Jesuítas espanhóis e abusos: reconhecer para curar

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08 Fevereiro 2021

É a primeira investigação orgânica sobre os abusos sexuais por parte de uma ordem religiosa na Espanha. As províncias dos jesuítas publicaram no dia 21 de janeiro um relatório sobre os abusos cometidos por seus próprios religiosos [disponível em espanhol aqui]. De 1927 a 2020, 81 menores e 37 adultos sofreram violências por parte de 96 religiosos jesuítas.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada em Settimana News, 31-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na conclusão do documento (24 páginas de textos e tabelas) se diz:

“Este relatório é limitado, mas é uma tentativa de avançar rumo à verdade. Seguramente surgem novas questão e irão surgir no futuro. Não dizemos que isto é tudo o que aconteceu, mas sim tudo aquilo que sabemos até agora. Não pretendemos que o presente possa apagar o passado. O passado, infelizmente, não pode ser mudado. E nele há dores, há histórias de abusos e há também respostas insuficientes que contribuíram para agravar a dor das vítimas. De nossa parte, queremos pedir perdão.

“Como Companhia de Jesus na Espanha, queremos manifestar de forma inequívoca a nossa determinação em contribuir com a luta contra a tragédia dos abusos. É toda a sociedade que deve se conscientizar. É toda a cultura que se mostrou insuficiente para proteger aqueles que, em um determinado momento, estiveram em situação de vulnerabilidade. Mas não cabe a nós exigir responsabilidade dos outros, mas sim a nós mesmos. Temos que olhar na cara do que aconteceu. Não devemos minimizá-lo nem nos conformar se os dados são mais ou menos contundentes. Eles nunca são toleráveis. E não são números. São vidas e são histórias reais. As histórias de homens e mulheres que viram como a falta de limites de quem devia cuidar deles se converteu em abuso.”

“E as histórias de quem, sem ter clareza sobre esses limites, se tornaram agressores, deixando feridas que, às vezes, se arrastam por toda a vida. As histórias de quem denunciou e foi ouvido, e as de quem fez isso e foi mal atendido. As histórias das decisões insuficientes. As histórias de uma forma de enfrentar os abusos que não entendia a gravidade daquilo que havia. E as histórias de quem não soube ver ou não quis crer. Todas essas histórias estão aqui atrás. Oxalá se convertam em memória nítida e em escola para que nem hoje nem no futuro algo assim volte a ocorrer.

“Mais uma vez, expressamos o nosso pedido de perdão, a nossa dor pelo ocorrido e o nosso compromisso em contribuir com tudo o que estiver ao nosso alcance para caminhar rumo a uma sociedade livre de abusos.”

Clareza progressiva

Diante das primeiras denúncias, houve na Igreja uma reação diversificada: do ceticismo à incredulidade, da negação à raiva. Para muitos, não era possível que isso acontecesse. Para outros, era preciso reconhecer o vínculo necessário entre celibato e abuso.

Algo semelhante também aconteceu na Companhia, que agora obriga a ouvir a voz das vítimas e a sua dor. “E nos dói saber que companheiros nossos, jesuítas com quem convivemos e compartilhamos a missão, ultrapassaram aquelas linhas que jamais deveriam ser ultrapassadas”.

Nas últimas décadas, houve uma mudança de sensibilidade que demonstrou a insuficiência das medidas então em vigor: advertências, transferências, convite ao silêncio. O pedido de perdão por não ter estado à altura do Evangelho se transforma em uma decisão para que as estruturas da Companhia se tornem lugares seguros para os menores e os vulneráveis. Com disciplinas e protocolos a serem atualizados gradualmente.

O texto fala de abusos em uma acepção muito ampla (sexual, de poder, de condicionamento etc.) e foi elaborado com base nos arquivos da Companhia, nas memórias dos provinciais, na escuta das vítimas que se apresentaram, de jesuítas e leigos que podiam saber algo e através das mídias. É provável que algo tenha escapado. Fala-se de números e dados, mas nenhum nome é mencionado. Porque muitas vítimas pediram, porque alguns casos já são públicos, porque a profunda diversidade dos abusos não uniformize os agressores aos casos mais graves.

Como já escrito, as vítimas são 81 menores e 37 adultos em um período de 93 anos. Quanto aos abusos de menores, 17 dizem respeito a jesuítas vivos (seis meninas e 11 meninos) e a 47 jesuítas já mortos (12 meninas e 35 meninos). Quanto aos abusos de adultos, oito dizem respeito a jesuítas ainda vivos e 23 a jesuítas mortos.

Quanto às denúncias públicas: entre 1967 e 2012, foram 17: três dizem respeito aos anos 1960, duas aos anos 1970, três aos anos 1980, três aos anos 1990, e seis posteriormente. Está em andamento um processo civil e um processo canônico. As denúncias referentes a jesuítas falecidos, sempre contra menores, são 48.

Quanto às denúncias de abusos de adultos: para jesuítas ainda vivos, são oito; para jesuítas já mortos, são 23. Em 19 casos, também foram levados em consideração acusações não circunstanciadas e boatos generalizados que diziam respeito a 15 religiosos, mas sem resultados convincentes. Há o caso de uma suposta vítima que acusou nove religiosos que foi condenada no tribunal por chantagem.

Predadores: 1,8%

Os 96 jesuítas acusados entre 1927 e 2020 devem ser inseridos entre os 8.782 religiosos da Companhia ativos nos mesmos anos. Os acusados representam 1,08%. Um estudo comparativo sobre um caso estadunidense (John Jay College) oferece números muito mais alarmantes, falando de uma porcentagem de agressores entre os religiosos que sobe para 4,2%. Porém, os dados devem ser tomados com cautela, pois pode haver casos de abusos ainda não registrados.

Os locais mais comuns dos abusos são as instituições educacionais (faculdades, escolas e arredores) em relação às quais os novos protocolos de comportamento já estão em vigor. Depois, as casas das vítimas, que testemunham uma relação de confiança dramaticamente violada.

O texto lamenta as resistências dos responsáveis em reconhecer o envolvimento das comunidades e obras. A vontade da Companhia agora é de ouvir as vítimas, de responder às suas exigências, de facilitar os tratamentos e, possivelmente, a reconciliação.

As províncias religiosas pretendem dar origem a uma associação externa à Companhia, mais facilmente acessível a todos, também para quem não pretende mais ter qualquer relação com os religiosos. Também está sendo elaborado um protocolo que prevê reparações e indenizações às vítimas, sem qualquer pretensão de apagar o escândalo e o sofrimento.

O relatório também menciona a relação dolorosa com os coirmãos que se mancharam com os abusos, embora hoje haja maior clareza na definição dos crimes e das responsabilidades. Mas também em relação a eles há um caminho a ser aperfeiçoado para que encontre o equilíbrio entre exigências insuprimíveis de justiça e a possível reconciliação, entre o rigor dos métodos e a necessidade de não desperdiçar vidas e generosidade.

A reação da opinião pública espanhola ou não foi positiva, embora as associações das vítimas tivessem preferido a publicação dos nomes e um compromisso mais explícito com as indemnizações. A coragem da Companhia deveria fazer escola, mesmo que os números sejam constrangedores.

Como assinalou o jornal El País, nos seus arquivos, existem 123 supostos predadores no clero, dos quais apenas oito são jesuítas. O estudo da Compahia sugere números muito mais consistentes. Mas a verdade é a condição de toda fecundidade futura.

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