Quarenta anos após a morte do jesuíta Gaston Fessard. Profeta e pensador

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20 Junho 2018

Em outubro de 2017, apareceu um estudo muito importante que retrata a formação intelectual do Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual (Editora Vozes: 2018). A primeira e mais importante descoberta do seu autor, o filósofo Massimo Borghesi, vem de uma inesperada confidência do próprio papa, que revelou que a origem de seu pensamento foi a releitura de uma grande obra do Padre Gaston Fessard (1897-1978): o escritor “que teve uma grande influência sobre mim foi Gaston Fessard. Li várias vezes a Dialectique des Exercices spirituels de Saint Ignace de Loyola e outras obras dele. Ele me propiciou tantos elementos que depois foram misturados", relatou o Papa a Borghesi.

O artigo é de Frédéric Louzeau, publicado por L'Osservatore Romano, 16|17-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Quarenta anos após sua morte, em 18 de junho de 1978, o nome de Fessard permanece desconhecido e seu pensamento muito pouco compreendido e estudado. No entanto, ele foi um dos maiores filósofos e teólogos do século XX, deixando uma produção oceânica, cujo valor e cuja extensão ainda hoje são apenas imagináveis, e um dos intelectuais mais corajosos no testemunho de Cristo na dramática atualidade do século XX.

Quem era esse homem e por que seu pensamento é tão importante? Três palavras poderiam caracterizá-lo: foi um profeta, um pensador do mais alto nível, um santo.

Um profeta em primeiro lugar, no sentido bíblico do termo, segundo o qual um homem de Deus é constituído guardião para designar a luta espiritual de uma geração. Foi uma das raras mentes a perceber, desde os anos 1930, uma verdadeira "guerra dos deuses" entre o liberalismo, o comunismo e o nazismo, e a identificar o exato paralelismo e a comum desumanidade das duas ideologias totalitárias. Como os profetas de Israel, que clamam no deserto, semelhante discernimento valeu-lhe sofrimentos de todo tipo, até mesmo dentro da Igreja, que ele escolheu suportar com paciência e abnegação para o bem do Corpo de Cristo que é a Igreja ( cf. Colossenses 1, 24).

Ele também foi um pensador do mais alto nível. Sua lucidez profética era acompanhada por um método de reflexão, de discernimento e de decisão. Jesuíta aos dezesseis anos de idade, ele encontrou sua inspiração nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, cujo objetivo é descobrir em todas as circunstâncias a vontade de Deus para se unir a ela. Mas Fessard logo fez uma descoberta decisiva: no princípio concebido para escolher um estado de vida na Igreja, o método inaciano poderia ser estendido a toda decisão que a liberdade quisesse tomar na história. Ele então realizou um esforço especulativo inigualável, cujo testemunho são os três volumes de La dialectique des Exercices spirituels de Saint Ignace de Loyola (1956, 1966, 1984), e Le Mystère de la Societé (1948, 1996) para aplicá-lo à resolução de problemas da atualidade. Para tanto, não hesita em adotar a problemática e os métodos dos grandes pensadores modernos, incluindo os adversários do cristianismo. Ele sabia que, na verdade, tinha que se confrontar com as mesmas questões deles, queria repensá-las em sua verdade e trazer-lhes as soluções da fé cristã. Ele fez com Hegel, Marx e Kierkegaard o que São Tomás realizou em seu tempo com Aristóteles, Averróis e Avicena.

O mais extraordinário é que naquele gesto, ao contrário da maioria dos intelectuais, incluindo os teólogos, ele não cedeu um único instante ao fascínio mortal dos pensamentos que ele explorava.

Quem, se não um santo, poderia fazer tal trabalho? No final de sua vida, o seu amigo mais antigo e leal, o Cardeal Henri de Lubac (1896-1991), comparou sua compreensão da fé a aquela dos santos Agostinho, Anselmo, Tomás de Aquino e do Beato John Henry Newman. Longe de optar por uma atitude meramente defensiva, tão cômoda como ineficaz, Padre Fessard de alguma forma se colocou na escola dos protagonistas do drama para discernir a parte de verdade e renovar a compreensão do mistério de Cristo, em uma fidelidade inabalável como testemunho das Escrituras, bem como com os ensinamentos da tradição e do magistério. Não é irrelevante que os pensadores que não compartilham a fé cristã tenham percebido melhor não só o valor do seu pensamento, mas também a sua santidade, como testemunharam Raymond Aron, Jeanne Hersch e Stanley Rosen.

O jesuíta Michel Sales (1939-2016), seu discípulo e amigo, convenceu-se que um novo Santo Inácio de Loyola havia sido oferecido em dom para a Igreja e para a humanidade, para que enfrentassem juntos e dignamente os desafios do tempo presente. E esses não faltam, a partir da desorientação geral dos povos europeus, da desintegração da ordem internacional e da crise socioambiental planetária.

Numa época em que a humanidade deve regenerar seu dom intelectual e afetivo para enfrentar o novo estado do mundo, esse pensamento hoje desconhecido e sem iguais poderia ser de grande ajuda. Aqueles que tentam discernir sua situação histórica e querem desempenhar um papel para a paz, seriam recompensados se o fizessem.

Novas oportunidades estão se abrindo. Primeiro, nestes dias serão publicadas duas obras do falecido Michel Sales sobre o pensamento de seu mestre e sobre um ponto nevrálgico de seu método, a dialética paulina do pagão e judeu. Além disso, a primeira conferência internacional sobre o assunto realizou-se em Paris, em 18 de junho.

À pergunta "O que significa para um jesuíta ser papa?", Francisco respondeu que é do discernimento inaciano que ele retirou mais luz para o exercício do governo. Melhor ainda, esse discernimento o papa Francisco o coloca em ato não só no seio da Igreja, especialmente na reforma da Cúria Romana, mas também em favor de toda a humanidade, em um momento da sua história em que, tendo que enfrentar desafios de alcance mundial, ela mais precisa.

O esforço de Fessard para universalizar o método inaciano ajudaria a explicar os fundamentos teológicos e filosóficos não só dos textos do Papa Francisco, mas também e principalmente da conversão missionária e pastoral da Igreja de que hoje todos falam.

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