Século XXI: o colapso da modernidade, a ascensão da multipolaridade e os desafios da pluriversalidade. Entrevista especial com Walter Mignolo

“Os projetos da modernidade estão colapsando porque surgiram os projetos de multipolaridade no século XXI”, afirma o semiólogo argentino

Foto: Pixabay

Por: Edição Patricia Fachin | 26 Outubro 2022

Os três grandes projetos da modernidade, o cristianismo, o liberalismo e o socialismo marxista, segundo Walter Mignolo, compartilham de uma lógica comum, a colonialidade, isto é, oferecer à humanidade, em geral, e ao ser humano, em particular, um projeto de salvação. “A salvação por conversão, como propõe o cristianismo; a salvação por meio do progresso e da civilização, segundo a missão civilizatória da Inglaterra e da França, que significa exatamente isto: civilizar o mundo e fazê-lo progredir; e a salvação dos EUA, que consiste em garantir o desenvolvimento e a modernização do mundo”. Como consequência prática, explica, os “três projetos da modernidade aspiravam a uma ordem mundial unipolar, isto é, que o Ocidente, unipolarmente, se projetasse e transformasse todo o planeta e todas as formas de vida de pensar segundo o modelo desses projetos”.

Entretanto, é justamente essa proposta que está colapsando por uma série de fatores, entre eles, a emergência da multipolaridade, caracterizada pela ascensão econômica e política de países como China, Rússia e Irã. “Estamos falando de uma ordem mundial multipolar, o que significa que já não existe mais um estado que é o vigilante do mundo e que decide o que é bom e o que não é bom. Os estados já não querem mais receber instruções de como devem fazer as coisas e a multipolaridade é possível pela afirmação e riqueza econômica desses países, que lhes permite tomar decisões políticas fortes. China e Rússia têm impedido decisões ocidentais dentro do Conselho de Segurança da ONU desde o início do século XXI.

Além disso, tem os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que tiveram um momento forte e agora estão se reconstruindo, como visto em reunião recente na capital do Uzbequistão, na Ásia Central, que é o lugar de onde se estão julgando as coisas”. A Ucrânia, acrescenta, imersa em uma guerra contra a Rússia, também enfrenta um momento decisivo. “Não sabemos o que vai acontecer, mas sabemos a razão desse momento decisivo: porque, para a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, o Oeste é um local decisivo para avançar até a Ásia Central e, para os países do Leste, é um momento decisivo porque eles querem controlar a Ásia Central. Então, a multipolaridade nada mais é do que os projetos estatais, políticos, econômicos e ideológicos”.

Na conferência ministrada no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no Ciclo de Estudos “Saberes Decoloniais: inquietações e saídas às crises de hoje”, Mignolo disse que em reação à unipolaridade criada pela modernidade e à multipolaridade, caracterizada por Estados nacionais fortes, está emergindo a pluriversalidade.

“A pluriversalidade não é um projeto estatal. É um projeto da sociedade política. Dentro e fora da universidade, artistas, ativistas, jornalistas, todos começamos a nos dar conta de que a universalidade de conhecimento é uma ideia, um projeto regional e provincial do Ocidente, que distorceu as identidades – não as identidades pessoais, mas as identidades locais. O colapso da modernidade é o colapso da unipolaridade da ordem mundial e da universalidade do conhecimento. Esse colapso surge por contradições internas, mas também pela afirmação da multipolaridade e da decolonialidade”, ressalta.

A seguir, publicamos a conferência no formato de entrevista.

Walter Mignolo

Foto: Universidade de Duke

Walter Mignolo é um semiólogo argentino, professor de literatura na Universidade Duke, nos Estados Unidos. É uma das figuras centrais do pensamento decolonial latino-americano e cofundador do Grupo Modernidade/Colonialidade.

 

A entrevista foi originalmente publicada por Instituto Humanitas Unisinos - IHU, 26-10-2022.

 

Confira a entrevista.

 

IHU – Que relações estabelece entre o processo de colonização europeu e o surgimento da modernidade?

Walter Mignolo – A chegada de Colombo a uma ilha em 1500, a qual acreditava ser a Índia, não foi somente um evento particular, mas um acontecimento que mudou o mundo. Suas consequências mudaram a ordem mundial na qual estamos envolvidos. Os relatos deste e de outros eventos foram construídos pelos europeus; não foi pelos indígenas nem pelos africanos. Naquele momento, falava-se de renascimento e o Renascimento em si tem duas etapas. Uma delas vai de 1350 a 1500, onde a cristandade ocidental e a Europa estavam se reconstruindo depois do colapso do Império Romano e do que normalmente se chama de Idade Média – que é uma invenção do Renascimento. Nesse período, a Europa estava fazendo o que deveria fazer: reconstruindo-se porque tinha sido desequilibrada depois do Império Romano e, sobretudo, depois do fracasso das Cruzadas.

