A mente do Papa Francisco

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30 Abril 2019

Não é fácil escrever uma biografia intelectual de um homem que frequentemente afirma que “a realidade é mais importante do que as ideias”. Não há dúvida de que o Papa Francisco é um pensador altamente inteligente e flexível, mas, ao contrário de seus dois antecessores imediatos, ele não obteve um doutorado nem em teologia nem em filosofia. Como qualquer um que tenha lido suas encíclicas e exortações apostólicas saberá, esse papa prefere a retórica, a arte da persuasão, à dialética, a ciência da prova conclusiva. Dito isso, seria um erro desenhar esse contraste com muita força. Como Massimo Borghesi mostra em sua abrangente pesquisa sobre as fontes que moldaram o pensamento do papa, Francisco leu muito ao longo de cinco décadas. Essa leitura molda o modo como ele olha para o mundo e como ele exerce o Ofício Petrino.

O comentário é do teólogo estadunidense J. Matthew Ashley, professor da Universidade de Notre Dame, publicado por Commonweal, 19-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O relato de Borghesi é ricamente documentado e cita generosamente as próprias palavras do Papa Francisco, incluindo quatro gravações de áudio que o papa forneceu especificamente para esse projeto. A edição italiana original do livro tem como subtítulo “Uma biografia intelectual”, e “Jorge Mario Bergoglio: uma biografia intelectual” (Ed. Vozes, 2018) segue, de fato, uma sequência geralmente cronológica. Ao fazer isso, ele se baseia fortemente na biografia de Austen Ivereigh, “The Great Reformer: Francis and the Making of a Radical Pope” [O grande reformador: Francisco e a construção de um papa radical].

Assim como Ivereigh, Borghesi entende a vida e o trabalho do papa como uma negociação sempre em mudança de várias polaridades encontradas na Igreja e na sociedade, polaridades que foram postas frente a frente durante toda a sua vida adulta. Por exemplo, na Argentina dos anos 1970, Borghesi identifica uma polaridade entre um “messianismo revolucionário” (que para ele incluía a teologia da libertação) e “a cruzada anticomunista dos homens de uniforme” (a ditadura militar da Guerra Suja da Argentina).

Entre os jesuítas, durante o mesmo período, havia outra polaridade entre os valores tradicionais da vida religiosa, como eles haviam sido vividos na Argentina, e a nova visão da vida jesuíta proposta pela 32ª Congregação Geral da ordem, focada na defesa do pobre e na promoção da justiça.

Em uma análise incisiva da Amoris laetitia, Borghesi enquadra o debate sobre essa exortação apostólica em termos de ainda outra polaridade: misericórdia e verdade. E, relacionada com isso, está a polaridade entre o elemento doutrinal e o elemento pastoral dos ensinamentos da Igreja.

A resposta de Bergoglio a essas polaridades e outras tem sido reconhecer o valor em cada polo, embora reconhecendo os perigos de absolutizar um sobre o outro. Ele não propõe, de acordo com Borghesi, uma “síntese” que reconcilie os dois. Por um lado, isso parece muito com Hegel (ou Marx, nesse sentido), e Borghesi tem uma preocupação quase obsessiva em separar o pensamento do papa dessa tradição alemã em particular (embora não do romantismo alemão derivado do concorrente de Hegel, Friedrich Schelling).

Qualquer síntese a que se possa chegar, através do diálogo e do discernimento, é provisória, sempre sujeita a renegociação à medida que a situação muda. É isso que significa que a realidade é maior do que as ideias. Uma razão pela qual esse papa acolhe a dissensão e o debate é a sua compreensão da necessidade de respeitar e preservar uma negociação aberta dos diversos valores em jogo nessas polaridades. É sempre necessário que aqueles que representam lados diferentes continuem conversando entre si, desde que percebam que a sua unidade é sempre maior do que qualquer coisa que possa dividi-los no momento.

Esse marco geral para entender como Francisco abordou os conflitos que ele teve de enfrentar como papa é muito frutífero, embora carregue consigo o risco de simplificar demais os diversos lados dos vários conflitos, a fim de enfatizar sua oposição mútua. Essa é uma tentação à qual Borghesi sucumbe às vezes, por exemplo no seu retrato da teologia da libertação dos anos 1970 e 1980.

Borghesi tem vários nomes para o estilo básico de pensamento que o Papa Francisco desenvolveu para lidar com o conflito, muitas vezes chamando-o de “dialética antinômica”. Ao usar o termo “antinômico”, Borghesi não quer sugerir que a abordagem de Francisco é oposta à lei moral, mas sim que ela reconhece a presença irredutível – e potencialmente criativa – de diferentes tipos de antinomia na vida humana.

Durante décadas, Francisco sentiu-se atraído por pensadores que reconhecem essa “dialética antinômica”. Alguns deles desenvolveram sistemas de pensamento – na filosofia, teologia, teoria política ou história – que elaboram seus detalhes. Outros reexaminaram a história da Igreja ou da teologia cristã a partir do ponto de vista que ela oferece.

A história começa nos anos 1960, durante a formação do futuro papa como jesuíta. Seus estudos foram dominados por uma neoescolástica calcificada que estava apenas lentamente dando lugar às novas teologias que surgiram nos anos 1950 e 1960. Sob a influência de Miguel Ángel Fiorito, no entanto, o jovem Bergoglio desenvolveu um interesse vitalício pelo estudo da espiritualidade inaciana. Um livro do jesuíta francês Gaston Fessard, “La Dialectique des ‘Exercices Spirituels’ de Saint Ignace de Loyola” [A dialética dos ‘Exercícios Espirituais’ de Santo Inácio], tornou-se “uma força importante na formação intelectual de Bergoglio”, escreve Borghesi. Fessard apresenta os Exercícios Espirituais como um método para discernir um caminho na presença de um Deus que é encontrado nos menores detalhes da vida, mas que também excede até o horizonte mais expansivo do futuro que podemos imaginar.

