Sobre a Amoris laetitia, sete manipulações contra o Papa

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28 Setembro 2017

Um documento assinado por 62 estudiosos afirma que na Exortação pós-sinodal haveria posições heréticas. Mas tais frases no documento não existem, fala o teólogo Lorizio.

A entrevista é de Luciano Moia, publicada por Avvenire, 25-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini

Sete considerações para acusar o Papa de heresia. Sete considerações tiradas de Amoris laetitia para afirmar que sobre o matrimônio, a vida moral e o recebimento dos sacramentos, Francisco fez uma revisão da doutrina afastando-se da tradição e do magistério. Pena que as sete alegadas "posições herética" não representem de forma alguma o que o Papa escreveu na Exortação pós-sinodal mesmo que no documento sejam colocadas entre aspas.

Podem parecer citações, mas não o são. Trata-se, aliás, de uma síntese normativa capenga que representa exatamente o oposto daquilo que Francisco - e com ele dois Sínodos dos Bispos - diz explicitamente que quer evitar, ou seja, uma lista de permissões e proibições. O texto divulgado na noite do último dia 24, é na verdade um tipo de explicitação legalista das considerações pastorais expressas em Amoris laetitia. Os 62 signatários da chamada "correção filial" "concernente à propagação de heresias" (este é o título do documento) começam por uma premissa que ignora a realidade, tem a pretensão de inverter a perspectiva escolhida por um percurso sinodal que envolveu toda a Igreja e, sobretudo, atribuem ao Papa o que ele nunca disse em tais termos.

O documento, divulgado na noite entre sábado e domingo, simultaneamente, nos Estados Unidos e na Europa, foi publicado na Itália por alguns sites tradicionalistas que há vários meses, justamente com base em Amoris laetitia, atacam o pontificado de Francisco.

A Secretaria de Comunicações da Santa Sé rejeitou as alegações de ter bloqueado o acesso à página web em que pode ser subscrita a iniciativa. Os textos podem ser lidos, mas em alguns dos computadores da sala de imprensa "como acontece em qualquer empresa", explicou o porta-voz do Vaticano Greg Burke, existem filtros que são disparados automaticamente por vários conteúdos on-line, chamados parked domains. Por esta razão, quando se tenta assinar a petição em alguns deles – aliás, não em todos - os computadores da sala de imprensa desviam, para o site em questão bem como para muitos outros sites, para um domínio em que se lê: "O acesso à página web que você está tentando visitar foi bloqueado com base em políticas de segurança". Frase que levou certas pessoas a acreditar que não fosse possível assinar o documento. "Claramente não é isso", cortou logo Burke.

Entre os 62 signatários do documento aparecem, entre outros, o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, o superior geral dos lefebvrianos Bernard Fellay, o professor Antonio Livi e outros especialistas menos conhecidos. Pelo que afirmado no longo e confuso texto, o Papa teria "causado escândalo para a Igreja em matéria de fé e moral, através da publicação de Amoris laetitia e mediante outros atos" com os quais teria encorajado uma leitura herética da Exortação pós-sinodal.

Foi completamente ignorado o fato de que Amoris laetitia acolhe em 87% as duas Relatio Synodi 2014-2015 e que, portanto, o que o texto propõe não é o fruto de uma invenção do Papa, mas de um processo sinodal, que envolveu mais de trezentos bispos, cardeais e teólogos. Mas não só: os temas abordados no longo debate sinodal surgiram a partir de duas consultas mundiais. E, nesse contexto, as dioceses dos cinco continentes tiveram a oportunidade de expressar opiniões, expectativas e esperanças.

Se os 62 signatários do documento e quem, por trás deles, orquestraram essa questionável manobra, tivessem tido a oportunidade de ler as milhares e milhares de respostas recebidas na Secretaria do Sínodo, teriam finalmente percebido que o sentimento generalizado do povo de Deus - e daquela parte, principalmente, que tem o cuidado de responder a um questionário eclesial - está bem longe de certa rigidez doutrinária e pede à Igreja um olhar renovado de acolhimento, de compreensão e de ternura. Justamente o processo que o longo caminho sinodal 2014-2015 procurou implementar. E que agora a extraordinária recepção do documento em todas as parte do mundo demonstra sem temor de desmentida.

Em vez disso, o que tratam de inventar os 62 signatários das acusações de "heresia", que parece mais uma flagrante manipulação contra Francisco? Eles compõem um texto no qual, além das sete acusações – fruto como já afirmado de sua livre interpretação – listam uma série de passagens de Amoris laetitia que serviria para "propagar as posições heréticas" e, depois, uma infinidade de outras citações do magistério passado e recente, do Evangelho para concluir com o Modernismo e Lutero. Porque, inclusive sobre estes dois pontos, Francisco teria desviado.