O problema começa na segunda etapa do Renascimento, que vai de 1500 a 1650. Esse é o momento em que a Europa começa a se expandir. Não se trata só da conquista da colonização das Américas, mas da criação, em 1601, da Companhia Britânica das Índias Orientais (East India Company) e da expansão inglesa e holandesa para a Ásia, a América do Sul e o Leste Asiático. Em 1650, a Europa também já tinha avançado na conquista das Américas porque havia se expandido ao Caribe e à América do Norte e começado a entrar na África. A primeira entrada da Europa na África foi em 1652, com os holandeses que atravessam o Cabo da Boa Esperança, a Ásia e o Oceano Índico, e os ingleses e os franceses que foram para o sul asiático.

Modernidade

Essa é, por um lado, a segunda etapa do Renascimento e, por outro lado, a primeira etapa da modernidade. É nesse período, nos séculos XVI e XVII, que, na França, começa o debate sobre os antigos e os modernos.

Digo isso porque, para entender o colapso da modernidade, há que se entender como se gerou a ideia de modernidade, uma vez que a modernidade não é um ente, um momento histórico ontológico, mas um período inventado por quem contava a história. E quem contava a história eram os europeus, a partir do Renascimento.

Renascimento

O Renascimento tinha seu centro na Itália, mas o debate sobre os antigos e os modernos se deu na França. Espanha e Portugal, que estavam controlando tudo que hoje é conhecido como América do Sul e Caribe, não participaram tanto desse processo. A ideia de América também é uma ideia europeia, cunhada pelo cartógrafo alemão Martin Waldseemüller para honrar Américo Vespúcio, que havia se dado conta, quando viajava ao Sul e estava mais ou menos à altura do Brasil, de que aquela região não era a Ásia, mas, como ele disse, um novo mundo, o mundo novo. O território da América não era conhecido pelos europeus, mas era bem conhecido pela gente que vivia aqui.

IHU – Que projetos modernos surgiram a partir daquele contexto?

Walter Mignolo – Existem ao menos três grandes projetos modernos. Primeiro, o cristianismo, que predomina de 1500 a 1750. Nesse período, a teologia cristã domina todas as instituições, o pensamento político, filosófico, religioso etc. O projeto cristão é cristianizar o mundo, mas no Renascimento começam a dissidência do cristianismo e o que chamamos hoje de humanismo. Os humanistas, no Renascimento, foram os antecessores dos liberais seculares do século XVIII. O secularismo desloca a teologia cristã e Deus, e introduz uma noção de razão. Essa concepção de razão transforma a ideia de ciência, de filosofia, as teorias política e econômica e todos os conhecimentos. Não havia teoria econômica ou filosofia econômica nem economia política até então.

O pensamento filosófico político-econômico, que começa com Adam Smith, David Ricardo e Marx, tem muito a ver com as riquezas do novo mundo. Quando Smith escreve “A riqueza das nações”, ele está pensando em tudo que ocorreu em 1776, e já se haviam passado quase três séculos do início da expansão europeia. Como as riquezas do novo mundo tinham enriquecido a Europa, surgiu um pensamento econômico liberal, surgiu a ideia de Estado-nação, que é uma ideia liberal que deslocou a monarquia, e ocorreu uma transformação na teoria política, porque o Estado-nação necessitava de outra teoria política e não mais aquela que se manifestava nos séculos XVI e XVII, que havia criado os reinados.

Então, o que temos aí é a seguinte questão: a quem responde esse novo pensamento? Esse novo pensamento responde a uma mudança das condições históricas: ascendeu uma nova classe social, uma etnoclasse que hoje chamamos de burguesia, uma classe de gente europeia, branca, cristã, que defendia a heterossexualidade porque a ideia de família estava muito enraizada na cristandade e no liberalismo. Portanto, temos aí dois grandes relatos e projetos da modernidade, o cristianismo e o liberalismo. No início do século XIX, aparece a ideia de socialismo. Quando Marx escreve “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, em meados do século XIX, estão consolidados os três grandes projetos da modernidade: o cristianismo, o liberalismo e o socialismo marxista.

