Ainda sobre a Eucaristia nos casamentos mistos

Mais Lidos

  • “O mundo da educação foi sobrecarregado e perturbado pelo surgimento do ChatGPT”. Discurso do cardeal José Tolentino de Mendonça

    LER MAIS
  • O “Filioque” e a história. Artigo de Flávio Lazzarin

    LER MAIS
  • Genocídio Yanomami em debate no IHU. Quanta vontade política existe para pôr fim à agonia do povo Yanomami? Artigo de Gabriel Vilardi

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

09 Junho 2018

A discussão na igreja alemã e no âmbito da Conferência Episcopal sobre a possibilidade de permitir em determinados casos a comunhão eucarística ao cônjuge protestante em casamentos mistos ainda não se aplacou. De fato, após os últimos eventos, pode até voltar a inflamar-se, especialmente agora, depois da carta que Luis F. Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, enviou aos bispos alemães, em 4 de junho.

A reportagem é de Antonio Dall'Osto, publicada por Settimana News, 07-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

A impostação do problema

Primeiro, uma breve panorâmica histórica. Em fevereiro passado, a Conferência Episcopal alemã reunida em Ingolstadt, com uma maioria de dois terços, havia aprovado um subsídio pastoral, chamado de 'ajuda orientadora’ (Handreichung), intitulado Caminhar com Cristo. Nas pegadas da unidade. Matrimônios interconfessionais e participação comum na Eucaristia, segundo o qual, nos casamentos mistos e em casos isolados, o parceiro protestante também poderia ser admitido à comunhão.

Dizia-se especificamente: "Os bispos votaram por uma ‘ajuda orientadora’ destinada a permitir aos parceiros evangélicos receber esse sacramento, sob determinadas condições. O pressuposto é que os parceiros ‘após madura reflexão em um diálogo com o pároco ou outra pessoa designada pelo pastor de almas’ cheguem em consciência a concordar com a fé da Igreja Católica, colocando assim um fim a ‘uma grave situação espiritual e desejem satisfazer o ardente desejo de receber a Eucaristia".

Sete bispos, liderados pelo cardeal de Colônia, Rainer Maria Woelki, em desacordo com essa orientação, haviam escrito uma carta às autoridades competentes do Vaticano solicitando esclarecer se tal regra poderia ser decidida por uma única conferência episcopal.

O texto foi então aperfeiçoado no encontro dos bispos em Würzburg em 23 de abril.

Os sucessivos desenvolvimentos

Alguns dias depois, o Papa Francisco convidou o card. Marx, presidente da Conferência Episcopal, o card. Woelki, arcebispo de Colônia, e o bispo de Münster, Felix Genn, para esclarecimentos. Foram recebidos na sede da Congregação para a Doutrina da Fé, da qual é prefeito o arcebispo Luis Francisco Ladaria Ferrer.

O resultado daquela reunião, que aconteceu em 3 de maio, foi que depois de três horas e meia de discussão, em um "clima amigável e fraterno" - como foi garantido - o Papa, através da Congregação para a Doutrina da Fé decidiu reencaminhou o problema para os bispos alemães, expressando o desejo de que "fosse encontrada uma diretriz possivelmente unânime em espírito de comunhão".

Sobre o problema da Eucaristia aos protestantes o papa já havia se manifestado, embora de forma um tanto genérica, em novembro de 2015, durante a visita à Igreja Evangélica Luterana alemã em Roma. Perguntado por um casal católico-protestante sobre a possibilidade de participarem juntos na comunhão eucarística, ele respondeu: "Eu não ousaria dar a permissão, porque não é de minha competência." Mas, ele acrescentou: "Um batismo, um único Senhor, uma fé e continuem em frente. Eu não posso dizer mais”.

Aquele "continuem em frente" tinha dado origem a diferentes suposições. Agora, na carta de 4 de junho (ver o texto anexo) de Ladaria aos bispos alemães, referindo-se ao subsídio de Ingolstadt-Würzburg, especifica-se: "O Santo Padre concluiu que o documento não está maduro para publicação."

A carta é datada de 25 de maio, mas foi tornada pública em 4 de junho. É endereçada ao cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal.

A carta da Congregação

No texto são elogiados os inúmeros esforços ecumênicos da Conferência Episcopal Alemã e do Conselho da Igreja Evangélica. Quanto ao subsídio, afirma-se que levanta uma série de problemas de considerável importância para a própria Igreja universal. Além disso, que traz efeitos sobre as relações ecumênicas com as outras Igrejas e comunidades eclesiais. Acrescenta-se também que o Papa expressa o desejo de que na Conferência Episcopal Alemã permaneça vivo o espírito da colegialidade.

Luis Ladaria Ferrer.

Segue aqui o texto integral da carta endereçada ao cardeal Marx:

Eminência, ilustríssimo Senhor Presidente

No final da nossa fraterna conversa de 3 de maio de 2018, sobre o documento "Mit Christus gehen..." [ "Caminhar com Cristo. Nas pegadas da unidade. Casamentos interconfessionais e participação comum na Eucaristia. Um subsídio pastoral da Conferência Episcopal Alemã"] estabelecemos juntos que eu informaria ao Santo Padre sobre a reunião.

Já na audiência de 11 de maio de 2018, conversei com o Papa Francisco sobre o nosso encontro e apresentei um resumo do que foi discutido. Em 24 de maio de 2018, discuti o assunto novamente com o Santo Padre. Imediatamente após estas reuniões, gostaria de dar a conhecer os seguintes pontos, com o consenso explícito do Papa.

