Para entender o papado de Francisco, esqueça Roma: vá para Lampedusa

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10 Julho 2020

"Às vezes, diz-se que, se você quer entender a presidência de Abraham Lincoln, você precisa ir a Gettysburg. De maneira semelhante, sem dúvida, você não consegue entender o papado de Francisco sem ir a Lampedusa – o único local no mapa global, mais do que qualquer outro, até mesmo mais do que a Argentina, sua terra natal, ou a sua cidade de adoção, Roma, com o qual esse papa e a sua visão da Igreja e da humanidade sempre estarão associados", escreve John L. Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 09-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo.

 

Existem certos nomes de lugares tão associados a um capítulo da história em particular que apenas o fato de mencioná-los evoca inúmeras associações e emoções.

Isso vale para “Gettysburg”, “Dunkirk”, “Robben Island” e até “Woodstock” – e, cada vez mais, para “Lampedusa”, enquanto celebramos o sétimo aniversário de uma das viagens papais mais breves e, mesmo assim, mais paradigmáticas de todos os tempos.

Lampedusa, agora tão inextricavelmente ligada aos esforços incansáveis do Papa Francisco para promover boas obras, é na verdade uma das três “Ilhas Pelagianas” consideradas como parte da região italiana da Sicília. No entanto, o nome não é uma referência ao monge herético do século IV que ensinava que os seres humanos podem alcançar a salvação por meio de seus próprios esforços, mas sim uma palavra grega que significa “mar aberto”.

Localizada ao largo da costa da Sicília, Lampedusa é o ponto mais ao sul da Itália – na verdade, ela está mais perto da Tunísia, a 110 quilômetros, do que da Sicília, a 190, e geologicamente faz parte do continente africano. Há muito tempo, ela é um destino de férias, com a sua “Praia do Coelho”, eleita a melhor praia do mundo em 2013 pelo TripAdvisor.

Em vários momentos da história, Lampedusa fez parte da Espanha, de Malta, do Império Britânico, do Reino de Nápoles e, desde 1861, da Itália, embora sua lealdade a qualquer um dos locais acima sempre tenha sido bastante nominal (a história diz que, em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, um avião de combate britânico foi forçado a pousar na ilha quando ficou sem combustível, e o comandante da guarnição italiana local prontamente se rendeu ao aviador assustado, que estava totalmente sozinho).

No entanto, não foi nada disso que tornou Lampedusa globalmente evocativa. Pelo contrário, foi o papel da ilha como o principal ponto de entrada na Europa para ondas e ondaondas de migrantes e refugiadoss de migrantes e refugiados que fogem da África, Oriente Médio e Ásia.

Era 1998 quando um centro de acolhimento e detenção de imigrantes (em italiano, “centro di prima accoglienza”) foi estabelecido pela primeira vez em Lampedusa, em resposta a um crescente número de migrantes, refugiados e requerentes de asilo que cruzavam o Mar Mediterrâneo. Originalmente, a maioria era de africanos de países como Gana, Mali e Nigéria, impulsionados pela pobreza e pela violência regionais.

Essas ondas iniciais do fim dos anos 1990 logo se tornaram uma maré nos anos 2000, especialmente após o início da Guerra Civil síria em 2011, junto com convulsões na Tunísia e na Líbia. A capacidade do centro de 800 pessoas foi superada, muitas vezes abrigando 2.000 ou mais migrantes ao mesmo tempo. Dezenas de milhares foram alojados em quartos improvisados em um campo aberto próximo. As condições eram notoriamente primitivas – uma célebre reportagem da Rai, a emissora nacional da Itália, uma vez comparou o centro de Lampedusa a um campo de concentração nazista e a Abu Ghraib.

O que elevou Lampedusa a um status icônico não foi apenas o seu comovente drama humano, mas sim o fato de um novo papa ter escolhido o local para a sua primeira viagem fora de Roma no dia 8 de julho de 2013. A visita durou apenas quatro horas e meia, mas raramente um turno de um dia na vida de um papado foi tão repleto de simbolismo e substância.

Ao chegar, Francisco jogou uma coroa de flores ao mar para recordar os milhares de migrantes e refugiados que morreram tentando atravessar o Mediterrâneo em barcos precários, superlotados e inseguros. Uma estimativa é de que cerca de 20.000 pessoas se afogaram no mar ao longo da última década.

Francisco presidiu sua missa ao ar livre no mesmo campo em que os migrantes estavam detidos, perto daquele que é conhecido localmente como o “cemitério de barcos” por causa da profusão de cascos de barcos que os recém-chegados utilizaram para chegar até lá. Seu altar, na verdade, foi construído a partir de um desses barcos. O papa condenou o que chamou de “globalização da indiferença” em relação ao destino das pessoas que fogem da violência e da pobreza, e passou um tempo conversando, abraçando e rezando com várias delas.

Ele continuou dizendo que ver imagens desses migrantes e refugiados tinha sido como um “espinho em seu coração”, obrigando-o a ir até lá.

Desde aquela época, Francisco fez referência a Lampedusa várias vezes, tanto que isso se tornou uma espécie de sinédoque para toda a sua agenda social e evangélica. Ele preside uma missa todos os anos para recordar a visita, como fez nessa quinta-feira, 8, lembrando, entre coisas, o momento em que ele conversou com um refugiado etíope, e o seu intérprete deixou de fora alguns dos detalhes mais comoventes. Mais tarde, na recepção da Casa Santa Marta, uma mulher etíope disse a ele que o que o intérprete havia dito “não é um quarto da tortura e do sofrimento que eles experimentaram”.

Sete anos depois, uma evidência do impacto da viagem é que uma coalizão global de ONGs designou o dia 8 de julho como o “Dia Internacional do Mar Mediterrâneo”, em um esforço para aumentar a conscientização sobre a sofrida situação dos migrantes e refugiados, assim como sobre os desafios ecológicos enfrentados pela região do Mediterrâneo, escolhendo o aniversário da visita de Francisco.

Às vezes, diz-se que, se você quer entender a presidência de Abraham Lincoln, você precisa ir a Gettysburg. De maneira semelhante, sem dúvida, você não consegue entender o papado de Francisco sem ir a Lampedusa – o único local no mapa global, mais do que qualquer outro, até mesmo mais do que a Argentina, sua terra natal, ou a sua cidade de adoção, Roma, com o qual esse papa e a sua visão da Igreja e da humanidade sempre estarão associados.

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