Para falar do colapso da modernidade, temos que investigar como se forma a ideia de modernidade. Sem investigação, não podemos definir ou afirmar coisas, equivocadas ou não.

IHU – Como a perspectiva decolonial compreende os três projetos da modernidade?

Walter Mignolo – Todo esse panorama que apresentei muito rapidamente é o que se chama de colonialidade e de “patrão colonial de poder”. Essa matriz colonial de poder se refere a alguém que controla, mais do que modela, uma estrutura, tal como uma matriz, que de alguma maneira também exerce o controle. Matriz colonial de poder é um conceito decolonial para entender a estrutura profunda desses projetos que constituem a ideia de modernidade. Digamos que a matriz colonial de poder é um conceito decolonial – não é um conceito sociológico ou econômico – que abarca tudo.

Além do mais, é um conceito que não surgiu na Europa nem nos EUA, tampouco surgiu de uma das disciplinas, ainda que Aníbal Quijano tenha sido sociólogo. Mas seu pensamento ultrapassou a sociologia porque ela não servia para capturar o que ele estava vendo, sentindo ou pensando. Lembremos também que Quijano vinha dos debates sobre a dependência, onde existiam muitos pensadores brasileiros implicados. Ele aborda essa discussão não só com base na dependência econômica, mas também pela perspectiva da dependência cultural e política. Na década de 1990, ele se dá conta de que necessita de outro conceito para tratar do tema de modo mais amplo e lança o conceito de colonialidade.

Ele se deu conta de que todos os relatos da modernidade se apresentavam como totalizantes e universais, mas isso era metade da história porque os projetos ocultavam a colonialidade. Então, a partir desse momento começamos a nos dar conta de que não há, e nem pode haver, modernidade sem colonialidade. Isso significa que, para que os projetos da modernidade se cumpram, eles precisam ser projetos salvadores: a salvação por conversão, como propõe o cristianismo; por progresso e civilização, que é o projeto secular; e salvação por desenvolvimento e modernização, tal como proposto pelos estados ricos. É ao refletir sobre essa última etapa que a teoria da dependência floresce, porque Raúl Prebisch se deu conta de que não pode haver modernização se os Estados nacionais são dependentes. Prebisch era liberal, não era marxista, mas foi por causa do debate sobre a dependência que o pensamento marxista marcou suas teorias.

Um conceito do terceiro mundo

Portanto, o conceito de colonialidade surge no terceiro mundo e com base na experiência do terceiro mundo. Não podia surgir na Europa ou no Atlântico Norte, nos EUA, porque não se sente a colonialidade lá. A colonialidade é sentida em todo o mundo, exceto no Atlântico Norte.

IHU – Qual é a diferença entre colonialidade e colonização?

Walter Mignolo – Por colonização entendemos várias coisas. Falamos, por exemplo, da colonização do Império Romano, mas isso não nos interessa. O que nos interessa é o tipo de colonização que começa a partir de 1500, ou seja, a expansão dos estados monárquicos e nacionais europeus do Atlântico, da Ibéria, da França, da Holanda, da Inglaterra e dos EUA. Alemanha e Itália têm pequenas colônias, mas não estão no nível dos estados do Atlântico. Dito isso, é interessante observar que o fascismo e o nazismo surgem nesses estados europeus que, de alguma maneira, são marginais ao poderio do Atlântico, e o franquismo surge na Espanha, o Estado imperial que perdeu sua imperialidade a partir de 1898.

Quando começamos a pensar a colonialidade mais do que a modernidade, começamos a entender essas coisas. Se a matriz colonial de poder é um conceito decolonial, também é um conceito de colonialidade, e nenhum deles é europeu ou disciplinar, mas conceitos decoloniais. O pensamento decolonial se exerce e entra na criação de conceitos que nos permitem ver coisas que o conceito de modernidade não nos permite ver.

Claro que há muitos críticos europeus da modernidade, como Marx, a Escola de Frankfurt, Walter Benjamin, Michel Foucault, mas suas teorias são maneiras de como os europeus se deram conta de alguns processos e se autocriticaram; esse é um problema deles, não um problema nosso. Ou é um problema nosso na medida em que é um problema deles e se expande. Mas a nossa questão – não somente na América, mas em todo o terceiro mundo que agora é chamado de “países emergentes” – é a perspectiva que emerge. Não que todo pensamento que surge na Ásia e na África siga Quijano, mas Quijano é uma das manifestações do pensamento decolonial que se enfrenta com a colonialidade, o lado mais obscuro da modernidade. Então, em 1990 surge o conceito de colonialidade, que mostra o lado obscuro da modernidade.

