A Igreja de Jesus: missão e constituição

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09 Novembro 2021

 

"Essa mútua implicação-determinação entre estrutura social e vocação-missão cria um dinamismo que confere identidade à Igreja como ‘povo de Deus’, que é o mundo e para o mundo ‘sacramento’ de salvação ou do reinado de Deus", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro A Igreja de Jesus: missão e constituição, de autoria do Dr. Francisco de Aquino Júnior.

 

Eis o artigo.

 

Papa Francisco oferece uma “síntese peculiar” das intuições e orientações teológico-pastorais do Concílio Vaticano II e da Igreja latino-americana. Seu ministério pastoral só pode ser compreendido nessa tradição conciliar/latino-americana. Com Francisco podemos falar de uma nova etapa na recepção deste evento conciliar. Nessa perspectiva caminha o livro: A Igreja de Jesus: missão e constituição (Paulinas, 2021, 120 p.), de autoria do Dr. Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte-CE e professor de Teologia na Faculdade Católica de Fortaleza e da Universidade Católica de Pernambuco.

 

Capa do livro "A Igreja de Jesus: missão e constituição", de autoria do Dr. Francisco de Aquino Júnior (Foto: Editora Paulinas)

 

Em tempos de relativismos eclesiológicos, este livro que pertence à Coleção Primícias, objetiva: “ajudar a refletir sobre o mistério da Igreja a partir do Concílio Vaticano II, de sua recepção latino-americana e de sua retomada pelo Papa Francisco” (p. 12), colaborando “com a retomada do processo de renovação eclesial” (p. 12). Retomando alguns pontos importantes sobre o mistério da Igreja, Aquino Júnior inicia suas reflexões falando do “movimento de renovação da Igreja desencadeado pelo Concílio” (p. 12), trata de “dois pontos fundamentais nesse processo: missão e constituição da Igreja” (p. 12), e, conclui indicando alguns desafios atuais no processo de renovação/reforma da Igreja” (p. 12).

 

No primeiro capítulo – Processo de renovação da Igreja (p. 15-26), temos uma “eclesiologia fundamental” (p. 26), que nos confronta com o núcleo do mistério da Igreja: no que diz respeito à sua missão e à constituição e organização da Igreja. Considerando as profundas mudanças na Igreja trazidas pelo Concílio Vaticano II (p. 16-19), a Igreja da América Latina só pode  ser compreendida no contexto mais amplo de recepção do Concílio – o processo de renovação teológico-pastoral da Igreja da América Latina  (p. 20-23).

 

Por sua vez, o ministério pastoral do Papa Francisco só pode ser entendido nessa tradição conciliar/latino-americana: ele retoma e atualiza no contexto sócio-eclesial atual a tradição que vem do Concílio e da Conferência do Episcopado Latino-americano em Medellín (1968) - na superação da autorreferencialidade e do clericalismo. Insiste, por isso que a Igreja não existe para si mesma e nem pode estar centrada sobre si mesma, mas existe para a missão e sua missão é tornar o Reino de Deus presente no mundo. Reagindo contra o clericalismo insiste na estrutura sinodal da Igreja e na corresponsabilidade de todos na ação evangelizadora (p. 23-26).

 

 

No segundo capítulo – Igreja: sacramento do reinado de Deus (p. 27-56), tendo-se em conta que um “dos pontos mais fundamentais e decisivos do mistério da Igreja diz respeito precisamente à sua missão no mundo” (p. 27), destaca-se a relação essencial e constitutiva da Igreja a Jesus Cristo e sua missão salvífica de anúncio/realização do reinado de Deus no mundo, ou seja, não basta afirmar que a Igreja é inseparável de Jesus. É preciso explicitar como ou em que sentido ela está unida a ele: a unidade da Igreja com Jesus se dá na missão comum de anunciar/realizar o reinado de Deus no mundo (p. 27-36).

 

Retomam-se, por isso, as imagens bíblicas da Igreja  (p. 36-38)– dentre as muitas imagens bíblicas da Igreja, três ganharam destaque na reflexão teológica sobre a Igreja: povo de Deus (p. 38-39), corpo de Cristo (p. 39-41), templo do Espírito (p. 41-42). Apresenta-se também uma reflexão sobre as notas constitutivas da Igreja (p. 42-44), tanto as que aparecem no símbolo niceno-constantinopolitano: una (p. 44-45), santa (p. 45-47), católica (p. 47-48) e apostólica (p. 48-50), quanto outras que foram explicitadas recentemente: Igreja dos pobres (p. 50-53), dimensão ecumênico/inter-religiosa (p. 53-56).

