Avanço irrefreável das mudanças climáticas também deteriora a saúde mental

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22 Outubro 2021

 

A deterioração que as mudanças climáticas estão produzindo na saúde das pessoas é cada vez mais tangível e abarca cada vez mais partes da vida humana. A crise climática e suas consequências mais tangíveis, como as ondas de calor extremo, estão minando a saúde mental dos cidadãos: ecoansiedade, desesperança e piora do ânimo se expandem com o avanço da crise climática, segundo o macroestudo Lancet Countdown, publicado nesta quinta-feira.

A reportagem é de Raúl Rejón, publicada por El Diario, 21-10-2021. A tradução é do Cepat.

“Todos os impactos estão piorando e ninguém está a salvo”, explica Marina Romanello, principal autora do estudo. “Os 44 indicadores analisados indicam um aumento sem trégua dos impactos das mudanças climáticas sobre a saúde”.

O trabalho, que contou com o envolvimento de 43 universidades e agências nacionais, revela como as condições para que doenças infecciosas se propaguem ganham espaço, inclusive em latitudes desconhecidas, aumentam as mortes atribuídas aos picos de calor e amplia a exposição aos danos causados pelas secas e incêndios florestais.

Agora, além disso, evidenciou-se, por exemplo, que os episódios de temperaturas extremas estão associados a “alterações afetivas e ao aumento de internamentos hospitalares relacionados à saúde mental e, inclusive, os suicídios”, conclui o trabalho.

 

Efeitos “extremamente estendidos”

 

“Constatamos, após revisar 6 bilhões de tuítes geolocalizados em 40.000 lugares e um milhão de indivíduos diários, que, durante os dias de ondas de calor, as expressões negativas aumentam”, explica Romanello. “Isso nos diz que a exposição à onda de calor piora o estado afetivo, o que indica que há um impacto na saúde mental”.

Em definitivo, oferece “uma visão” dessa influência. “Temos a certeza de que há impacto, mas ainda é muito difícil medi-lo, razão pela qual precisamos de pesquisa”, ressalta o diretor de Lancet Countdown, Anthony Costello.

Costello confirma que “os efeitos sobre a saúde mental estão extremamente estendidos”. Esses efeitos incluem “a ecoansiedade entre os jovens e um sentimento de desesperança que afeta muitos coletivos: as pessoas que perdem suas casas por uma inundação ou aumento do mar, os deslocados pela seca severa e as pessoas idosas vulneráveis diante das ondas de calor...”.

Sem ir muito longe, no último mês de setembro, a Universidade de Bath (Reino Unido) publicou uma grande pesquisa com 10.000 jovens, de 16 a 25 anos e de dez países diferentes, em que quase a metade confessava que a “inação” climática dos governos se traduzia em uma ansiedade que os condicionava em sua vida diária. Mais de 50% responderam que se sentiam assustados, tristes, ansiosos, cansados, impotentes e inclusive culpados.

“É surpreendente ouvir como tanta gente jovem do mundo todo se sente traída por aqueles que se supõe que devem protegê-los”, havia explicado a doutora Liz Marks, do Departamento de Psicologia da Universidade de Bath, ao revisar os dados da consulta. Era setembro de 2021. Apenas um mês depois, nessa quarta-feira, a ONU detectou que os governos mundiais ainda planejam aumentar a produção de combustíveis fósseis até 2030 muito acima do que permite o Acordo de Paris ser cumprido.

A Associação Americana de Psiquiatria, ao explicar a influência das mudanças climáticas na saúde mental, descreve que fenômenos exacerbados pelo aquecimento planetário, como as inundações e as secas prolongadas, têm sido associados a altos níveis de ansiedade e depressão.

Os episódios climáticos severos também se relacionam com aumentos em comportamentos agressivos e violência doméstica. “Experimentar esses episódios pode acarretar ocasiões de depressão ou estresse pós-traumático. Viver uma onda de calor extremo pode levar a um aumento no consumo de álcool, para se sobrepor ao estresse, e a internamentos de pessoas com uma doença mental”, afirmam os psiquiatras estadunidenses.