Colonização

Por colonização, entendemos os momentos históricos coloniais dos estados do Atlântico, como a colonização portuguesa na América, em Moçambique, no leste africano, a criação de Macau etc. Ou seja, a expansão de Portugal e Espanha no sul, na África e na Ásia, a colonização hispânica na África, na Ásia, na América do Sul, nas Filipinas, em Taiwan, o colonialismo holandês na Indonésia e em todo o sul asiático, o colonialismo francês no norte da África, Caribe e Vietnã, o colonialismo britânico no sul da América, na África e no sul da Ásia. Todos esses colonialismos eram colonialismos de assentamento, isto é, instituições e atores desses impérios se instalavam nas colônias.

Depois da Segunda Guerra Mundial, ocorreu um fenômeno interessante: colonialismo sem assentamento de colônias, que é o colonialismo dos EUA. O colonialismo dos EUA se faz com o assentamento de bases militares, de controle financeiro e controle do imaginário. Hollywood e a televisão tiveram um impacto enorme, a partir da década de 1950, na colonização do imaginário de todos os atores do mundo que tinham acesso a livros, imagens. Esses são distintos momentos de colonização.

Colonialidade

A colonialidade é a lógica comum a todos os colonialismos do Atlântico. Todos esses colonialismos têm suas distintas retóricas sobre a modernidade: a salvação por conversão, como propõe o cristianismo; a salvação por meio do progresso e da civilização, segundo a missão civilizatória da Inglaterra e da França, que significa exatamente isto: civilizar o mundo e fazê-lo progredir; e a salvação dos EUA, que consiste em garantir o desenvolvimento e a modernização do mundo.

Nos anos 1970, entramos na etapa neoliberal, que é a democracia de mercado. A colonialidade e a matriz colonial de poder, a estrutura profunda, é como o inconsciente da civilização ocidental. É isso que está colapsando em todos os sentidos e em todos os projetos: cristão, liberal, neoliberal e marxista.

Há muita discussão sobre o fato de que o marxismo perdeu potência de imaginário, mas Marx e os pensadores marxistas ofereceram uma quantidade de elementos que não podemos deixar de lado. Quando falo em marxismo, me refiro a um projeto político de revolução do proletariado, dos estados socialistas etc. Nesse sentido político, o marxismo e o comunismo, como vimos com a União Soviética, não podiam seguir adiante porque o projeto de Estado-nação em desenvolvimento era um projeto liberal.

O marxismo não tinha o seu projeto, mas um projeto contra o projeto liberal ou neoliberal. Embora Marx tenha deixado uma enorme herança que temos que considerar para a compreensão do funcionamento do capital, temos que ter consciência de que a matriz colonial de poder é muito mais do que o capital. A matriz colonial de poder envolve todo o imaginário: a cultura, a ciência, a filosofia, a arte, a estética – tudo isso é controlado pela matriz colonial de poder.

IHU – Como compreende os conceitos de “multipolaridade”, “decolonialidade” e “desocidentalização” à luz da crise dos projetos da modernidade?

Walter Mignolo – Aqueles projetos da modernidade aspiravam a uma ordem mundial unipolar, isto é, que o Ocidente, unipolarmente, se projetasse e transformasse todo o planeta e todas as formas de vida de pensar segundo o modelo desses projetos: cristão, liberal, marxista e neoliberal. É isso que está colapsando.

Os projetos da modernidade estão colapsando porque surgiram os projetos de multipolaridade no século XXI. Esses novos projetos surgiram por duas razões. Primeiro, porque o capitalismo hoje é global, mas, como um monstro de Frankenstein, escapou do laboratório. Uma das razões que nos permite entender o colapso da modernidade é que o Ocidente já não controla uma forma de economia que ele próprio inventou e que só pode inventar por causa da colonização do mundo, por todas as riquezas que lhe chegavam dos três continentes.

O vocabulário da multipolaridade é um vocabulário não ocidental. Ele começa no leste, com a China e a restruturação da Rússia. Depois do colapso da União Soviética, no início do século XXI, a Rússia foi se reconstruindo e reconsolidando sua força estatal. O Irã também começou a se associar a ambos os países e hoje eles são, como vemos, os três inimigos principais do projeto neoliberal de expansão.

