Atos genocidas contra indígenas do Amazonas na CPI Covid-19

Protesto contra Bolsonaro em Manaus (Foto: Amazônia Real/Raphael Alves

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

01 Junho 2021

 

"Quanto mais decresce a popularidade do presidente Jair Bolsonaro maior intensificação é feita na agenda presidencial de rua, nas aparições em eventos e visitas a municípios com prévia organização dos aglomerados humanos", escreve Ivânia Vieira, jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Comunicação, articulista no jornal A Crítica de Manaus, co-fundadora do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

 

Eis o artigo.

 

A Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) encaminhou aos membros da ‘CPI da Covid-19”, no Senado, documento de oito páginas no qual relata o descaso do Governo Federal no combate ao coronavirus entre os indígenas do Amazonas com número de mortes crescente (306, até o dia 29/abril) e também de uma série de violações dos direitos indígenas e de práticas de genocídio.

O documento chega à CPI no momento em que está agendada visita, para esta semana, do presidente da República à região do Alto Rio Negro, no Amazonas. O Rio Negro concentra 23 povos indígenas e 16 línguas indígenas distribuídos em mais de 700 aldeias. Líderes indígenas de alguns desses povos relatam o agravamento das condições de vida em inúmeras das comunidades com a pandemia da Covid-19 e a falta de política pública adequada tanto aos indígenas quanto à população em geral.

O governo federal e a Presidência da República, como instância máxima de poder, ignoraram o caráter devastador do novo coronavirus na população brasileira e abandonaram à própria sorte os povos indígenas. Enquanto o Brasil ultrapassa a 450 mil mortes e o Amazonas chega a 13 mil óbitos pela Covid-19, o presidente do País faz aglomerações, não utiliza máscara e desqualifica o tempo inteiro as medidas de prevenção adotadas em protocolos internacionalmente elaborados.

Os depoimentos na CPI da Covid-19 têm apresentado elementos esclarecedores sobre os desvios de atitudes por agentes públicos no enfrentamento da pandemia. São atitudes dessa ordem que contribuíram para agravar drasticamente o adoecimento e morte de brasileiros, muitos deles asfixiados, como ocorreu em Manaus e em outros municípios amazonenses por falta de oxigênio.

Mapa da região do Alto Rio Negro (Foto: Google Maps)

Quanto mais decresce a popularidade do presidente Jair Bolsonaro maior intensificação é feita na agenda presidencial de rua, nas aparições em eventos e visitas a municípios com prévia organização dos aglomerados humanos. Há prazer visível por parte do presidente da República nesse tipo de atitude enquanto a taxa de morte aumenta.

Para a maioria dos indígenas a realidade ao longo da pandemia é de omissão e morosidade governamentais em todos os níveis submetendo as comunidades a ameaça efetiva de contaminação pelo coronavirus e à morte.

São os relatos dos indígenas sobre o um cotidiano de sofrimento que integram o documento apresentado, oficialmente, aos senadores membros da coordenação dos trabalhos da CPI, como contribuição e pedido de providências. Dados da Fundação Vigilância Sanitária (FVS) do Estado do Amazonas, incluídos do documento, indicam que até o dia 17 de maio de 2021, Manaus contabilizou 406 casos confirmados de Covid-19, 56 hospitalizações e 25 óbitos de indígenas residentes na cidade, o que representa uma das taxas mais elevadas de letalidade, de 6.2, entre os povos indígenas. Que essas vozes ecoem e sejam ouvidas para ser configuradas nos atos concretos da comissão e de lá substanciem a tomada de decisão efetiva no esforço de reparação pelo Estado brasileiro na construção dessa tragédia, desse genocídio.

Leia mais