Mas de onde nasce um texto que mostra uma radical incapacidade de se distanciar de uma visão da Igreja toda normas e julgamentos? Como é possível que existam teólogos católicos ou, de qualquer forma, estudiosos incapazes de compreender que "a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus"? (Al, 311).

Monsenhor Giuseppe Lorizio, professor de Teologia Fundamental na Universidade Lateranense, membro do Comitê Nacional para os estudos superiores em Teologia e de Ciências Religiosas da CEI, não mediu palavras: "Há um problema de honestidade intelectual e de incompetência teológica. A honestidade intelectual pediria que não se colocassem entre aspas, usando-as como proposições de acusação, frases que o Papa nunca disse nem escreveu. E, por nunca tê-las dito ou escrito, no documento não aparece evidentemente qualquer citação a propósito de tais "acusações". Trata-se, portanto, de considerações extraídas de uma livre e questionável interpretação da mensagem do Papa e de Amoris laetitia".

Eis a entrevista.

Em suma, um problema metodológico que torna pouco credível todo o resto. Mas, quanto aos conteúdos?

Muitas perplexidades. Já na primeira das suas afirmações haveria muito a dizer. A propósito da justificação mostra-se uma visão automática e estática da Graça, que ao contrário é um fato dinâmico, que sempre devemos invocar e que, de qualquer forma, não provém do nosso mérito, mas de um dom de Deus. Nesse sentido, essa dinâmica da graça comporta que até mesmo a pessoa que se confessou, recebeu o perdão e, portanto, está em um estado de graça, não é perfeita. E se não é perfeita, precisa de conversão. Esse é o caminho por onde os sacramentos nos ajudam e nos sustentam.

Como avaliar a observação sobre a Eucaristia para os divorciados que voltaram a casar?

A Eucaristia não pode ser concebida como o pão daqueles que já são perfeitos. Mas é o panis viatorum, ou seja, daqueles que estão no caminho. Se todos nós devêssemos atender a plenitude da união com Deus para ter acesso à Eucaristia, ninguém podia acessá-la. Tanto é, que alguns instantes antes de recebê-la todos, do celebrante ao último dos fiéis, dizem: "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada". Este ‘não ser digno’, significa que a Eucaristia é também oferecida à nossa fragilidade. Além disso, se a graça é a amizade com Deus, Deus nos oferece a sua amizade por meio dos sacramentos. Mas não esqueçamos que as relíquias do pecado permanecem ainda na pessoa que celebrou o sacramento da reconciliação.

O que é afirmado no documento sobre a reconciliação, parece fruto de uma visão pré-conciliar, concorda?

Só que pior ainda; em um ponto significativo do capítulo 12 do Decreto sobre a reconciliação do Concílio de Trento - e, portanto, estamos em plena tradição - afirma-se que ninguém pode ter a certeza absoluta de ser agraciado ou predestinado, o que significa que ninguém pode considerar-se em uma situação de "certeza" no que diz respeito à graça. O Papa, com Amoris laestitia, engaja-se nessa tradição. Quem diz o contrário, como transparece no documento, evidencia um problema de imperícia teológica.

E a parte final sobre o Modernismo e Lutero?

Não é possível liquidar de forma tão trivial enormes questões históricas. Hoje as pesquisas nos ofereceram uma compreensão mais profunda da teologia de Lutero, e temos muitos mais documentos para enquadrar a questão do Modernismo, de forma que ventilar esses fantasmas neste momento significa estar fora da história e ignorar o fruto das pesquisas mais recentes.

No entanto, com base em tais conhecimentos instáveis, atribuem-se ao Papa posições heréticas.

Estamos no paradoxo. O certificado de heresia não é dado pelos teólogos e estudiosos. Eventualmente, quem o dá é o magistério. Aqui estamos diante de um confronto improvável, o "magistério" desses supostos doutores sobrepõe-se ao magistério eclesial. Um teólogo ou um grupo de teólogos pode expressar um parecer, não acusar de heresia. A Exortação pós-sinodal tem uma qualificação de magistério ordinário e, portanto, deve ser acolhida como tal, não é a posição de uma escola teológica. É a expressão de um percurso de Igreja. Como pode ser ignorado? Como é possível ignorar que a intenção da Exortação é primordialmente pastoral.

Oferece uma visão do amor como fundamento do casamento que vai além de uma análise normativa. E dizendo que é pastoral, não estamos dizendo que se trata de um nível inferior em relação à teologia. Estamos dizendo exatamente o contrário, porque a pastoral compreende e inclui a teologia. E não o oposto. Caso contrário, o cristianismo seria uma espécie de intelectualismo, justamente o que o Papa afirma que quer evitar.

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