Portanto, estamos falando de uma ordem mundial multipolar, o que significa que já não existe mais um estado que é o vigilante do mundo e que decide o que é bom e o que não é bom. Os estados já não querem mais receber instruções de como devem fazer as coisas e a multipolaridade é possível pela afirmação e riqueza econômica desses países, que lhes permite tomar decisões políticas fortes. China e Rússia têm impedido decisões ocidentais dentro do Conselho de Segurança da ONU desde o início do século XXI. Além disso, tem os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que tiveram um momento forte e agora estão se reconstruindo, como visto em reunião recente na capital do Uzbequistão, na Ásia Central, que é o lugar de onde se estão julgando as coisas.

A Ucrânia vive um momento decisivo. Não sabemos o que vai acontecer, mas sabemos a razão desse momento decisivo: porque, para a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, o Oeste é um local decisivo para avançar até a Ásia Central e, para os países do Leste, é um momento decisivo porque eles querem controlar a Ásia Central. Então, a multipolaridade nada mais é do que os projetos estatais, políticos, econômicos e ideológicos.

IHU – Em que consiste a ideologia?

Walter Mignolo – A ideologia não é como uma coisa boa ou má, mas um sistema de ideias. Ideologia, em seu sentido original, é um discurso sobre ideias. Nesse sentido, a ideologia implica que cada um desses atores está reconstruindo também sua própria memória, sua própria história e sua própria língua, que havia sido destituída pelos projetos universais.

O que significa dizer que haviam sido destituídas? Que tinham sido consideradas em segundo plano, porque as línguas que contaram a história foram as línguas modernas ocidentais, que são seis: italiano, espanhol, português, que foram fortes no Renascimento, inglês, alemão e francês, que foram fortes a partir da Ilustração. Essas são as línguas que controlam todo o conhecimento da ciência, da filosofia, da política econômica, das relações internacionais etc. Então, a multipolaridade não é somente a afirmação de estados fortes que se apropriam da economia capitalista, mas de estados que também começam a reconstruir sua própria forma de pensar e sua própria forma de ser.

Identidade nacional

A questão da identidade que se discute hoje, e tem muito peso, não é uma questão de identidade pessoal sobre quem eu sou, mas, sim, uma questão de identidade na esfera pública, como também é uma questão de identidade nas relações interestatais. O Ocidente tem a sua identidade, que foi construída a partir da invenção de que Grécia e Roma são o passado que herdamos, na América do Sul, com a conquista hispânica e portuguesa. Agora, todos esses estados estão reconstruindo seus próprios saberes, que não é propriamente um voltar ao passado porque já não se pode mais voltar ao passado por causa da modernidade. Então, aí surge um pensamento frente a isso, uma vez que a multipolaridade não pode deslocar ou negar 500 anos de unipolaridade, mas, ao contrário, tem que incorporá-la. A unipolaridade começa a ser parte do mundo multipolar. Essa é uma coisa complexa que requer mais explicação.

Pluriversalidade

A modernidade construiu uma ordem internacional unipolar, a partir da escola de Salamanca. Hugo Grotius quis o mesmo para o Império Holandês. John Locke quis o mesmo para o Império Britânico. Mas, junto com a unipolaridade política e econômica, a modernidade propôs e impôs – e foi acertada – a ideia de universalidade do conhecimento. E isso também está colapsando. O que surge agora é paralelo à multipolaridade: a pluriversalidade. Mas a pluriversalidade não é um projeto estatal. É um projeto da sociedade política. Dentro e fora da universidade, artistas, ativistas, jornalistas, todos começamos a nos dar conta de que a universalidade de conhecimento é uma ideia, um projeto regional e provincial do Ocidente, que distorceu as identidades – não as identidades pessoais, mas as identidades locais.

Para resumir e concluir, o colapso da modernidade é o colapso da unipolaridade da ordem mundial e da universalidade do conhecimento. Esse colapso surge por contradições internas, mas também pela afirmação da multipolaridade e da decolonialidade. A decolonialidade não só no sentido que eu e os que seguem Quijano entendemos, mas em sentido mais amplo. Muitos não falam em decolonialidade, mas tudo que estamos vendo com o surgimento do antirracismo, do feminismo, da pauta LGBTI, da reconstituição dos saberes indígenas nas Américas, na Nova Zelândia, na África e na Ásia, tudo isso é parte da decolonialidade global porque já não podemos mais viver querendo ser o que não somos, querendo ser o que a modernidade quis que fôssemos.

Espero ter dado uma anatomia da modernidade, do porquê ela está colapsando e o que está surgindo desse colapso. Está surgindo uma ordem mundial, mas também ordens locais, domésticas, em cada estado, da decolonialidade.

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