Na mesma terra, um milagre de abundância. Comentário de Ana Casarotti

Foto: canva

10 Julho 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 13,1-9 que corresponde ao 15° domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas: "O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. Quem tem ouvidos, ouça!"

A partir deste domingo, começamos a ler o capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que contém várias parábolas sobre o Reino de Deus. Lembremos que este Evangelho foi escrito por volta do ano 80, quando as comunidades cristãs enfrentavam grandes dificuldades para levar adiante sua missão, devido ao ambiente hostil de perseguição em que se encontravam. Elas sofriam a rejeição e a não aceitação de Jesus como Messias por grande parte dos judeus ao seu redor. A comunidade sentia-se frustrada, com pouca esperança, diante de um futuro incerto, e desconcertada pela falta de acolhida da mensagem, procurando compreender mais profundamente o caminho que havia escolhido seguir. Por que nem todos aceitam a mensagem? Como devem agir diante dessas pessoas? Que futuro nos espera? Eles precisavam de consolo e encorajamento para continuar anunciando a Boa Nova, apesar das desqualificações, da rejeição, dos "ouvidos surdos" e da arrogância das pessoas ao seu redor. São várias perguntas que encontrarão resposta nas diferentes parábolas que encontramos no capítulo 13 do Evangelho de Mateus. 

Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas.

Jesus está na Galileia, uma região montanhosa, às margens do lago. Ele não está sozinho; ao seu redor, há uma grande multidão que o ouve, que deseja receber suas palavras. Jesus sobe em um barco e se senta para explicar algumas coisas por meio de parábolas, que são uma forma de ensinar: por meio de histórias simples e cotidianas, Jesus revela verdades profundas sobre o Reino de Deus. As parábolas são um recurso pedagógico, pois partem de realidades simples: semeadores, pastores, moedas, banquetes, casamentos — são situações da vida de qualquer grupo humano com as quais cada pessoa pode se identificar, pois conhece e vivencia essa experiência: semear, perder e procurar, celebrar, ajudar, rezar. Algumas pessoas ouvem sua mensagem, escutam-na com o coração e se deixam interpelar por ela; outras, por outro lado, deixam-na passar como se fossem simples fábulas ou contos sem importância.

Como dizia o Cardeal Carlo Maria Martini: “De um lado, as parábolas são um verdadeiro ensinamento: elas falam de Deus, da sua obra, das consequências para a vida dos homens, da resposta que Deus espera; de outro lado, as parábolas são um ato de cortesia, de respeito pela liberdade dos homens, de condescendência, quase de ternura. Jesus é um verdadeiro mestre também por isso. Ele conhece o coração dos homens e, por isso, não tem pressa, sabe adequar-se ao passo do ouvinte, aceita também que este custe a entender, espera que mude de opinião e reveja algumas posições" (texto completo aqui).

O semeador saiu para semear.

Quem o ouve conhece as dificuldades do plantio naquele território; possivelmente já passou pelas diferentes experiências que Jesus relata: perder o que foi plantado por causa dos pássaros que comeram as sementes, ou plantar em solo pedregoso — uma realidade bem conhecida por quem o ouve, pois vivem em uma região montanhosa —, ou ainda cair entre espinhos que as sufocam. As dificuldades do crescimento eram conhecidas e, por isso, eles estavam acostumados a colher uma safra que não ultrapassava 10% do que havia sido semeado.

As sementes são as mesmas e seu crescimento depende do solo, do local onde são plantadas e dos cuidados com o plantio. Apesar de ser a mesma semente e o mesmo plantador, o solo, o ambiente e o mistério do que não se vê podem ajudar ou não no crescimento. Mas a parábola não se detém nas dificuldades da colheita, e sim na abundância do inusitado: 30%, 60% e até 100%. Algo totalmente surpreendente, inimaginável, que sem dúvida é uma novidade, uma Boa Nova que não depende nem do semeador, nem do solo – já que é o mesmo –, mas de um mistério que nos ultrapassa.

Por meio dessa parábola, Jesus abre a possibilidade para uma novidade que não é calculável, que excede a lógica humana. Diante de uma comunidade desanimada e que sofre com as intolerâncias do ambiente, Jesus os consola, encorajando-os à esperança, a confiar no Reino que não se mede com nossa perspectiva, já que as sementes plantadas na mesma terra produzem frutos distintos. Somos nós que medimos as porcentagens, mas, para Deus, todo fruto é igualmente válido, pois é fruto, é crescimento, é a inter-relação entre terra e semente, é o Reino de Deus semeado como semente de mostarda, como Ele dirá mais adiante. Destacamos, assim, a generosidade de Deus que semeia, que não descarta nenhum solo nem prioriza aquele que dá mais frutos, mas sim que todo solo contém em si mesmo o potencial de fertilidade.

Muitas vezes, na igreja, o seguimento a Jesus era “medido” por determinados tipos de participação eclesial: em alguma missa, em “receber os sacramentos”, em fazer parte de alguma pastoral, na aproximação com alguma instituição religiosa. Mas Jesus nos convida a ter o seu olhar. Ser cristão não é algo puramente individual, mas comunitário. Por isso, Ele nos convida a anunciar o Reino sem contabilizar frutos... o que é tão comum em nossa cultura digital, onde a quantidade de seguidores em diversas aplicações parece dar identidade à pessoa. Essa cultura prioriza cada indivíduo acima dos demais, valorizando o crescimento pessoal em detrimento do comunitário, do fraterno e do social.

Em uma colheita, quando os frutos são colhidos, não é possível diferenciar cada pedaço de terra, pois eles brotam de um terreno comum. Embora Jesus nos ame a cada um de maneira única e particular, Ele não nos valoriza por nossas individualidades, considerando uns superiores aos outros. Somos chamados a construir uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, com todas as implicações que isso traz.

Como disse o Papa Leão XIV na abertura do segundo consistório extraordinário de seu papado: “Não somos guardiões de interesses particulares, mas discípulos e testemunhas do Reino de Deus, chamados em Cristo a ser fermento da fraternidade universal”. 

Deixamos ressoar seu apelo do sobre à necessidade de se comprometer de maneira mais decisiva na evangelização: "Pode não faltar 'cristãos ocasionais' que ocasionalmente compartilham algum bom sentimento religioso ou participam de algum evento; mas poucos são aqueles que estão dispostos a trabalhar todos os dias no campo de Deus, cultivando em seus corações a semente do Evangelho e depois levando-a à vida cotidiana, à família, ao trabalho e aos lugares de estudo, aos vários ambientes sociais e aos necessitados".

Pedimos ao Senhor que nos conceda ser generosos e gratos, pois Ele nos chama a ser semeadores de esperança.

Oração

Criador discreto

Não há que pensar o ar para que se infiltre
até o último canto dos pulmões.
Nem há que imaginar a aurora
para que decore o novo dia
brincando com as cores e as sombras.

Não há que dar ordens ao coração tão fiel,
nem às células sem nome
para que lutem pela vida
até o último alento.

Não há que ameaçar aos pássaros para que cantem
nem vigiar os trigais para que cresçam
nem espiar a semente de arroz
para que se transforme
no segredo da terra.

Em exata dose de luz e de cor,
de canto e silêncio,
nos chega a vida sem ser notada,
dom incessantemente teu,
trabalhador sem sábado,
Deus discreto.

Para que tua infinitude
não nos espante,
Ofereces-te no dom
Em que te escondes.

Benjamin González Buelta
Salmos para sentir e saborear internamente as coisas

Leia mais