1. Os muitos esforços ecumênicos da Conferência Episcopal Alemã, em especial a intensa colaboração com o Conselho da Igreja Evangélica da Alemanha, merecem reconhecimento e apreço. A comum comemoração da Reforma em 2017 mostrou que, nos anos e nas décadas passadas, foi encontrada uma base que permite dar testemunho juntos de Jesus Cristo, o Salvador de todos os homens, e trabalhar em conjunto de forma eficiente e decisiva em muitas áreas vida pública. Isso nos encoraja a avançar com confiança no caminho de uma unidade cada vez mais profunda.

2. Nossa conversa em 3 de maio de 2018 mostrou que o texto do subsídio levanta uma série de problemas de notável relevância. É por isso que o Santo Padre chegou à conclusão de que o documento não está maduro para publicação. As razões essenciais para essa decisão podem ser resumidas da seguinte forma:

a) A questão da admissão à comunhão dos cristãos evangélicos nos casamentos interconfessionais é uma questão que afeta a fé da Igreja e tem uma relevância para a Igreja universal.

b) Esta questão tem efeitos sobre as relações ecumênicas com as outras Igrejas e com outras comunidades eclesiais que não devem ser subestimadas.

c) O tema refere-se ao direito da Igreja, especialmente a interpretação do cânon 844 do Código de Direito Canônico. Considerando que em alguns setores da Igreja existem questões em aberto a esse respeito, os competentes dicastérios da Santa Sé já foram encarregados de produzir uma declaração tempestiva de tais questões ao nível da Igreja universal. Em especial, parece oportuno deixar ao bispo diocesano o juízo sobre a existência de uma "grave e iminente necessidade".

3. É uma grande preocupação para o Santo Padre que o espírito da colegialidade episcopal continue vivo na Conferência Episcopal Alemã. Como o Concílio Vaticano II enfatizou, "as conferências episcopais podem hoje trazer uma contribuição múltipla e frutífera para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas" (constituição dogmática "Lumen Gentium", n. 23).

Levando isso ao seu conhecimento, ofereço-lhe saudações fraternas e votos de bênção.

Seu no Senhor

Luis F. Ladaria, S.I.

Diferentes sensibilidades

A publicação chegou - de acordo com algumas opiniões - como uma "bomba". O primeiro a expressar a própria surpresa foi o cardeal Marx, que, de certa forma, lamentou não ter sido concedido tempo para encontrar primeiro uma solução acordada, como solicitado pelo papa.

Em uma breve declaração esclarece: "A carta do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé de 25 maio de 2018 foi recebida esta noite, 4 de junho de 2018, pelo presidente da Conferência Episcopal Alemã, card. Reinhard Marx. Na reunião realizada em 3 de maio de 2018 em Roma, foi informado aos bispos que deveriam encontrar "um resultado possivelmente unânime, no espírito da comunhão eclesial". O presidente está, portanto, surpreso que esta carta tenha chegado de Roma antes mesmo de ter encontrado uma solução concordante. O Presidente entende que a carta expressa a necessidade de uma maior discussão dentro Conferência Episcopal Alemã, em primeiro lugar no Conselho Permanente e na Assembleia Plenária do outono, mas também com os respectivos dicastérios romanos e com o Santo Padre".

O cardeal Woelki, no dia anterior, em 3 de junho, durante a Missa de Corpus Domini no adro da catedral de Colônia, havia indiretamente aludido às discussões em curso, dizendo: "Alguns podem pensar: onde está o problema? Isso é uma bobagem. Outros podem até pensar: é um teatro de marionetes. Eu penso: isso diz respeito à vida e à morte. Diz respeito à morte e à ressurreição. Diz respeito à vida eterna, diz respeito a Cristo. Isso diz respeito à sua Igreja e, consequentemente, diz respeito à sua essência. E esta é a razão pela qual devemos lutar por ela e encontrar o caminho certo. Não simplesmente um caminho qualquer, mas o caminho do Senhor, aquele que ele nos mostra, já que só ele é o caminho, a verdade e a vida".

Não é o fim do ecumenismo:

O convite do Papa à prudência e à paciência não representa de forma alguma o fim do ecumenismo, como alguns imaginam. Pelo contrário, é simplesmente um convite para proceder sabiamente. "Alguns temas, - afirmou o Papa Francisco – estou pensando na Igreja, na Eucaristia e no ministério da Igreja, precisam de reflexões aprofundadas e bem harmonizadas".

Por sua parte, assim comentou Ludwig von Ring-Eifel (KNA): "A maioria da Conferência Episcopal Alemã e seu presidente Marx sempre enfatizaram que o subsídio sobre a comunhão tratava-se apenas de um problema pastoral, que diz respeito à competência de cada conferência episcopal individualmente. Esta visão, com a carta de Ladaria, é definitivamente removida das possibilidades. A deliberação de Ingolstadt, na melhor das hipóteses, constitui uma base de trabalho para sucessivos passos para prosseguir. Não há receio de que o freio imposto por Roma queira silenciar o ecumenismo. Só quer - traduzindo a carta de Ladaria em termos teológicos - impedir que os vagões descarrilem por excesso de velocidade. Mas o trem não deve ficar parado. A carta da Congregação para a Doutrina da Fé, na verdade contém uma afirmação importante para o ecumenismo: "Isso encoraja a avançar com confiança no caminho de uma unidade cada vez mais profunda." Ou, como o papa escreveu em uma carta ao presidente da Igreja Evangélico-Luterana da Alemanha do Norte, "precisamos caminhar e seguir em frente, mas não com o ânsia de alcançar rapidamente os objetivos desejados, mas juntos e com paciência sob o olhar de Deus."

Essa é a tônica com a qual agora a discussão vai prosseguir. Até mesmo as discussões bastante animadas dentro do episcopado alemão e na mídia poderão recomeçar de uma maneira nova e mais pacífica.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Ainda sobre a Eucaristia nos casamentos mistos - Instituto Humanitas Unisinos - IHU