O analfabetismo religioso gera superstições dogmáticas

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23 Novembro 2020

"No analfabetismo religioso, de fato, a pregação integralista, extremista e violenta encontra um nutriente indispensável. Porque um jovem que se torna um assassino pensando que está agindo em nome de Deus não é um crente "radicalizado", mas sim alguém que se "superficializou". E assim, com a grosseria de quem nada sabe e se gaba disso, torna-se uma fera sem memória", escreve Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por Domani, 21-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O analfabetismo religioso não é o único que pesa sobre a sociedade italiana (e europeia) com todo o seu peso. Tem causas sociológicas, como a mudança na trajetória de indivíduos que não mais se tornam ateus agnósticos depois ou graças a uma prática religiosa católica, mas por vias próprias e mais precoces. E por causas históricas: entre as quais se destaca na Itália o antigo, tácito, acordo indestrutível entre dois sujeitos: de um lado o anticlerialismo total, que pensa que manter longe do circuito do conhecimento aquelas ciências que especificamente atravessam ou são atravessadas pela experiência religiosa (histórias, teologias, filosofias, filologias, exegeses) é o mesmo que afirmar o império do Lumes contra o obscurantismo; de outro, o clericalismo obtuso, que no fundo se aproveita daquelas tolices vestidas de irreverência feroz. Estas nada mais fazem que garantir a impermeabilidade entre mundos lidos com óculos oitocentistas. Mas o analfabetismo religioso também tem consequências específicas: mencionarei três.

Três consequências 

No analfabetismo religioso, de fato, a pregação integralista, extremista e violenta encontra um nutriente indispensável. Porque um jovem que se torna um assassino pensando que está agindo em nome de Deus não é um crente "radicalizado", mas sim alguém que se "superficializou". E assim, com a grosseria de quem nada sabe e se gaba disso, torna-se uma fera sem memória: alheio à história a que pertence, convicto de que o texto sagrado se reduz àqueles três versículos, comentados por um fanático e completamente esquecido diante de sua história. Repito: se podemos definir religião como a livre adesão a um dever superior (esta é a formulação que prefiro), nem mesmo essa vulnerabilidade à sedução homicida é exclusiva do crente e também pode ser alimentada incubando naquele espiritualismo ideológico que nomeia como metralhadora o nome de Deus e sempre em vão. No entanto, a sua relação com o analfabetismo religioso é muito relevante: porque o analfabetismo passa a ser uma forma de se exonerar do conhecimento e, portanto, da responsabilidade perante uma história que viu as mesmas doutrinas e as mesmas sacralidades invocadas ardentemente tanto por quem cometeu gestos de compaixão infinita e modesta, tanto por aqueles que perpetraram crueldades assombrosas aos gritos.

Além disso, o analfabetismo religioso torna menos sensível ao ressurgimento de ódios antigos, rejeitados, mas nunca desenraizados: como o antissemitismo em todas as suas nuances e denominações. Há uma tendência historiográfica-apologética que gostaria de distinguir o antissemitismo como expressão de racismo biológico de um antijudaísmo como ódio aos judeus devido "apenas" a razões religiosas. A distinção, que serviu a alguns para tentar neutralizar a radical condenação conciliar do antissemitismo "de qualquer pessoa e de qualquer tempo", não se sustenta do ponto de vista das fontes. E, em todo caso, não elimina a questão histórica de como e por que séculos daquela catequese - que acusava os judeus de "deicídio", que lia a diáspora como castigo, que se secularizou no ódio por um Estado que não se adequa ao papel de vítima indefesa – tenha representado diante das políticas discriminatórias e genocidas.

E como hoje jogue num antissemitismo que assume as mais diversas formas: da negacionista-neonazista à mais militante que obrigou (caso único no planeta) uma sobrevivente de Auschwitz como Liliana Segre a ter uma escolta, daquela da Radio Maria obcecada como em um pesadelo fascista de "Soros, o judeu rico" com a intenção de substituir o Cristianismo pelo Islã, até a mais esquerdista que distingue o Deus do Antigo Testamento dedicado ao ensinamento (os judeus, ça va sans dire) do olho por olho, dente por dente, do Deus do Novo Testamento bom e misteriosamente anunciado por um mestre que na realidade, como explica a monumental obra de John P. Meier, é Um judeu marginal. Finalmente, o analfabetismo religioso tem o papel de permitir a qualquer pessoa que possa se permitir reduzir complexas questões histórico-religiosas, teológico-filosóficas, exegéticas a opiniões simplificadas, simplistas, simplórias, com uma superficialidade que se percebia antes mesmo de ver a descriminalização de disseminação de bobagens nos tempos de Covid.