Francisco diz que também foi influenciado por Michel de Certeau, outro jesuíta francês. A biografia de De Certeau sobre um dos primeiros jesuítas, Pedro Fabro, impressionou profundamente o jovem Bergoglio, porque enfatizava o caráter místico do carisma inaciano, em vez de retratar a espiritualidade jesuíta como um regime de treinamento regrado para os soldados de Cristo. Essas e outras obras semelhantes lançaram a base espiritual na qual Bergoglio encontrou ferramentas intelectuais correspondentes nas décadas posteriores.

Durante o período em que ele foi o superior dos jesuítas da Argentina, Bergoglio foi atraído por vários pensadores latino-americanos que forneceram algumas dessas ferramentas. Da filósofa Amelia Podetti, Bergoglio aprendeu primeiro a pensar em termos de “periferias”. Ele também se sentiu atraído pela sua leitura da “Cidade de Deus” de Agostinho, que ainda influencia o seu modo de pensar sobre Igreja e Estado, fé e política. Enquanto isso, ele estava se envolvendo na chamada “teologia do povo” representada por figuras como Lucio Gera, Rafael Tello e Juan Carlos Scannone.

Mas Borghesi acredita que foi o filósofo e crítico social uruguaio Alberto Methol Ferré quem teve a maior influência sobre Bergoglio. E, assim, um capítulo inteiro do livro é dedicado a apresentar o pensamento de Methol Ferré, com apenas uma referência ao próprio Bergoglio. De acordo com Borghesi, Bergoglio tirou de Methol Ferré uma crítica particular do modelo liberal e tecnocrático-hedonista de sociedade que tem dominado o nosso mundo globalizado. Bergoglio também adotou o ideal de Methol Ferré da Igreja latino-americana como uma “Igreja-fonte” em vez de apenas um reflexo da Igreja da Europa.

Em seguida, Borghesi volta-se para a influência de Romano Guardini, cuja obra Bergoglio foi enviado para estudar na Alemanha em 1986. Embora as quatro máximas que o papa muitas vezes repete (o tempo é superior ao espaço; a unidade prevalece sobre o conflito; a realidade é mais importante do que a ideia; o todo é superior à parte) possam ser rastreadas até um político argentino do século XIX, Juan Manuel de Rosas, seus fundamentos conceituais são em grande parte tomados de empréstimo de Guardini. Borghesi expõe esses fundamentos em detalhes úteis e também examina a influência de Guardini no diagnóstico do papa sobre a sociedade moderna na Laudato si’.

Por fim, Borghesi expõe a influência sobre Francisco do fundador do Comunhão e Libertação, Luigi Giussani, cujo livro “L’attrattiva Gesù” (“A atratividade de Jesus") ajudou a moldar as visões do papa sobre a centralidade do encontro com Cristo, a prioridade da pastoral e a preeminência da misericórdia.

Ao longo do caminho, Borghesi apresenta muitas outras figuras – muitas para abranger aqui – incluindo Yves Congar, Henri de Lubac e Hans Urs von Balthasar. Ao ler esse livro, fica-se com uma profunda sensação da curiosidade e aptidão intelectual do Papa Francisco, assim como da sua originalidade. Ao buscar as raízes intelectuais de Francisco, o próprio Borghesi assumiu uma tarefa difícil: é realmente apenas com Guardini que as linhas de influência claras e diretas se tornam aparentes. Para outras figuras, temos o testemunho do papa de que ele leu e aprendeu com sua obra como um todo, mas poucas declarações diretas sobre quais elementos particulares de seu pensamento o impressionaram.

E é aí que surge uma dificuldade com esse livro. Borghesi gosta de oferecer visões abrangentes de todo um sistema de pensamento (o de Methol Ferré, por exemplo), mas isso significa que o leitor às vezes fica imaginando exatamente quais partes do sistema em questão realmente influenciaram Francisco e como as ideias de um pensador se conectam com os de outro no pensamento do papa.

Mesmo assim, Borghesi consegue fornecer uma investigação convincente sobre as várias fontes intelectuais do papa e sugerir como elas contribuíram para a sua compreensão fundamental do mundo e da Igreja. A Igreja, para Francisco, é em si mesma uma rica sinfonia de diferenças e polaridades, uma realidade que é sempre maior do que qualquer conjunto de ideias. Ao ressaltar isso, Borghesi nos ajuda a entender as raízes intelectuais da crença do Papa Francisco de que as diferenças e as discordâncias dentro da Igreja devem frequentemente seguir seu curso – porque ninguém, nem mesmo o papa, está em posição de dizer antecipadamente o que elas podem nos ensinar. Nenhuma visão doutrinal ou teológica, por mais conceitualmente sofisticada que seja, está equipada para resolver todas as discordâncias preventivamente.

Finalmente, Borghesi nos ajuda a ver que a originalidade do Papa Francisco vem não apenas da profundidade de sua formação intelectual, mas também de sua prática de buscar a resolução dos conflitos não somente através de uma escuta cuidadosa e de uma reflexão ponderada, mas também através do discernimento orante. É exatamente o tipo de originalidade que se poderia esperar do primeiro papa jesuíta.

  • Massimo Borghesi. Jorge Mario Bergoglio: uma biografia intelectual. Petrópolis: Vozes, 2018, 304 páginas.

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