Além disso, os pesquisadores detectaram que a “desesperança” diante da crise climática se traduz em uma espécie de desmoralização: “A convicção de que as ações pessoais não podem afetar as mudanças climáticas”. Isso implica que, apesar de ter claro que esse fenômeno é uma ameaça, pouco se faz para reverter essa ameaça.

 

“Não é um problema do futuro, mas atual”

 

A epidemiologista e professora de Saúde Global na Universidade de Washington, Kristie L. Ebi, alerta que “os impactos sobre a saúde são tantos e tão complexos que os modelos não podem oferecer um número preciso ou exato sobre mortalidade, mas o impacto total é muito maior do que podemos estimar. Para todos, não só para nossos filhos. E é nesse exato momento que está impactando. Não é um problema do futuro, mas um problema atual”.

Entre os danos descritos por Lancet Countdown – que define como um “código vermelho para o futuro da saúde” –, o relatório destaca a expansão das infecções, os picos térmicos e a poluição do ar.

Os patógenos que propagam doenças encontram condições climáticas mais favoráveis para sobreviver (e infectar humanos). A possibilidade de que surjam surtos de dengue, chikungunya e zika é cada vez maior nos países de rendas mais altas, incluída a Europa, sentencia o trabalho. Também a chegada da malária a regiões montanhosas e frias.

Em outubro de 2018, a Espanha confirmou dois casos de dengue autóctone, quase certamente transmitido por mosquitos-tigre, uma espécie exótica que se estabeleceu pela mudança nas condições ambientais.

No norte da Europa e nos Estados Unidos, as condições para a proliferação das bactérias que provocam gastroenterites ou sepse são 56% maiores do que em 1980. Nos países empobrecidos, essa dinâmica das infecções coloca em risco os esforços que foram sendo desenvolvidos para o seu controle.

Em relação ao calor, os dados apontam que as pessoas mais vulneráveis, idosos e crianças, enfrentam mais frequentemente esse perigo [...]. A Europa é a região mais frágil diante do aumento do calor.

Na Espanha, embora o verão em seu conjunto tenha sido “normal” na península ibérica, de acordo com a análise sazonal da Agência Estatal de Meteorologia (não é o caso nos arquipélagos, onde foi quente ou muito quente), sim, experimentou-se uma onda de calor especialmente intensa entre os dias 11 e 16 de agosto. A Agência descreveu que “tanto as temperaturas máximas como as mínimas assumiram valores extraordinariamente altos, superando os 40 graus em grande parte do território peninsular e em ambos os arquipélagos”.

Além disso, o estudo afirma que 3,3 milhões de mortes em 2019 podem ser atribuídas às micropartículas mais finas, as PM 2,5, de origem humana, que poluem o ar. “Um terço delas provém da queima de combustíveis fósseis”, destacam.

Os países mais desenvolvidos são os que mais sofrem essa agressão. Uma análise das universidades de Harvard, Birmingham e London College calculava esse impacto em “oito milhões de mortes prematuras”.

Também chama a atenção que até 60% dos países aumentaram o número de dias que ficaram expostos a risco alto ou extremo de incêndios florestais, “sem quantificar ainda a ameaça da fumaça desses incêndios que afetam muito mais parcelas da população e com maiores consequências para a saúde”, esclarece o trabalho. Nesse verão, ficou claro o círculo vicioso que relaciona as mudanças climáticas, os grandes incêndios e as emissões de gases do efeito estufa.

Anthony Costello alerta os responsáveis políticos e empresariais que “falhar na hora de mitigar e nos adaptar às mudanças climáticas nos levará, inevitavelmente, a efeitos graves sobre a saúde das pessoas”. Ao que a epidemiologista Kristie Ebi acrescenta que “os países devem mitigar a crise climática para beneficiar a população, além do planeta”.

 

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