Esse processo teve um lado fanático-carola em que cada relíquia se torna "verdadeira" - um lado que lembra os "no Vax" - e, lamentando as reações adversas à experiência religiosa, levanta a bandeira de um dogmatismo "no God", que é entusiasta da própria ignorância. Pontificando em âmbitos de pesquisa científica histórico-teológica ou histórico-crítica não menos ricos, complexos e especializados do que aqueles concernentes o grafeno, os computadores quânticos, as restituições de carbono à crosta terrestre ou a predictive Al em um contexto de analfabetismo religioso significa dar autoridade à superficialidade depreciativa. Assim, embora ninguém ache censurável a ideia do saudoso Giulio Giorello, segundo o qual sejam quais forem as convicções pessoais, quem faz parte da comunidade científica internacional nunca, jamais, deve estar disposto a desistir em nome de qualquer crença religiosa ao telescópio de Galileu ou aos aceleradores de partículas ou - acrescento eu – os direitos humanos, ninguém é obrigado a conter o riso diante da degradação da "convicção pessoal" a "superstição". Degradação que nada tem a ver com sátira (que sempre é lícita quando é zombaria ao poder e à força, nunca quando é humilhação da marginazação e da fraqueza): porque descende de um clichê típico do dogmatismo.

A métrica dos fanáticos

Há poucos dias me perguntei se um artigo generoso do professor Piergiorgio Odifreddi que apareceu neste jornal pertencia a essa degradação gratuita e suas implicações relevantes. Com grande magnanimidade Odifreddi presenteou o título de exegeta do Antigo Testamento a um escritor de diversidades, publicado por uma editora que tem a seu crédito (eles os definem) "o perfil psiquiátrico de Francisco de Assis", a obra sobre a Bíblia destinada a “desmantelar o colosso de argila e desnudar as vistosas hipocrisias”, e “uma síntese ágil dos acontecimentos e aspectos ligados às páginas mais tristes da história da Igreja Católica Romana” e também um livro sobre a “suposta revelação” ao profeta do Islã. Nada a dizer sobre o fato de Giuseppe Verdi (este é o nome do fundador da editora) se sentir com vocação para desmascarar falsas crenças e para o apostolado do agnosticismo e do ateísmo: ele faz parte do mercado do sensacionalismo popular e da liberdade de opinião que deve ser defendida sem hesitação, mesmo quando, como neste caso, evoca estereótipos antissemitas dos quais não tem conhecimento.

O que acho que deve ser observado, no entanto, é que nessa operação para libertar a humanidade da tirania da crença, se recorra a uma métrica tipicamente integrista. Porque se há um sinal do fanatismo mais carola, é a necessidade de expressar o desprezo pela crença alheia, seja ela uma fé outra ou uma rejeição dela. A incapacidade de viver as próprias crenças em paz e a necessidade de fazer recair em categorias abstratas de "outros" culpas, vícios, tratados como "superstições, em suma, é o mais "supersticioso" que existe. Expressão que – se for verdade a etimologia ciceroniana segundo a qual é aquele que entedia de sacrifícios os deuses, que pede que seus filhos se tornem "sobreviventes" em caso de catástrofe, ou se for mais séria a etimologia que assim nomeia aquele que sempre está na soleira do templo - adquiriu uma conotação depreciativa graças a Santo Agostinho.

É ele quem retoma de Lactâncio a definição do cristianismo como religio, porque liga o homem ao criador e o liberta da "superstição" (omni superstitione careamus). E é daí que Spinoza (autor honestamente difícil de reduzir a um "no God" ante litteram) tomará um termo para retorcer contra a Igreja Reformada, acusando-a de ser a perversão de um ensinamento divino traído. Hoje podemos nos contentar com uma classificação sorridente das crenças como superstição para compreender a complexidade de seus entrelaçamentos, a profundidade de suas tradições hermenêuticas, as reservas de libertação e de paz que ainda precisam expressar, sendo entendido que aquelas de violência as expressaram muitas vezes e de muitas maneiras?

Sem ofensa. Para mim, não. Aliás, ao contrário, o contexto do pluralismo religioso em que vivemos não precisa de sarcasmos e não pode se contentar com descrições extrínsecas de seu próprio objeto que não assumem a longa duração como um traço qualificativo e infungível de um conhecimento crítico peculiar. Não é verdade, como dizia um refrão da igreja, que para estudar essas temáticas serve a fé para poder entende-las de dentro; e não é verdade, como anuncia a moda de um religiosidade que autocertifica a sua "neutralidade", que é preciso ser ateu para ter uma visão secular do objeto: é necessária a mesma inteligência com que o medievalista entende a idade média sem nunca ter estado lá, mas sabendo que para quem vivia aquele presente, aquele era o presente.

Precisamos da mesma objetivação com que o filólogo anota as variantes de Platão, não para dizer que nada sabemos sobre Sócrates, mas para compreender de que modo entendemos o que Platão queria nos dizer sobre ele.

Porque as experiências religiosas, gostemos ou não, não são uma credulidade a que se deve dar primazia (isso é, sim, um tanto antissemita) pela teimosia do judaísmo em crer nela, seguida de uma credulidade cristã e depois pelas outras "superstições". Sob a estratificação de textos, concatenações de uma interpretação infinita em que o que foi entregue a uma tradição assume a dor e a compaixão sedimentadas nas camadas mais profundas e assume a responsabilidade por um hoje de lutos e consolação.

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