Geração de energia a carvão segue caindo em todo o mundo, mas ainda aquém das necessidades climáticas globais

Foto: Caviquiolo | Flickr

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28 Março 2020

Pelo quarto ano consecutivo, o número de usinas de energia operadas a partir de carvão caiu em todo o mundo em 2019, de acordo com um novo relatório publicado hoje pela Global Energy Monitor, com apoio do Greenpeace International, Sierra Club, e o Centre for Research on Energy and Clean Air.

A reportagem é de Bruno Toledo, publicada por ClimaInfo e reproduzida por EcoDebate, 27-03-2020.

Esta é a 5º edição do relatório, que faz um levantamento sobre projetos novos de energia termelétrica de carvão. Dentre suas conclusões, destaca-se que, desde 2015, houve uma queda anual de 16% na construção de novas infraestruturas para carvão no setor, totalizando 66% de queda ao longo desses anos. Em 2019, a construção de novos projetos desse tipo foi 5% menor que em 2018 e 66% menor que em 2015.

A despeito do declínio observado em novos projetos de carvão, a capacidade instalada de geração energética a partir desse combustível cresceu cerca de 34,1 gigawatts (GW) em 2019, o primeiro crescimento desde 2015. Quase 2/3 (43,8 GW) dos 68,3 GW adicionados foram instalados na China. Fora desse país, a capacidade instalada caiu pelo segundo ano consecutivo, já que o resto do mundo desativou mais capacidade (27,2 GW) do que construiu (24,5 GW).

“A geração energética a carvão caiu de forma recorde em 2019, à medida que fontes renováveis cresceram e a demanda caiu”, diz Christine Shearer, principal autora do relatório e diretora do programa de carvão do Global Energy Monitor. “De toda forma, o número de novas plantas adicionadas ao grid acelerou, o que significa que as usinas globais de energia a carvão estão operando menos – ou seja, mais plantas gerando menos energia. Para bancos e investidores que continuam sustentando esses projetos, isso significa menor lucro e risco mais elevado”.

Ainda que a implementação de novos projetos energéticos a carvão tenha caído ao redor do mundo, as tendências observadas na China seguem sendo alarmantes. A quantidade de nova capacidade energética a partir desse combustível fóssil adicionada ao grid aumentou em 2019, mesmo que a utilização dessas plantas tenha caído, o que indica uma sobrecapacidade piorada. Projetos anteriormente abandonados foram retomados já que os controles sobre sobrecapacidade foram flexibilizados no país.

“O lobby da energia a carvão na China está pressionando por centenas de novas usinas termelétricas no país até 2030, em contrariedade aos compromissos globais da China de ser um contribuidor na luta contra a mudança do clima”, explica Lauri Myllyvirta, analista-chefe no Centre for Research on Energy and Clean Air. “Como formuladores de políticas públicas buscam por outras formas para estimular a economia após a crise do coronavírus, uma onda de novos projetos de carvão seria o pior tipo de desperdício. Tanto os compromissos climáticos da China como a maior competitividade de tecnologias de energia limpa significam que as instalações para energia limpa vão se acelerar, limitando o espaço para geração a carvão crescer”.

Entre os membros da Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a capacidade energética a carvão vem decaindo desde 2011. Quase metade da capacidade abandonada em 2019 se deu nos Estados Unidos, a segunda maior já registrada. Na União Europeia, o abandono de capacidade foi o 4º maior registrado. Sob Trump, o descomissionamento de usinas a carvão cresceu 67% em comparação com a administração Obama: a média de desativação sob a gestão anterior foi de 8,2 GW anuais entre 2009 e 2016, e de 13,7 GW por ano no atual governo (2017-2019) (veja figura abaixo).

“A desativação de usinas a carvão não apenas continuou sob Trump, mas se acelerou nos últimos”, diz Neha Matthew-Shah, representante do Sierra Club para justiça ambiental internacional. “O carvão simplesmente não é competitivo frente a alternativas mais baratas e menos poluentes para a economia energética moderna. Está na hora dos Estados Unidos se conscientizar disso e abraçar a transição energética limpa”.

Enquanto Estados Unidos e União Europeia se distanciam do carvão, o Japão é agora o maior gerador de energia a carvão entre os países da OCDE. O país tem 11,9 GW de capacidade energética a partir desse combustível em desenvolvimento doméstico, o que aumentaria as emissões de dióxido de carbono ao longo da vida útil de sua infraestrutura de carvão existente em 50% (de 3,9 para 5,8 bilhões de toneladas). Fora de suas fronteiras, o capital japonês está por trás de 24,7 GW em novos projetos a carvão, maior do que a capacidade instalada atual da Austrália (24,4 GW).

“Ainda que o carvão siga avançando em alguns países asiáticos, no resto do mundo o que vemos é claramente um declínio desse combustível para geração de energia. Esta é uma tendência global que deve continuar nos próximos anos”, aponta Gyorgy Dallos, estrategista global do Greenpeace International. “Infelizmente, China e Japão seguem contrariando essa tendência global, se tornando os países com maior capacidade em instalação e financiando projetos desse tipo na Ásia”.

Mesmo com a queda no desenvolvimento de novos projetos energéticos baseados no carvão em 2019, o mundo segue fora de uma trajetória que permita viabilizar as metas do Acordo de Paris sobre mudança do clima. A capacidade instalada para geração de energia a carvão precisa cair 80% até 2030 para que possamos ter condições de manter o aumento de temperatura média global abaixo de 1,5oC, de acordo com projetos do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (IPCC). Além disso, as Nações Unidas pediram que o ano de 2020 seja o último para novas propostas de plantas energéticas a carvão.

“O mundo já possui mais capacidade energética a carvão do que poderia ter dentro do Acordo de Paris”, diz Greg Aitken, analista de pesquisa financeira para o Global Energy Monitor. “Está na hora dos investidores e financiadores se alinharem à realidade”.

Nota:

O tamanho médio das unidades geradoras a carvão é de 350 megawatts, sendo que a maioria das centrais elétricas tem duas ou mais unidades deste tipo.

Leia o relatório aqui.

Tabelas de resumo adicionais aqui.

Metodologia Global Coal Plant Tracker aqui.

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