu
no mundo que faremos Deus renasceu

 

Johann Sebastian Bach - A hospitalidade entre o "eu" e o "nós"

 

Na nossa era, em que possibilidade de reproduzir músicas em diversos dispositivos e de forma gratuita é tão ou mais importante do que a própria qualidade do que se escuta, nossos ouvidos estão ficando cada vez menos perceptíveis a produções como as do compositor e músico alemão Johann Sebastian Bach, um dos preferidos de Scquizzato. No Cadernos Teologia Pública N. 72, intitulado Música e Teologia em Johann Sebastian Bach e publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU em 2007, o teólogo Christoph Theobald foi preciso sobre o abismo que existe entre nós e figuras como Bach e sua produção artística:

 

"Entre o universo de Bach e o nosso, intervém o corte da 'modernidade' estética. Quarenta anos após a morte do Cantor de Leipzig, Emmanuel Kant refletiu sobre a diferença entre os campos do saber, da ética, da estética e do religioso, inaugurando a distinção das disciplinas; outras rupturas culturais se interpuseram posteriormente, tornando mais difícil ainda o acesso ao mundo da fé que Bach habitava. Por isso, a tentação é grande de reduzir a teologia a um aspecto 'funcional' ou 'eclesiástico' no sentido mais estrito do termo; de simplesmente não se dar conta e não perceber 'o teológico'- não-constrangedor – que é veiculado nos monumentos cristãos. Eu gostaria de mostrar – e este é o meu segundo objetivo – que, por razões tipicamente teológicas, a música de Bach oferece ao 'ouvinte' uma hospitalidade quase ilimitada. Esta, torna o acesso à 'fé', com certeza, possível, sem contudo transformar essa mesma 'fé' em condição necessária para habitar o mundo sonoro da obra".

 

 

 

A primeira dimensão desta hospitalidade, explica o teólogo, "deve ser formulada teologicamente e globalmente. Ela é claramente resgatada da memória textual como testemunha à obra de Bach: trata-se da tensão entre a absoluta singularidade da escuta e de seu enraizamento comunitário, isto é, entre o 'eu' e o 'nós' dos corais ou cânticos. O lado individual se manifesta com força e doçura no canto nupcial e eucarístico Schmücke Dich, o liebe Seele: 'O Senhor, cheio de bondade, cheio de graças, quer agora te receber como hóspede; aquele que pode reger o céu quer agora, em ti, estabelecer sua morada' (1ª Estrofe). Impossível expressar de maneira mais adequada a paradoxal imanência do maior de todos no seio do menor de todos, tipicamente barroco..."

 

 

Silêncio para experimentar a dimensão espiritual

 

Além da apreciação artística, o silêncio, diz Scquizzato, é uma prática essencial para conhecer e experimentar "a dimensão espiritual da vida, que é a possibilidade de voltar a respirar, graças ao sopro do Espírito; um caminho de consciência, de atenção ao verdadeiro eu que nos habita e nos move". Em suas formações espirituais, realizadas por meio da meditação silenciosa, da escuta dos textos sagrados do cristianismo e do conhecimento das grandes tradições espirituais de todos os tempos, ele propõe o desenvolvimento da "capacidade de vivenciar o silêncio como um momento de 'ociosidade' existencial, ou seja, abster-se de fazer, produzir e renunciar a responder sempre e a todo custo àqueles que demandam desempenho e adequação".

 

Paolo Scquizzato é o último conferencista do Ciclo de Estudos: O cristianismo no contexto das transformações socioculturais e religiosas contemporâneas, que está sendo promovido pelo IHU desde março deste ano. A palestra intitulada "Espiritualidade cristã em perspectiva pós-teísta" será transmitida virtualmente na próxima quarta-feira, 10-08-2022, às 10h, pela página eletrônica do IHU, pelo Canal do IHU no YouTube e pelas redes sociais. A programação completa do Ciclo está disponível aqui.

 

 

Acesse abaixo as matérias produzidas pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU sobre o Ciclo

 

 

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