Os lefebvrianos rejeitam o último Concílio, mas aceitam os outros. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Fraternidade São Pio X

Mais Lidos

  • ‘Magnifica Humanitas’. A inteligência artificial exige mais filosofia, não menos tecnologia. Entrevista especial com Celso Cândido de Azambuja, Denis Coitinho e Gabriel Ferreira

    LER MAIS
  • Bubista, o treinador de Cabo Verde, a voz dos pobres no futebol

    LER MAIS
  • O projeto de inviabilização do voto à esquerda no Brasil. Artigo de Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

04 Julho 2026

"Leão XIV precisará manter uma atitude de misericórdia mesmo para com esses excomungados: continuam sendo nossos irmãos, ainda que sejam cismáticos, e não devem ser nem demonizados nem desprezados", escreve Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 02-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Ontem, significativamente, na Festa do Preciosíssimo Sangue, concretizou-se o doloroso cisma, há muito temido: a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, fundada por Lefebvre, consagrou quatro novos bispos sem mandato do papa, incorrendo assim na excomunhão prevista pela tradição e pelo direito canônico.

Às vésperas desse evento, Leão XIV dirigiu uma carta ao superior da Fraternidade, Padre Pagliarani, pedindo-lhe humilde e fraternalmente que “não rasgasse a túnica inconsútil de Cristo, pecado de extrema gravidade!” Leão XIV declara-se “disposto, juntamente com toda a Igreja, para trilhar um caminho de diálogo e entendimento”, reconhecendo as questões importantes para a Fraternidade, como a liturgia, o empenho na formação sacerdotal e o desejo de fidelidade à tradição. No entanto, apesar do apelo, em consonância com as atitudes de misericórdia demonstradas por Bento XVI e pelo Papa Francisco, a rede da unidade eclesial rompeu-se e a túnica foi rasgada. Desde os seus primórdios, o cristianismo conheceu divisões e contraposições, como atestam os escritos do Novo Testamento: deveríamos falar de "cristianismos" em vez de um único cristianismo.

No entanto, dentro da Igreja Católica, esse cisma é uma novidade. É diferente do cisma causado e não desejado por Lutero, que buscava preservar a graça do Evangelho contra a mercantilização e a autojustificação humanas. Nesse caso, trata-se de uma rejeição ao desenvolvimento da doutrina católica, garantido por um Concílio Ecumênico e pelos papas João XXIII e Paulo VI.

Devemos ter a coragem de dizer: os lefebvrianos não enveredaram pelo caminho que os levou ao cisma apenas por causa da liturgia renovada pela reforma conciliar; mas, de fato, declaram que a verdadeira fé católica é aquela que foi professada, pregada e tornada catequese para o povo até o Concílio. Tenhamos a coragem de dizer isso, em vez de alimentar um orgulho católico romano que pretende que a fé seja sempre a mesma. Não, não é verdade! É claro que o Credo é sempre o mesmo, niceno-constantinopolitano. Mas a doutrina transmitida aos fiéis muda e, de fato, mudou. Posso atestar isso pessoalmente: comecei minha vida professando uma límpida e sincera fé tridentina aos 20 anos na época do Concílio, e tive que passar por uma conversão. Minha fé hoje não é mais aquela da minha juventude. Os lefebvrianos, porém, pararam naquele ponto; paradoxalmente, recusam-se a aceitar a evolução mais recente, embora tenham aceitado aquelas anteriores que levaram a inovações doutrinárias radicais, como a infalibilidade pontifícia, sancionada pelo Concílio Vaticano I.

Agora, uma parte significativa da Igreja se separou: estão todos excomungados ou apenas os bispos? E aqueles que recebem os sacramentos deles também são excomungados? Não é fácil responder. Ontem, milhares de fiéis, juntamente com centenas de padres, freiras, dominicanos e capuchinhos, estiveram presentes na consagração. A liturgia era um pontifical que rivalizava com aqueles romanos; os cantos gregorianos mais belos e mais adequados à liturgia católica do que os hinos pós-conciliares das nossas igrejas, e a atmosfera era certamente um convite à oração.

Leão XIV precisará manter uma atitude de misericórdia mesmo para com esses excomungados: continuam sendo nossos irmãos, ainda que sejam cismáticos, e não devem ser nem demonizados nem desprezados. Em sua homilia, Pagliarani dizia: “Amamos o Papa, obedecemos ao Papa, mas queremos afastá-lo dos falsos pastores, das falsas religiões e do diálogo com os cristãos fora da Igreja”.

No entanto, desde a Ecclesiam Suam de Paulo VI, essa postura justamente não é mais possível: o Papa não renega Cristo dialogando com homens de outras religiões, nem trabalhando pela paz ao lado de homens não cristãos ou não crentes. O Sucessor de Pedro agora só pode declarar, em obediência a Jesus: “Somos todos, todos irmãos!”

Infelizmente, é precisamente isso que é rejeitado por essa parcela da Igreja.

Leia mais