 

No terceiro capítulo – Igreja: povo de Deus (p. 57-92) reflete-se sobre a estrutura social da Igreja. Isso porque “se a Igreja só pode ser entendida a partir e em função de sua missão de ser ‘sacramento’ do reinado de Deus no mundo, ela não pode se constituir e se organizar de qualquer forma. Sua condição de ‘povo de Deus’, ‘corpo de Cristo’ e ‘templo do Espírito’ precisa se concretizar e aparecer em sua forma de organização e em suas relações de poder” (p. 57). Em função de sua missão salvífica, a Igreja constitui e se organiza em termos de comunidade (p. 60-70), com seus carismas e ministérios (p. 71-81), e com seu caráter sinodal (p. 81-92). A estrutura social da Igreja é abordada em termos de “unidade”, “diversidade” e o “dinamismo”, ou seja, “falamos de Igreja como ‘povo de Deus’ em sua unidade-igualdade fundamental (comunidade) e em sua diversidade-pluralidade constitutiva (carismas e ministérios). 

 

 

Igreja é a o mesmo tempo uma e diversas: ‘unidade e diversidade’ ou ‘diversidade na unidade’. É isso diz respeito à sua identidade mais profunda enquanto inserida no desígnio de Deus para a humanidade e constituída como ‘sacramento de salvação’. Essa mútua implicação-determinação entre estrutura social e vocação-missão cria um dinamismo que confere identidade à Igreja como ‘povo de Deus’, que é o mundo e para o mundo ‘sacramento’ de salvação ou do reinado de Deus. Francisco tem falado desse dinamismo próprio da Igreja como um dinamismo sinodal” (p. 82).

 

No quarto capítulo – Desafios eclesiológicos (p. 93-112) indicam-se alguns desafios atuais no processo de renovação/reforma da Igreja. Desde o início de seu ministério como bispo de Roma, o Papa Francisco tem provocado e convocado a Igreja a um processo de renovação/conversão pastoral em vista de uma maior fidelidade à sua missão evangelizadora no mundo. Com as palavras de Aquino Júnior “o que Francisco faz é retomar e atualizar o processo de reforma eclesial desencadeado pelo Concílio Vaticano II (EG, 26) e dinamizado pela Igreja latino-americana, a partir da ‘opção preferencial pelos pobres’, que está no coração do Evangelho do reinado de Deus e faz da Igreja uma ‘Igreja pobre para os pobres’” (p. 96).

 

 

O avanço desse processo de renovação exigirá: a) recuperar o projeto de Jesus (p. 96-99), fazendo da “vivência do Evangelho o coração e a razão de ser da igreja. Tudo na Igreja (liturgia, catequese, ministérios, atividades etc.) deve girar em torno e em função de anúncio e da violência do reinado de Deus” (p. 99); b) deixar-se “guiar pelo Espírito” (p. 99-102), “vivendo segundo o mandamento único do amor e no serviço aos pobres e marginalizados” (p. 102); c) viver em comunidade (p. 102-105), organizadas e constituídas em “lugar de oração, de vida fraterna e de compromisso com os pobres e marginalizados; que estejam centradas na vivência pessoal, comunitária e social do Evangelho; que cuidem dos serviços/ministérios que são essenciais para sua vida e missão: Palavra, culto, caridade, unidade/coordenação; que sejam na sociedade ‘sinal e instrumento’ de fraternidade, perdão, compaixão, justiça e defesa dos direitos dos pobres e marginalizados” (p. 105); d) “não deixar cair a profecia” (p. 105-108), pela “insistência na inseparabilidade entre a fé em Deus e a observância e defesa do direito dos pobres e marginalizados” (p. 108).

 

Aquino Junior conclui (p. 109-112), dizendo que os “dois aspectos fundamentais do mistério da Igreja que dizem respeito à sua missão e constituição: ela é ‘povo de Deus’ (comunhão) chamado/enviado a ser ‘sacramento do reinado de Deus’ no mundo (missão). Esse duplo aspecto do mistério da Igreja encontra na liturgia eucarística sua expressão e sua fonte por excelência” (p. 109), transformando-nos naquilo que recebemos, corresponsáveis da missão de Jesus no mundo.

 

Aprende-se muito com a leitura deste livro que oferece uma síntese atualizada das temáticas eclesiológicas refletindo “sobre o mistério da Igreja a partir do Concílio Vaticano II, de sua recepção latino-americana e de sua retomada pelo Papa Francisco” (p. 12). Mesmo para um leitor familiarizado com as temáticas eclesiológicas esse roteiro didático se mostra interessante, pois sua linguagem acessível ajudará a “redescobrir o caráter e o dinamismo salvíficos da missão da Igreja” (p. 13), revigorará os “vínculos e a alegria da pertença e corresponsabilidade eclesiais” (p. 13), e contribuirá no “processo permanente de renovação/reforma da igreja em movimento de ‘saída para as periferias’ e em ‘dinamismo sinodal´” (p. 13).

 

Sobretudo quando alguns segmentos da Igreja estão “virando a página para trás” em relação à renovação do Vaticano II, da tradição eclesial latino-americana e na resistência ao Papa Francisco, o livro A Igreja de Jesus: missão e constituição ajudará as novas gerações “conhecer os rudimentos da teologia da Igreja na referência do ensino conciliar, para que possa viver a eclesialidade essencial no consenso da fé”, uma vez que “ o magistério conciliar é a fonte comum que nos liga à genuína tradição e às fontes da fé e, de modo indissociável, aos anseios da realidade presente”, em favor de uma renovação missionária-sinodal da Igreja.

 

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