Semear é esperar (esperança). Comentário de Tomás Muro Ugalde

Foto: Yuliia Chyzhevska/Canva

10 Julho 2026

"Seria — e é — uma falha não semear palavras sábias e valores nobres nas novas gerações. Não é bom nem benéfico para ninguém minar a filosofia, o pensamento, a poesia, a contemplação, a arte, a música, a fé, a teologia e a ética nos currículos educacionais"

O comentário é de Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, publicado por Religión Digital, 06-07-2026.

Eis o comentário.

1. A Palavra é como a chuva, como a neve

O profeta Isaías usa uma bela metáfora para falar da Palavra. A Palavra é como a chuva, como a neve que encharca a terra e retorna ao céu depois de tê-la fertilizado…

E o que somos nós senão um punhado de barro, de terra? Deus e a vida nos fizeram do barro (Gênesis), da Mãe Terra, e colocaram dentro de nós uma semente cheia de vida.

2. A semente é humilde

Um grão de trigo é uma semente humilde e pequena, porém cheia de vida. Um humilde grão de trigo é insignificante, mas é vida; dele sairão espigas e uma colheita abundante de trigo para o pão que nos alimenta.

A vida de uma semente é quieta, silenciosa, paciente: ela cresce pouco a pouco. Quer você durma ou fique acordado, dia ou noite, a semente continua a crescer, desenvolvendo toda a sua vitalidade. Mesmo que nos esqueçamos da semente, ela continua a crescer.

A vitalidade da semente não depende — pelo menos não exclusivamente — do trabalho humano, do esforço humano. A semente está repleta de vida em si mesma. A vitalidade vem de Deus, não de nós.

Quando a semente cai na terra e é fertilizada pela Palavra, pela chuva, a água da vida.

Será que leio e acolho a Palavra na minha vida?

3. A semente é a Palavra. O valor da palavra

O início (prólogo) do Evangelho de João é um hino à Palavra e à vida. No princípio era o Verbo, e o Verbo era a vida e a luz da humanidade.

A Palavra é luz; ela ilumina a vida. Desde a infância, ouvimos a Palavra: palavras do povo, tradições culturais, palavras de celebração, palavras de trabalho, palavras de amor, palavras de dor, de morte, a Palavra da fé. Tudo isso ilumina e guia nossas vidas. Somos ouvintes da Palavra (K. Rahner).

Para nós, católicos, a Palavra ficou em segundo plano. YM Congar (1904-1995) disse que nós, católicos, perdemos a Palavra (a Bíblia) no século XVI (Reforma – Contrarreforma) e só a recuperamos no Concílio Vaticano II (Dei Verbum).

O Concílio acabou dizendo que a Palavra é “como um sacramento” que tende a realizar aquilo para o qual foi criada.

4. A semeadura está à espera

Semear é um ato – uma atitude – de esperança.

O agricultor semeia porque espera colher. Ninguém semeia apenas por semear ou para passar o tempo. Semeia-se para criar e colher vida.

Toda semeadura implica que é preciso saber esperar (ter esperança) com calma e paciência [1].

Podemos cair em certo desespero ao ver como a sociedade, a educação, a mídia, etc., estão indo. Talvez nos fizesse bem lembrar o que disse Martin Luther King: "Se eu soubesse que o mundo ia acabar amanhã, ainda assim plantaria uma árvore hoje."

Semear na vida é uma tarefa nobre.

Mas vamos semear vida, não fósseis.

É preciso tempo para que um grão de trigo se transforme em uma espiga de trigo e pão. Semear exige muito tempo e dedicação, às vezes até com sofrimento. Não tenhamos pressa. Chegará o momento, a colheita, em que o grão de trigo se transformará novamente em uma espiga de trigo e pão.

Existe um salmo (125) que pode nos ajudar a reunir essas coisas sobre sementes, semeadura e colheita:

Aqueles que semeiam com lágrimas, colhem com cânticos de alegria.

Enquanto caminhava, ela chorava, levando consigo a semente.

Quando ele retorna, volta cantando, trazendo seus feixes de trigo.

Seria — e é — uma falha não semear palavras sábias e valores nobres nas novas gerações. Não é bom nem benéfico para ninguém minar a filosofia, o pensamento, a poesia, a contemplação, a arte, a música, a fé, a teologia e a ética nos currículos educacionais.

Quem semeia em lágrimas, colhe com cânticos de alegria.

Vamos semear vida.

Notas

[1] A semeadura é a transição do Paleolítico para o Neolítico: é a transição da caça para a agricultura, que requer espera e esperança entre a semeadura e a colheita.

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